Polícia Rodoviária Federal atua de forma precária no Rio

Postos depredados, abandonados e, pior, vazios. A estrutura da Polícia Rodoviária Federal no Rio vem se deteriorando ao longo dos anos e chegou a um ponto crítico. Hoje, há apenas 650 agentes — metade do efetivo da corporação na década de 1990 — para patrulhar 1.581 quilômetros de rodovias federais, o que transforma o estado numa espécie de queijo suíço, por onde entram armas, munição e contrabando. Segundo um levantamento da própria PRF, 90% de todos os produtos contrabandeados que entram no Brasil têm como destino final o território fluminense. Um quadro que fez o prefeito Marcelo Crivella levar a questão da vulnerabilidade das divisas para a primeira reunião do Gabinete de Gestão Integrada Municipal, instalado há duas semanas. O grupo é formado por representantes das polícias Rodoviária Federal, Militar e Civil, das Forças Armadas e de órgãos da prefeitura.

— Fico impressionado como entram e circulam armas na cidade. Já pedi para a Polícia Rodoviária Federal e a Marinha ideias sobre o assunto. A PRF relatou que existia um posto na Dutra, que foi fechado pelo governo federal. Falei para apresentarem um projeto, o município vai ajudar. Mas tem que ser um posto moderno, com scanner e outros recursos que possam detectar armas — disse o prefeito ao “Globo”.

Efetivo reduzido
Hoje, o que se vê nas estradas de acesso ao Rio é um quadro de sucateamento. Na Rodovia Presidente Dutra, uma das principais do país, há cinco postos da PRF abandonados. Com a drástica redução do efetivo e considerando a escala de trabalho de três folgas por dia trabalhado, atualmente cada agente é responsável por pelo patrulhamento de 10,5 quilômetros, uma proporção considerada ruim por especialistas em segurança.

Segundo o diretor jurídico do Sindicato dos Servidores da Polícia Rodoviária Federal no Rio, Márcio Azevedo, o número de agentes no estado chegou a 1.200 na década de 1990. Nos dias atuais, o efetivo reduzido é agravado por um fato: dos 650 homens, 200 desempenham apenas serviços internos.

— Sobram, na verdade, 450 para patrulhar as estradas. Mas como a escala adotada é de um dia de trabalho por três de folga, temos aproximadamente 150 agentes cuidando das rodovias a cada turno — calcula Azevedo.

Quando falou sobre um posto na Dutra, Crivella estava se referindo a um na altura de Penedo, no Sul Fluminense, fechado há aproximadamente seis anos pela superintendência da PRF do Rio por conta de problemas judiciais. Um acordo firmado entre o governo do estado, a concessionária CCR Nova Dutra, que administra a rodovia, o Parque Industrial de Itatiaia e a prefeitura local previa a transferência da base para um local mais próximo da divisa entre o Rio e São Paulo.

O superintendente substituto da PRF no Rio, Rafael Alvim, contou que a CCR Nova Dutra deu ao governo do estado dinheiro para a construção do posto em Itatiaia, conforme previa o acordo. O Palácio Guanabara, no entanto, não apresentou sua contrapartida, o que levou o projeto a ser engavetado. A concessionária, então, recorreu à Justiça para tentar reaver o dinheiro.

— Acabar com a entrada de armas no estado é algo impossível, mas poderíamos tentar minimizar o problema. Para isso, precisamos do posto em Itatiaia — diz Alvim. — Na época, a construção da unidade foi orçada em cerca de R$ 3 milhões. Hoje, custaria aproximadamente R$ 4,5 milhões. A nova base ficaria próximo ao polo industrial de Itatiaia, a cerca de cinco quilômetros de distância de Penedo e mais perto da divisa com São Paulo. Para nós, seria de extrema importância para uma fiscalização mais eficiente. Deveríamos ter quatro postos nas divisas, mas, hoje, só contamos com três: o de Parati, na BR-101 (quase na divisa com o litoral norte de São Paulo), o de Campos, na BR-101 Norte (na divisa com o Espírito Santo) e o de Três Rios, na BR-040 (na divisa com Minas Gerais).

Unidades fechadas na Dutra
Nesta terça-feira, uma equipe do “Globo” percorreu a Presidente Dutra até a divisa com São Paulo e constatou que, além do posto de Penedo, quatro bases da PRF na rodovia estão fechadas. Elas estão localizadas em Seropédica, Paracambi, Volta Redonda e Itatiaia. Porém, segundo a Polícia Rodoviária Federal, o posto de Seropédica foi reativado. “A PRF possui oito delegacias no estado do Rio para patrulhar dez rodovias federais. Nosso trabalho, hoje, é dinâmico. Realizamos constantes fiscalizações”, informa, em nota, a corporação.

Márcio Azevedo diz que a distribuição de agentes da PRF pelos estados deverá ser alterada pelo Programa de Proteção Integrada de Fronteiras (PPIF) do governo federal, que, segundo ele, substituiu o Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras (Enafron):

— Agora, com o PPIF, há a necessidade de o efetivo de fronteiras se locomover para os estados consumidores (de produtos ilícitos). E isso precisa acontecer.

Soma-se às dificuldades uma característica do estado. O Rio, de acordo com o superintendente substituto da PRF, Rafael Alvim, registra o maior volume médio diário de circulação de veículos do país. Em São João de Meriti, na Presidente Dutra, são 90 mil veículos circulando por dia em cada sentido. Um total só superado por Garulhos, em São Paulo, onde passam pela rodovia 170 mil veículos em cada pista.

Segundo a PRF, houve um aumento considerável nas apreensões de drogas no ano passado: mais 233% de crack e mais 55% de maconha, totalizando 14 toneladas. Também em 2016, foram apreendidas 138 armas de fogo nas rodovias federais. Mas a quantidade é muito pequena se considerados os números da Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio sobre fuzis, armamento que mais preocupa as autoridades. Dados do ISP revelam que o total de fuzis apreendidos em 2016 no estado bateu recorde: 371. Em 2007, quando a contagem começou, policiais recolheram 214. Ao longo dos anos, houve um aumento de 72%. Na última década, foram 2.615 apreensões de fuzis.

Segundo a PRF, seu serviço de inteligência já constatou que os traficantes estão utilizando outros meios para entrar com armamento na Região Metropolitana, como portos e aeroportos. “Através da Baía de Guanabara, por exemplo, é possível acessar as principais comunidades (…), conhecidas como ‘entrepostos do tráfico’, como Complexo da Maré, Baixada Fluminense, entre outras, inclusive da Região Metropolitana, como o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo”.

Fonte: “O Globo”.

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