Metade dos docentes não tem formação ideal

Um dos poucos consensos em educação é que o professor tem influência fundamental na aprendizagem dos alunos, de maneira que sua formação está intimamente ligada aos resultados obtidos em sala de aula. Apesar disso, dos 766.860 professores dos anos finais do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano), nas redes pública e privada, 54,1% não têm formação em todas as disciplinas que lecionam. Isso quer dizer que esses profissionais dão aula em pelo menos uma matéria na qual não são formados. No ensino médio, 46,2% dos 494.824 docentes estão nessa situação. Os dados são do movimento Todos Pela Educação a partir das informações do Censo Escolar 2015.

— Para um professor ter uma boa atuação ele precisa primeiro dominar o conteúdo que leciona. Em segundo lugar, ele precisa saber como ensinar a matéria: tem a ver com a didática, e como motivar os alunos, como estimular o debate. O terceiro ponto é que ele deve saber intervir e entender quando o aluno não está aprendendo. Se há um percentual alto de professores que não têm formação específica na sua área, eles deixam a desejar nos dois primeiros elementos que descrevi — explica o gerente-geral do Todos Pela Educação, Olavo Nogueira Filho. — O objetivo principal de dar luz a esse cenário não está relacionado a jogar a culpa no professor, mas mostrar que a estrutura ofertada aos professores brasileiros não os apoia o suficiente para que eles enfrentem desafios na sala de aula.

Considerando apenas a rede estadual, 41,4% dos professores do 6º ao 9º ano não têm a formação ideal. Na rede municipal a taxa é de 65,8%. Entre os professores do ensino médio estadual, 46,9% têm esse perfil. Nas escolas municipais, o índice é 45,2%. O percentual de professores com formação adequada pouco oscilou ao longo dos anos. Em 2012, 56,4% dos professores do ensino fundamental II não tinham formação em todas matérias que davam aulas. No ensino médio o percentual era de 49,1%.

Defasagem a cada ciclo
Há ainda professores que não têm formação em nenhuma das disciplinas que lecionam. Esse índice chega a 41% nos anos finais do ensino fundamental e a 32,3% no ensino médio. A quantidade de profissionais com formação específica nas disciplinas nas quais atuam está bem distante do que foi estabelecido como meta pelo Plano Nacional da Educação (PNE), que entrou em vigor em 2014. De acordo com a lei, até 2024 todos os professores da educação básica devem atender a esse requisito. No entanto, a norma não invalida o que já havia sido estabelecido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação, que determina que para ser professor dos anos finais do fundamental e do ensino médio é requisito formação mínima de ensino superior com habilitação em licenciatura.

Educadores apontam que, na prática, a falta de formação adequada dos professores, combinada com outros fatores, como a falta de atratividade do currículo, muitas vezes contribui para que os alunos carreguem as deficiências do ensino fundamental para o ensino médio, tornando o processo de aprendizagem mais defasado a cada etapa.

— O país não tem conseguido avançar nos anos finais do fundamental e no ensino médio. Nos anos iniciais até vemos um avanço consistente. Era até de se esperar que, por conta disso, observássemos avanço nos anos subsequentes, mas não é o que estamos vendo. Temos problemas do ponto de vista curricular e também na transição de uma etapa para outra. A variável chave para aprendizagem é o professor. Isso significa que o país precisa entender o papel do professor como elemento central do projeto de educação — critica Nogueira Filho.

Um levantamento do Instituto IDados, que estimou quanto seria necessário para colocar o PNE em prática, revelou que o Brasil deveria gastar cerca de R$ 137 bilhões para alcançar os objetivos relacionados à formação e valorização da carreira docente (metas 15, 16 e 17). A projeção indica que, em 2024 (data limite para o cumprimento do PNE), o valor corresponderia a 2,09% do PIB.

— A formação é um dos desafios que temos que colocar muito esforço, porque uma meta tem consequência para a outra. O plano é uma lei e lei tem que ser cumprida — afirmou o presidente do IDados, Paulo Rocha Oliveira.

Capacitação por conta própria
A má estruturação da formação e a desvalorização dos professores são alguns dos motivos que levaram profissionais como Thiago Fortunato a dar aulas em uma disciplina na qual não se formou. Graduado em matemática, ele também dá aulas de física, uma das matérias com maior carência de professores especializados. O dado mostra que menos de 30% dos docentes que lecionam a disciplina têm formação na área.

— A educação continuada é inexistente, nem as escolas particulares investem nisso. Sem contar a desvalorização extrema da classe. Dar aula em outra turma é uma forma de ganhar mais, é também uma questão econômica — conta Fortunato, que chegou a começar um curso de física à distância por conta própria, mas acabou abandonando por falta de tempo.

Atualmente, ele dá aula em seis escolas, com algumas turmas de matemática e outras de física — nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio — e conta que precisa fazer uma ginástica para se organizar para cada classe.

— A preparação é totalmente diferente de uma matéria para outra. A matemática é mais aplicada. Tenho que estudar mais a física, porque o domínio acaba não sendo o mesmo, então, preciso suprir. O que acaba acontecendo é que como não tenho a formação completa naquela área, a aula tende a não evoluir no conteúdo — relata.

A falta de atratividade da profissão faz com que, ao final do ensino médio, poucos alunos queiram ser professores. E, mesmo aqueles que ingressam em um curso acabam não se formando. Na turma de Sandro da Costa, que se graduou em física e dá aulas também de matemática, de 40 alunos ingressantes, apenas dez se formaram.

— Física é um curso complexo, muitos desistem. A oferta de profissionais com formação na disciplina é restrita e, por isso, principalmente as redes públicas lançam mão de profissionais com outra formação — comenta ele.

Entre as disciplinas, a maior falta de especialistas está em filosofia e sociologia. Formado em história, um professor que prefere não se identificar deu aulas de sociologia sem ter formação específica durante cinco anos. Depois disso, buscou por conta própria a qualificação, por meio de uma faculdade à distância.

— Temos um sucateamento absurdo da educação. O auxílio por parte do poder público é zero e, no poder privado, há em uma ou outra instituição.

Fonte: “O Globo”.

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