João Luiz Mauad comenta “O imposto de Pigou e as análises utilitaristas”

Joao Luiz Mauad

Por João Luiz Mauad

Leio no site do G1 que pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão propondo a taxação progressiva de alimentos com altos teores de gorduras saturadas, como forma de tentar desestimular o hábito de consumo desses alimentos, tidos pelos especialistas como causadores de sérios problemas de saúde na população brasileira.

A teoria que defende a taxação das atividades geradoras de “externalidades negativas” não é nova. Ela foi inicialmente desenvolvida pelo economista britânico Alfred C. Pigou e tem adeptos nos quatro cantos do globo, principalmente entre economistas keynesianos. Não por acaso, depois de Keynes, Pigou é um dos maiores ídolos dos intervencionistas.

A teoria é muito utilizada na defesa de impostos sobre poluição e, mais recentemente, sobre a emissão de CO2, como forma de tentar reverter o aquecimento global. O problema, como bem define Bryan Caplan, é que, “se você dá ao governo o poder para taxar coisas que provocam ‘externalidades negativas’, ele terá uma excelente justificativa para taxar quase tudo, e provavelmente vai usá-la com avidez. Pessoalmente, tenho notado uma correlação quase perfeita entre coisas que os economistas acham ruins e outras que eles acham que provocam ‘externalidades negativas’.”

O imposto de Pigou demonstra como as análises meramente utilitaristas podem ser perigosas. Utilizar o conceito de eficiência como medida do aproveitamento dos fatores (escassos) na produção de bens e serviços é uma coisa. Mas querer transportar este conceito para a análise de políticas públicas pode desaguar em propostas diametralmente opostas às liberais.

Segundo Rothbard, enquanto a moderna ciência econômica assume que a utilidade, derivada dos desejos e necessidades humanos e dos custos de oportunidade a eles vinculados, é algo puramente subjetivo, os utilitaristas [como Pigou] afirmam que as utilidades individuais subjetivas podem ser medidas de tal forma a estabelecer uma “utilidade social líquida” ou um “custo social líquido”, permitindo-os afirmar se uma dada política social é boa ou não. Ocorre que as utilidades individuais são não apenas subjetivas, mas exclusivamente ordinais, classificativas, sendo totalmente absurdo adicioná-las ou pesá-las para obter uma medida, ainda que estimativa, de custo ou benefício agregado (social).

Como bem resumiu Hayek, a “atitude pragmática”, a análise puramente utilitarista das políticas econômicas, que tem sido a dominante ultimamente, longe de aumentar o nosso controle sobre os acontecimentos, nos tem conduzido, de fato, para o aumento exponencial do poder dos governos.

Embora ciente de que as análises de eficiência em relação aos meios, utilidades, custos, benefícios e resultados das ações humanas, como bem demonstrou Mises, nos levam à conclusão de que o liberalismo é a melhor opção para o ordenamento econômico e social, tenho insistido que a defesa do liberalismo deve ser feita prioritariamente com base em princípios.

Acima de tudo, é preciso mostrar que os liberais não tencionam eliminar as falhas cotidianas e limitações humanas usando a força ou o poder do Estado ou de qualquer outra instituição, pois entendemos que os seres humanos devem ser livres para escolher entre o bem e o mal. Ademais, eles devem ser livres para cometer erros. Jamais poderemos ser seres morais sem tomar decisões por e para nós mesmos. Os liberais não pretendem impor sanções sobre as crenças, os discursos, as roupas, as manifestações artísticas, o consumo ou o comportamento sexual de quem quer que seja. Enfim, os liberais são contra a utilização dos poderes do Estado para criar idealizações terrenas de sociedades perfeitas.

Fonte: Blog do Instituto Liberal

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3 comments

  1. Hélio Socolik

    Devemos ser livres, sim, para decidirmos o que produzir, o que consumir.
    Mas até o ponto em que essa liberdade não provoque danos aos demais.
    Quando começa a haver danos, isto é, externalidades negativas, o imposto é justificável.
    Eu, por exemplo, não desejo que meu imposto vá financiar tratamento para as doenças daqueles que se alimentam mal.
    HS.

  2. Regina Caldas

    Quanto menos o Estado interferir na vida pessoal do cidadão, melhor para toda a sociedade. Pois o estado não tem, e jamais terá, limites no uso do poder, e sempre em benefício próprio. Assim, a sociedade deve ser educada para frear o Estado à cada vez que ele invade a Liberdade do cidadão, seja de forma objetiva ou subjetiva. Já basta o quanto, através dos meios de comunicação, o Estado manipula o pensamento dos preguiçosos que não se dão ao esforço da reflexão e tomada de decisões. Pelo visto, a USP, através de propostas como citadas no texto, desvia-se de sua mais nobre função: como educadora estimular a liberdade de pensamento. Que lástima!

  3. Ricardo Feitosa Vasconcelos

    Ao contrário do comentado acima, o Estado, por meio dos “representantes” da população, legislará o que considera “externalidade negativa”, tendendo naturalmente a exceder-se nessa prerrogativa. Isso, por si só, já é autoritário. Pensemos o contrário: e se o Estado obrigasse à prática de atividades físicas, ou sancionasse com tributos sua não-prática, seria justo?