Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

“Para fazer reforma, é preciso liderança política forte e com projeto de país, e eu não vejo isso no Brasil”, diz professor da FGV

“Estamos debatendo os mesmos problemas há 13 anos, mas a novidade é que estamos praticamente em um beco sem saída. Se empurrar com a barriga, com meias reformas, a gente aguenta mais um pouco, mas sem grandes reformas, vamos ficar onde estamos”, disse ele, durante o painel “Taxa de juros e semiestagnação desde 1981”.Nakano afirma não ver o cenário político necessário para realizar as reformas estruturais. “Para fazer essas reformas, é preciso ter liderança política forte e com projeto claro para o país, e isso eu não vejo no Brasil. Nem liderança política forte, nem liderança com projeto de Brasil”, critica. O diretor da FGV afirmou que, no presidencialismo, a figura do presidente deveria, em teoria, concentrar mais poder do que em um modelo parlamentarista. “Mas no presidencialismo de coalizão, você precisa compor base no Congresso, e acaba fatiando o governo para isso.”

“Dessa forma, você gera um Executivo que não tem direção, que é impossível de coordenar”, diz. “Não adianta o presidente da República ter um projeto claro, se não consegue governar”.

Por outro lado, a oposição, segundo Nakano, “não percebeu a gravidade da crise”, e busca, nas manifestações de rua, aumentar os gastos do governo. “A liderança política por trás dos protestos defende que é preciso um Estado maior, com mais direitos”. E conclui: “Não enxergo uma liderança emergindo para fazer as reformas”.

O professor começou sua exposição lembrando que até a década de 1980 o país crescia a ritmo acelerado, impulsionado por um modelo de crescimento de substituição de importações. “Mas esse modelo se tornou rígido e não fez as mudanças necessárias, mesmo quando o mundo mudou”, afirma. O resultado foi uma indústria cujo objetivo era ser autossuficiente, fechada ao comércio internacional e que não soube aproveitar a globalização.

Brasil não suporta uma dívida de 60% do PIB

“O fato novo no início da década de 1990 é que começou a se engendrar um novo modelo”, afirma Nakano. Esse modelo, segundo o professor, foi baseado em atrair fluxo de capital do exterior, e nessa lógica era necessário manter as taxas de juro elevadas. “Acreditava-se que, atraindo capital, o mercado, sendo eficiente, alocaria os recursos nos setores mais produtivos”, diz. “Nessa lógica, a política fiscal podia ser sempre expansionista”. O câmbio tendeu à apreciação e o Brasil viu um processo de desindustrialização. “Chegamos ao período mais recente com participação da indústria no valor agregado total de menos de 10% do PIB”.

Contudo, a política fiscal expansionista e a política monetária restritiva resultaram em um “déficit monumental”, afirma Nakano. “O Brasil não suporta uma dívida de 60% do PIB, ainda mais com as taxas de juros que praticamos”, diz o professor. Ele defendeu, então, que é preciso “mudar toda a dinâmica de crescimento do gasto público e fazer uma reforma na dívida”.

Fonte: “Época negócios”,  12/09/2016

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