Levy admite que PIB pode ter recuado em 2014

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Em sua primeira viagem aos Estados Unidos como ministro da Fazenda, Joaquim Levy disse nesta quarta-feira, em palestra para investidores em Nova York, que o Brasil não precisa de “cortes draconianos” para promover o ajuste fiscal necessário ao início de “um novo ciclo de crescimento”. Durante a palestra, que reuniu 185 pessoas e durou pouco mais de uma hora, Levy voltou a reconhecer que o país pode apresentar “crescimento negativo” (ou seja, queda do PIB) em 2014. Quanto aos escândalos de corrupção na Petrobras, o ministro afirmou que a empresa está focada em virar a página e que acredita que isso será feito “nos próximos meses”.

– Nos últimos anos, houve aumento, principalmente, nas despesas discricionárias, há espaço para cortar. Se voltarmos em muitos casos ao nível de gastos de 2013, podemos entrar no caminho para atingir a meta de 1,2% sem muito problema, só temos que voltar o relógio um pouco, não precisamos fazer cortes draconiamos ou algo do gênero – frisou. – Não estou fingindo que vocês não deveriam se preocupar com a situação fiscal. Estou confiante de que vamos botar a casa em ordem. Vamos voltar para o caminho do crescimento.

Ainda sobre o crescimento do país, o ministro chamou a atenção para a importância dos pequenos e médios investimentos na diversificação da economia:

– Estamos num ritmo mais fraco mais recentemente, nós todos lamentamos que o crescimento tenha desacelerado, e talvez ano passado tenha ficado mesmo negativo, porque alguns grandes investimentos declinaram, mas acho válido mencionar que continuamos a ter pequenos e médios projetos, no ano passado muitas empresas de todo o mundo continuam a abrir fábricas no Brasil, e nós temos que garantir que esses fluxos continuem, porque em última instância é o que oferece a diversificação da base econômica. É um processo saudável, liderado pelo setor privado, por empresas, investidores.

Petrobras

Levy garantiu que não está “inventando novos impostos”, revelando que “o plano para os próximos meses é simplificar alguns e renovar outros”. E ressaltou ainda que a Petrobras – que se mostrou a principal curiosidade dos investidores, ao lado do câmbio, quando o ministro abriu para (poucas) perguntas da plateia – vem aumentando a produção de petróleo desde 2012, após dois anos de declínio, e que o pré-sal “é uma realidade”.

– Estamos de volta a dois milhões de barris por dia, e um terço vem do pré-sal. O pré-sal é uma realidade e é muito mais produtivo do que o imaginado. Isso é importante num mercado em que os preços caíram drasticamente. E mostra que ao menos no lado da produção a empresa encontrou o seu caminho. Estou confiante de que vão superar todos os obstáculos. Eles estão focados em virar essa página e acredito que vão fazer isso nos próximos meses – disse. – Os números estão ali, o mercado pode avaliar se o dinheiro foi mal gasto ou bem gasto, mas a Petrobras sempre divulgou todos os seus gastos, não há real surpresa para o mercado, tudo foi liberado para analistas do mundo todo, tudo era público. Não há surpresa, nunca o mercado foi deixado sem saber o que estava acontecendo na companhia.

Crise de energia

O ministro atribuiu a crise no setor de energia ao crescimento da demanda. E disse que o caminho é estimular fontes alternativas:

– A demanda (por eletricidade) cresceu, especialmente a residencial e no terceiro setor. O consumo de energia por domicílio este ano será 23% maior do que há cinco anos atrás. Então o consumo cresceu quase 25% em apenas cinco anos, enquanto na maioria dos países diminuiu. Com algum esforço e alguma economia, podemos estabilizar esse consumo. Não precisamos chegar a situações radicais, podemos ajustar esse consumo que cresceu significativamente nos últimos anos. Energia solar, eólica, das águas do Norte… Vamos ter outros 4% de novas energias on stream. Apesar de tudo, o fornecimento de energia continua a crescer no Brasil.

O ministro – que garantiu que empréstimos adicionais do Tesouro ao BNDES não são mais um “instrumento de política” – terminou o pronunciamento em tom otimista, citando as Olimpíadas como instrumento que vai ajudar a melhorar o astral em 2016.

– Sei que 2015 será um ano de desafios, mas podemos chegar à meta e temos que trabalhar para que 2016 seja um ano de crescimento, de otimismo. Será um ano importante para o Brasil, vamos sediar as Olimpíadas. A preparação está indo bem, há muito comprometimento dos governos federal e local, acho que será um bom clima depois de passarmos pelos ajustes que precisamos fazer agora e estabelecer fundações para um novo ciclo de crescimento. Será difícil, porque o ciclo das commodities acabou, mas isso não é problema, estou confiante de que se botarmos a casa em ordem o setor privado pai achar oportunidades e vamos voltar ao caminho do crescimento.

Apresentação sem novidades, dizem investidores

Após o encontro, ocorrido no Americas Society/Council of Americas, Levy se reuniu a portas fechadas com representantes da agência de classificação de risco Moody’s – que no fim do ano passado revisou a perspectiva do rating do país para negativa – e saiu sem falar com a imprensa. Entre os investidores presentes, as impressões foram variadas.

– Achei ridículo. Ele mudou de tom desde que assumiu, agora está repetindo o discurso da Dilma – reclamou um investidor brasileiro radicado em Nova York que não quis ter o nome publicado.

– Foi uma apresentação corporativa, ele não tinha que convencer, só mostrar números, e esses números são públicos. Foi um road show, e ele precisava fazer isso neste momento crítico – comentou um acionista de um grande grupo de mídia europeu, também pedindo para não ser identificado.

– Achei interessante. Realista. Não teve nenhuma novidade, mas foi bom ouvir da boca dele, e não por terceiros ou por jornais – concluiu um advogado americano, acionista de uma firma “de butique” baseada em Nova York com vários clientes brasileiros na cartela.

Fonte: O Globo.

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