Domingo, 4 de dezembro de 2016
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“Podemos chegar aonde quisermos”, diz jogadora de badminton nascida na favela

Quando treinava badminton, na base do improviso, muitas vezes com petecas amarradas com linha de pipa, na comunidade da Chacrinha, no Rio, Lohaynny Vicente não imaginava viver uma semana como esta. Não só participou de uma Olimpíada, como integrante da primeira equipe brasileira do esporte, como ouviu a torcida gritar seu nome, nas duas partidas que disputou.

Coroação de uma carreira construída com dificuldades, a participação na Rio 2016 chegou ao fim para a carioca de 20 anos neste sábado (13). Mesmo fora da disputa, a atleta está feliz e encantada com a experiência. Tanto é que vai manter o churrasco com pagode previsto para acontecer na sua casa, organizado por seu namorado, Bruno Siqueira, e sua mãe, Cátia Mendes.

“Joguei muito mal hoje. Não era o que eu esperava. Todo atleta tem momentos bons e ruins, e hoje foi um dia ruim”, disse, para depois completar: “Vou levar isso para minha vida inteira. Podem passar dez Olimpíadas, que não vou esquecer”.

Lohaynny deixa os jogos depois de perder por 2 a 0, para a ucraniana Maria Ulitina, ainda na primeira etapa da disputa pelas medalhas, duas parciais de 21 a 13. Apesar da saída precoce, ela diz sentir orgulho de ter sido a primeira brasileira a participar do badminton em uma Olimpíada desde 1992, quando o esporte foi inserido nos jogos. A jovem chega à competição com Ygor de Oliveira, de 19 anos, seu amigo de infância, também pioneiro da participação brasileira, no masculino, com estreia neste sábado (13), contra o irlandês Scott Evans.

A história de vida de Lohaynny é marcada por uma dura infância cercada pela violência, em que era obrigada a mudar de casa constantemente, já que seu pai era chefe de tráfico. Tentando mudar de vida após a morte do marido, há 14 anos, Cátia foi, com as duas filhas, Luana e Lohaynny, morar em outra comunidade, a Chacrinha, na Zona Oeste da cidade. Lá, as meninas conheceram o projeto social Miratus, voltado para o badminton, fundado por Sebastião de Oliveira. Dois anos mais velha, Luana foi quem levou a irmã para o esporte. “Quando eu tinha 6 anos, minha irmã, com 8, conheceu o projeto social e me disse que tinha um esporte muito ‘maneiro’. Havia várias crianças da comunidade lá, e eu gostei logo.”

Aos 12 anos, Lohaynny começou a ganhar campeonatos e percebeu que era boa no esporte. Algum tempo depois estava na seleção brasileira, assim como sua irmã, que não se classificou para os Jogos Olímpicos.

Lohaynny se disse agradecida à torcida que esteve em seus jogos, na Rio 2016. “Foi sensacional. Eles me apoiaram desde o começo, foram impecáveis na parte deles. O problema foi comigo e, hoje, o jogo não encaixou. Faz parte.”

A jovem espera que sua história de vida e a participação na Olimpíada incentivem outros jovens carentes a seguir no esporte. “Independe da classe social, eles podem chegar a qualquer lugar que eles quiserem”, disse.

A esperança do Brasil no Badminton persiste com a estreia de Ygor. Ele acredita que a amiga de infância, que conheceu no Miratus, fez o melhor. E emociona-se ao lembrar-se das dificuldades nos treinos, além da peteca improvisada e da falta de equipamentos, “Quando chovia, a gente tinha de pegar o rodo para secar o ginásio. Agora, vendo a gente aqui, num ginásio lindo, é uma honra ter chegado à Olimpíada com ela. Nós dois merecemos.”

Francisco Ferraz, presidente da Confederação Brasileira de Badminton, acreditava que Lohaynny podia se sair bem, uma vez que, na primeira partida, com a indiana Saina Nehwal – uma das melhores do mundo – a perda, também em dois sets, foi por pequena diferença, 21 a 17. A adversária de hoje era mais próxima dela no ranking.

Ferraz, porém, estava satisfeito com a estreia da delegação brasileira. “Foi resultado de um trabalho técnico e muito planejamento. Investimos muito na participação em competições de alto nível.”

Fonte: Época.

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