Para 85,2% dos jovens, segurança é atributo mais importante na escola

Levantamento do Todos Pela Educação entrevistou 1.551 adolescentes de 15 a 19 anos

Ainda são vivas na memória de Clarissa Martinez, 17 anos, as cenas de sua rotina escolar na infância: o tiroteio começava, os alunos saíam da sala de aula abaixados e ficavam deitados no chão do corredor até os disparos cessarem. O medo que experimentou durante os anos de escolarização, no Complexo da Maré, incentivou Clarissa a estudar em um ambiente seguro. Uma pesquisa exclusiva feita pelo Movimento Todos Pela Educação revela que 85,2% dos jovens entre 15 e 19 anos, assim como Clarissa, consideram a segurança o atributo mais relevante em uma escola de ensino médio. E 29,6% dos estudantes classificam a segurança como insatisfatória nas unidades de ensino.

Além de questionar as expectativas dos jovens sobre a escola, o estudo “Repensar o Ensino Médio” analisa a opinião dos 1.551 entrevistados — amostra representativa dos 17 milhões de jovens brasileiros de 15 a 19 anos — sobre ensino técnico, professores, e participação social. Os dados mostram que o segundo aspecto mais relevante para os jovens em uma escola é a atenção dada aos deficientes (83,1% consideraram um ponto importante) e professores sempre presentes (81,3%). A pesquisa, realizada pelo Multifocus, teve apoio do Itaú BBA e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

— Antes, a demanda dos jovens era por poder estudar e, de certa forma, o Brasil superou isso porque conseguiu avançar no acesso à escola. Agora, o jovem quer uma escola que trate as pessoas com dignidade, que seja decente. É a demanda por uma escola com professor presente e que não desista dos alunos, com ambiente seguro, com acessibilidade — analisa a presidente-executiva do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz.

CONCENTRAÇÃO PREJUDICADA

Desde 2015, Clarissa trocou as aulas no Complexo da Maré pelo ensino técnico em Alimentos no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRJ). No 3° ano do ensino médio, ela conta que hoje consegue se concentrar melhor.

— Eu tinha medo de ir para escola em dias de operação (da polícia), porque tudo pode acontecer. Eu podia ser vítima de bala perdida — diz a adolescente. — Qualquer coisa que acontecia do lado de fora da sala tirava nossa concentração. Às vezes eram fogos de artifício e nós já achávamos que era tiro. Isso atrapalhava muito.

 O educador Célio da Cunha, ex-assessor da Unesco, lembra o caso de Maria Eduarda Alves da Conceição — morta em março ao ser atingida por tiros em um colé
gio de Acari — e afirma que a sensação de segurança tem papel importante:

— A construção de uma cultura de paz pelas escolas é fundamental. O medo é inimigo da aprendizagem. O aluno precisa de um mínimo de reflexão e de silêncio. As escolas que vão bem no Brasil e no mundo conseguiram construir um ambiente que valoriza a vida, a cooperação. A escola vem enfrentando esse desafio como pode, sendo que nem sempre ela pode.

O que os estudantes querem:

Atributos mais relevantes da escola de ensino médio (em %)
TAB1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atributos menos satisfatórios da escola de ensino médio (em %)

TABELA O GLOBO 2


Os cinco atributos relevantes nos professores:

• Paixão pela profissão

• Não desistir dos alunos

• Cobrar os estudantes

• Foco na preparação para vestibulares

• Estimular a curiosidades dos alunos

– 70% dos jovens de 15 a 19 anos acham que a principal motivação para cursar o ensino médio é se preparar para entrar na faculdade.

– 41,7% consideram que a principal dificuldade para dar continuidade aos estudos é a falta de recursos financeiros.

– 76,5% dos jovens aprovariam a substituição de um terço das matérias do ensino médio por disciplinas técnicas à escolha do estudante.

– 43% dos jovens entrevistados afirmaram ter participado de algum movimento social no último ano; 8% atuaram em mais de um.

Questionados sobre os professores, os estudantes indicam que o que consideram mais importante nos docentes é que sejam apaixonados pela profissão. Depois disso, eles citam que os profissionais não devem desistir dos alunos e precisam cobrá-los. A demanda por atributos relacionados a uma educação mais justa reflete em outro dado do estudo: as estatísticas mostram que 43% dos jovens participaram de algum movimento social no último ano, o que indica que, assim como apontam os educadores, os alunos estão se organizando para reivindicar o que consideram importante.

A reação dos estudantes diante da possibilidade de alteração na estrutura do ensino médio também foi observada nas entrevistas. Segundo os dados, 76,5% dos jovens aprovam a substituição de um terço das disciplinas regulares do ensino médio por matérias técnicas, que possam ser escolhidas de acordo com o interesse do aluno. Embora se interessem por conteúdos desse tipo, 42,2% afirmam que se sentem desestimulados de cursar o ensino técnico devido ao concorrido processo seletivo.

— Vemos na pesquisa que o aluno tem interesse pelo ensino técnico, mas talvez ele não queira parar ali. Ele pode fazer curso profissional e depois ingressar na universidade. Isso mostra que o jovem não tem problema nenhum em fazer uma formação em nível médio que já comece a prepará-lo para o mundo do trabalho — afirma Priscila Cruz.

Fonte: jornal “O Globo”

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