‘O grande desafio é enfrentar o medo’, diz Jayme Garfinkel, presidente do conselho da Porto Seguro

Jayme Garfinkel transformou a empresa familiar em uma das maiores seguradoras do Brasil

As lições que Jayme Garfinkel aprendeu sobre empreendedorismo e aplica nos negócios são mais simples do que se espera, considerando a trajetória impecável a frente da Porto Seguro. O presidente do conselho da empresa acredita no empreendedor cidadão e não tem a menor vocação para ser um centralizador, pensando a sua atuação como um jogador de xadrez. Jayme Garfinkel, um dos palestrantes da Semana Pró-PME, conversou com o Estadão sobre o que pensa do empreendedorismo e seus desafios.

Estadão – Como adquirir consistência e manter o mesmo negócio de forma sólida por décadas?
Jayme Garfinkel –
Não sou muito de planejar. Eu vou fazendo, acertando, tentando. Eu não sou ambicioso, eu só me pergunto por que eu estou fazendo isso. Você tem que ter prazer no que faz e, se tudo der certo, vai ser legal. Eu sou um agricultor, eu gosto de ir plantando e colhendo. Não é uma estratégia infalível, que vai te dar um sucesso retumbante em um curto prazo. Mas tem consistência.

Estadão – O que pensa sobre o empreendedorismo hoje?
Garfinkel – O que é empreender senão vencer a preguiça? Se você pega um sábado e vai visitar a sua tia e levar um flor para ela, você está empreendendo. Todos os dias nós podemos empreender. Todos os dias nós temos essa oportunidade, de fazer alguma coisa a mais.

Estadão – Você sempre pontua que devemos ser menos centralizadores. Como fazer isso?
Garfinkel – Eu não tenho a capacidade de ser centralizador. Eu sou mais um coordenador. Tenho ideias, sou um bom ouvinte. Eu fico atento ao que fazer, em como juntar essa pessoa com a outra e fazer o melhor. É como se fosse um jogo de xadrez, em que você vai mexendo as peças, vendo as oportunidades. Eu acho isso muito gostoso.

Estadão – Alguns novos empreendedores estão investindo muito na tecnologia e inovação. Ideias inovadoras bastam para empreender?
Garfinkel – Eu acho que tudo o que é só moda não dá certo, mas eu também sou de outra geração. Eu acho que você precisa de um humano em algum momento. Não é tudo o que a tecnologia vai resolver totalmente. Eu acho que você tem que estar feliz, fazendo aquilo que está preparado. Você precisa se sustentar, mas você também tem que ser feliz.

Estadão – Quais são os maiores desafios do empreendedorismo?
Garfinkel – Eu acho que o grande desafio de todos os dias é enfrentar o medo. Esses dias mesmo eu estava em uma reunião em que o conselho disse que certa decisão foi errada e eu tinha ajudado a tomar essa decisão. Você pensa: bom, eu posso ficar quieto, porque essa culpa vai cair na mão do diretor mesmo. Mas, puxa, você tem que assumir a responsabilidade. Eu participei dessa decisão de alguma forma, então tá errado eu não fazer nada. O grande desafio é encarar o medo e, quanto antes você encara, melhor você consegue a solução para os problemas. Em uma reunião do Instituto Ação pela Paz, estávamos discutindo sobre os tiroteios na Rocinha e começamos a falar sobre a política de drogas e toda essa complexidade. Isso é um problema de 20 anos que ninguém resolveu e hoje gera essa complexidade. Você tem que encarar o problema no primeiro momento que mais rápida e simples vai ser a solução.

Estadão – Você acredita que o futuro do empreendedorismo é empreender com causa?
Garfinkel – O empreendedor é um cidadão. Cada um de nós tem que empreender pelo futuro. Quando mudamos para os Campos Elísios, fomos a primeira empresa grande a se instalar na área, isso em 1976. Nessa época, a Avenida Rio Branco tinha uma das faixas de terra. Nós fomos lá e melhoramos isso, nem pensamos na iniciativa privada, só pensamos que precisávamos melhorar a região.

Estadão – Quais são os principais desafios de uma gestão familiar?
Garfinkel – A gestão familiar é mágica. Todo mundo é protagonista, todo mundo atua junto. Você trabalha 20 horas e não percebe. Agora é preciso encarar a empresa separada da família, precisa de organização. O importante é não misturar o dinheiro e olhar o caixa, saber exatamente o que está entrando. Tem uma grande vantagem de empreender em família, mas tem que ter disciplina. O erro é misturar o dinheiro, pegar o da empresa para comprar alguma coisa pessoal. Eu comecei a trabalhar com o meu pai quando ele tinha apenas uma companhia de seguros e sempre tivemos essa disciplina. Fomos levar dinheiro para casa só depois de 14 anos de empresa, sempre trabalhamos com salário. E o mais importante: olhar o caixa, sempre.

Estadão – Você tem o livro “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, como uma inspiração sobre a administração de empresas. Se pudesse indicar um livro para um futuro empreendedor, qual seria?
Garfinkel – Muita gente pode interpretar errado, mas meu pai me deu O Príncipe não no sentido de absorver o maquiavélico, a questão do poder. Mas sim como o príncipe é um exemplo de líder, é eficiente. E ele me deu uma edição maravilhosa, com comentários do Napoleão Bonaparte, uma edição em espanhol porque não tinha em português ainda. Eu sempre recomendo as pessoas a lerem romances. Por mais que o personagem seja de ficção, você pode se identificar com ele de forma positiva ou não. O que adianta ler um livro técnico, que fale “seja cordial”, por exemplo? Nada. Mas, se eu leio sobre um personagem que é cordial e isso me inspira, eu posso seguir esse exemplo. Eu recomendo “O Príncipe” e “Guerra e Paz”, do Tolstói.

Fonte: “O Estado de S. Paulo”

 

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