O dia ‘D’ para as startups do Rio de Janeiro

Quando ainda nem se falava em startups ou smartphones, o então estudante Marcelo Sales criou um jogo para celular com a ajuda de amigos. O objetivo por trás da ideia era buscar uma alternativa aos conteúdos “chatos” da escola. Em 13 anos, o jogo se tornou uma empresa presente em 14 países e com produtos usados por 70 milhões de pessoas no mundo todo.

No entanto, a transformação de uma brincadeira de adolescente em negócio formal foi tudo menos automática. Do embrião da ideia à criação da companhia de comércio e conteúdo digital Movile, o empreendedor levou oito anos em busca de um investimento inicial.

“Foi descomunalmente difícil (sair do zero). Um professor indicou a um empresário que, por acaso, viu uma apresentação minha”, conta. Além de fundador da Movile, Sales é hoje presidente da aceleradora 21212, que trabalha para encurtar a distância entre o mercado e startups brasileiras.

Ele diz que o objetivo da aceleradora é dar uma metodologia tradicional para a busca de investidores. A ideia é que a decisão esteja baseada em fatores de mercado, e não mais na simples simpatia ao projeto ou ao empreendedor.

A premissa da aceleradora é testar e validar os produtos com os clientes. O processo leva entre quatro e oito meses. A aceleradora aporta capital e oferece serviços de consultoria jurídica, de negócios, tecnologia e design. Um grupo de mentores trabalha para lapidar os projetos, apontando eventuais falhas a ser corrigidas. O investimento em cada projeto gira em torno de R$ 300 mil e a 21212 se torna sócia, com participação de até 20%.

Hoje, no Rio, nove empresas que receberam esse suporte inicial da aceleradora participarão de uma demonstração a investidores. É o quarto evento desse tipo na cidade, chamado de Demo Day. Nos últimos três, a vitrine de empresas digitais gerou conversas que renderam aportes de R$ 25 milhões. É uma quantidade de recursos suficiente para que as empresas possam apresentar seu serviço ou produto ao grande público.

Entre as empresas que receberam incentivo da 21212 está a Zero Paper, de serviços financeiros. Os empreendedores tiveram de revisar todo o modelo de negócio à medida que a ideia começou a sair do papel. A meta era oferecer uma plataforma para gerenciar as contas de pequenos empreendimentos. “Tínhamos empresas e víamos como era difícil administrá-las”, explica um dos fundadores, André Macedo.

Para ir a mercado, foi preciso que a empresa identificasse a real necessidade de seus potenciais clientes. A Zero Paper virou um sistema de educação financeira disponível gratuitamente na web. Ao fechar parceria com a gigante Totvs, o negócio foi expandido e passou a abrigar também uma loja de serviços financeiros, como emissão de boletos e notas. Hoje, a companhia tem 80 mil clientes, inclusive de países como Portugal e Espanha. “Como nos limitamos à gestão financeira e não à tributária, não há barreiras para o mercado internacional”, diz Macedo.

Para Benjamin White, sócio da 21212, o Brasil é hoje um dos mercados mais promissores para a criação de startups do setor de tecnologia. A 21212, que tem um escritório no Rio de Janeiro e outro em Nova York – o nome é a união dos códigos de área das duas cidades – faz a ponte entre os empreendedores com potenciais investidores do Brasil e dos Estados Unidos.

Na opinião da aceleradora, no entanto, os projetos muitas vezes chegam à mesa do investidor sem um foco definido. É o que aconteceu com o empreendedor André Korenblum. Sem conhecimento prévio do setor, ele chegou à 21212 apenas com uma ideia: a união de gastronomia com tecnologia. Acabou por criar, há um ano, a Selo Reserva, especializada em indicação de rótulos de vinhos para assinantes.

Focada no mercado de luxo, a Selo Reserva aposta em consumidores que estão dispostos a pagar preços mais altos por bons produtos. A meta é fechar o ano com faturamento de R$ 1,5 milhão. “A gente fica ensaiando lançar um produto perfeito (no mercado), mas é preciso fazer. E não ter medo de falhar”, aconselha Korenblum.

Legislação. Há ainda as barreiras legais e burocráticas. “É difícil enquadrar a empresa na legislação tributária”, reclama Felipe Grossi, que fundou a Instaquadros com Alan Campos. A empresa vende produtos de decoração, como quadros e capas para celulares criados a partir de fotos de usuários em redes sociais.

“Você não pode estar no Simples, pois pode receber aporte de empresas estrangeiras. Ao mesmo tempo, você não tem renda para pagar as tributações de sociedade aberta”, exemplifica. Em um ano, o faturamento da Instaquadros foi de R$ 200 mil. Para alcançar um público estimado em 65 milhões de usuários, a empresa busca investimento. “É muito desafiador empreender no Brasil.”

Fonte: O Estado de S. Paulo

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