Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Viabilidade do plano de concessões gera dúvidas

O novo pacote de concessões de projetos de infraestrutura anunciado nesta manhã pelo governo federal deixou uma impressão positiva nos analistas, mas a cautela permanece, principalmente em relação à viabilidade de alguns projetos e ao financiamento.

Para o ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria Integrada, Gustavo Loyola, o plano mostra a preocupação do governo federal de ir além do ajuste fiscal e apresentar uma agenda positiva, mas seu impacto imediato sobre a economia brasileira deve ser pequeno. Segundo ele, o reflexo em médio e longo prazos dependerá da viabilidade de os projetos atraírem o setor privado e da eliminação de incertezas.

“(Os projetos anunciados hoje) são previsões. (…) A gente tem que ver a factibilidade do pacote do ponto de vista de atrair o setor privado, de eliminar incertezas que possam existir, de conseguir eventuais aprovações no Tribunal de Contas da União”, afirmou.

Na avaliação de Loyola, o real impacto sobre a economia brasileira vai depender da atratividade dos pacotes nas várias áreas, dos programas em si e da rapidez com que os projetos serão executados. Para ele, contudo, “não deixa de ser um exemplo positivo o governo ter lançado”.

“O impacto imediato sobre o PIB é pequeno. O reflexo mais forte poderia vir através das expectativas, mas ainda é preciso analisar todas as condicionantes do pacote”, afirmou.

Já Braulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, estima que o PIB deverá subir 0,3 ponto porcentual na média de 2016 até o último ano do governo Dilma Rousseff.

Segundo ele, as projeções de especialistas registradas pela pesquisa Focus apontam que o crescimento atingirá 1,0% no próximo ano, mas com o pacote de concessões públicas poderá subir para 1,3%. Para 2017, a previsão de expansão do produto interno bruto deverá aumentar de 2% para 2,5%, enquanto que para 2018 pode avançar de 2,25% para perto de 2,60%.

“O conjunto de concessões anunciado traz uma perspectiva positiva para a economia no médio prazo, inclusive para o PIB potencial, com alguma reação positiva já registrada hoje na bolsa de valores”, comentou Braulio Borges.

“Há uma expectativa favorável que precisa ser confirmada pela realização dos primeiros leilões no final deste ano, inclusive relacionada a forma como será definida a Taxa Interna de Retorno para cada projeto”, apontou.

Segundo Borges, sem o programa de concessões, a sua estimativa para Formação Bruta de Capital Fixo seria de um crescimento médio de 1,5% entre 2016 e 2018. “Mas com os investimentos previstos na área de infraestrutura, essa média subirá e será de uma alta de 3% nestes três anos”, apontou.

“O programa de concessões não traz efeitos diretos para a atividade e a FBCF ainda neste ano porque não haverá tempo hábil. Contudo, esses investimentos importantes, mais o ajuste fiscal e o combate forte à inflação que está sendo realizado pelo Banco Central, devem levar a confiança dos empresários a parar a piorar neste final de ano.”

Financiamento – Para os analistas da consultoria Pezco Microanalysis, o financiamento dos projetos continua sendo um ponto sensível. “Não vi elementos que dariam tranquilidade no sentido de mitigar riscos. O que foi falado é mais reduzir a oferta de funding do BNDES e viabilizar outros mecanismos. Até aí, não houve novidade”, afirma Hélcio Takeda.

Segundo o Ministério do Planejamento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) continuará com papel relevante, mas a participação dos bancos e do mercado de capitais será ampliada, com estímulo à emissão de debêntures de infraestrutura pelo setor privado.

Mesmo otimista com o pacote de novas concessões, o analista Frederico Turolla, também da Pezco, ressalta que alguns projetos são mais desafiadores ou até mesmo inviáveis, principalmente a ferrovia Bioceânica, fruto de um memorando de entendimento entre Brasil, China e Peru.

“Essa ferrovia me parece um projeto pouco viável e que não faz muito sentido. É um projeto que tem um claro interesse chinês”, avalia. Para Turolla, a duplicação da rodovia Rio Santos (BR-101/493/465/RJ/SP) também será desafiadora.

Ele considera, porém, que esse projeto é um avanço necessário. “Para rodovias, de fato, cada vez mais é preciso avançar para operações que envolvem mais cargas ou condições naturais desafiadoras. A Rio Santos tem topografia complicada e vai implicar em um maior volume de desapropriações”, diz, citando como outro exemplo a obra na BR-116, que liga Porto Alegre a Canoas.

“Para viabilizar o negócio, eles encurtaram os trechos. O volume total de trechos concedidos foi menor que o esperado. Isso porque o capex por quilômetro é muito alto”, aponta Turolla.

Na visão da Pezco, o governo federal acertou em focar o pacote no setor mais maduro – o rodoviário -, que, sozinho, vai receber R$ 66,1 bilhões em investimentos. “Nesse modal, é possível seguir com leilões rapidamente. O grande teste já aconteceu, que foi o leilão da Ponte Rio-Niterói.

Esse leilão sinalizou que, ainda que o ambiente estivesse bastante conturbado, há interessados”, diz Turolla, que também acredita que o pacote de concessões atrairá interesse estrangeiro.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.