“Protocolo de guerra” é acionado 1,2 mil vezes em unidades de saúde do Rio em 6 meses

29 de junho de 2016. Por volta das 8h da manhã, uma bomba explode no estacionamento da Clínica da Família Anthidio Dias da Silveira, no Jacarezinho, Zona Norte do Rio. Por conta da ação criminosa, a unidade de saúde fecha e centenas de pessoas ficam sem atendimento naquele dia. Gerente da clínica há quatro anos, Cyntia Guerra lembra do impacto do ocorrido sobre os profissionais.

“Foi o pior dia desde que comecei a trabalhar aqui. Era aniversário de cinco anos da clínica. Tínhamos programado uma comemoração com culto ecumênico, com toda comunidade convidada para estar com a gente. Os moradores tinham feito um bolo para festejar.”

Segundo Cyntia, há dois anos a violência no entorno aumentou, e os episódios de fechamento da unidade se tornaram frequentes.

“Protocolo de guerra”
Os números da Secretaria Municipal de Saúde comprovam o crescimento da insegurança. De janeiro a julho de 2017, 1.266 notificações por eventos de violência resultaram no fechamento parcial ou total das unidades de saúde.

Quando o território não está seguro, entram em cena protocolos adaptados de países em guerra, criados pela Cruz Vermelha, que treinou os profissionais da secretaria.

Se o alerta for vermelho, significa que as unidades de saúde precisam ser fechadas por conta dos conflitos e do perigo que correm profissionais e usuários.

O alerta amarelo sinaliza que é necessária a suspensão de atividades externas, como visitas domiciliares e promoção de saúde.

No primeiro semestre deste ano, o município recebeu 908 alertas amarelos e 358 alertas vermelhos.

Apesar de existir desde 2009, o Programa Acesso Mais Seguro, como é chamado, era tratado até recentemente de forma sigilosa dentro da prefeitura. Isso porque a gestão anterior entendia que a divulgação poderia associar a situação do Rio com a mesma de países em guerra.

Na época, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha procurou a Secretaria Municipal de Saúde por entender que a violência armada é crônica na cidade. Propôs, então, adaptar os protocolos usados para proteger seus médicos e voluntários ao redor do mundo à realidade carioca. Hoje, a iniciativa reduz os danos sentidos pelas 1.247 equipes de saúde da família que atuam na cidade. Mas eles continuam existindo.

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Impactos psicológicos
Para preservar os profissionais que trabalham em áreas de risco, a Prefeitura do Rio mantém ainda outro programa em parceria com a Cruz Vermelha. O Saúde Mental e Violência dá apoio aos profissionais de saúde e paciente para lidar com o sofrimento emocional e os impactos psicológicos de viverem e trabalharem em locais com conflito armado.

“Não acho que existam pessoas afetadas indiretamente. Todos somos afetados diretamente pelo contexto da violência, morando ou não morando num território onde se tem atores armados. Seja trabalhando ou seja vivendo, as pessoas são afetadas, pois o risco é inerente e o medo está presente nessas áreas conturbadas. Isso causa muito sofrimento nos profissionais”, enfatiza Fernanda Prudêncio, coordenadora do Ciclos de Vida da Subsecretaria de Atenção Primária, Vigilância e Promoção da Saúde (Subpav).

Crise de choro e tristeza
Era apenas um dia de trabalho normal para o odontologista Ulysses Costa, até que um grande tiroteio tirou a sossego das pessoas que estavam dentro da Clínica da Família onde ele trabalha, na Zona Norte da cidade. Assustadas, muitas pessoas invadiram a sala do dentista, que realizava um procedimento delicado em seu paciente.

A tensão se manifestou em Ulysses horas depois, com uma crise de choro e tristeza.

“Na hora, fiquei muito nervoso, mas consegui administrar tudo de forma tranquila. Minha preocupação era o paciente. Quando cheguei em casa, que sentei na minha cama, comecei a repassar o que tinha vivido e comecei a tremer e a chorar. A gente fica abalado, mas no Rio não tem como fugir muito desse cenário”, disse o dentista, que veio da Bahia.

Ulysses conta que, muitas vezes, ele e outros profissionais discutiram, durante o período de formação, se valia a pena manter aquilo tudo ali.

“Querendo ou não, esse tipo de conflito constante acaba que dificulta algum processo pedagógico da residência, porém, a gente chegou a conclusão, durante as discussões, que isso também desperta outros processos pedagógicos. Sem dúvida, a gente aprende muito. Então, temos que aprender a sobreviver e a trabalhar nisso.”

Mesmo em condições difíceis, os profissionais de saúde das clínicas da família não desistem de prestar o serviço à população das comunidades menos favorecidas. Segundo eles, há um senso de responsabilidade que motiva o trabalho.

“As pessoas do território quase não têm acesso aos serviços públicos. Muitas vezes a clínica é o único (local) que elas podem recorrer”, explica Cyntia Guerra. “Quando cheguei, tinha muita rotatividade. Hoje, temos cinco equipes completas”.

Responsável pelos médicos de família que fazem residência, Rita Helena Borret pensou em deixar o trabalho há um ano. Um dos residentes que supervisionava estava fazendo uma visita quando começou um tiroteio. Ele teve que dormir na casa do paciente, pois não era seguro sair. Ela se sentiu impotente diante do risco.

“Estava com tudo pronto para deixar a clínica. Mas acabei decidindo ficar”, diz Rita. Pelos meus colegas e pelas pessoas, que precisam da gente. O que nos motiva todo dia a vir trabalhar é fazer parte de algo maior, que é importante para tanta gente”.

Para Hugo Fagundes, superintendente de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde, é necessário se pensar cada vez mais em como oferecer suporte para todas as pessoas envolvidas.

“Precisamos aumentar o diálogo com essas comunidades e com esses profissionais da saúde. Muitas vezes, esses profissionais lidam com um contexto muito sofrido também, muito em razão do sofrimento dos pacientes. Porque existem pacientes que são acompanhados durantes anos, os médicos os conhecem pelos nomes, muitas vezes tratam crianças que viram nascer. Então acabam vivenciando os sofrimentos desses pacientes também”, avalia Hugo.

1,6 mil internados
A rede municipal de saúde do Rio tem mais de 200 unidades de atendimento. Os casos que exigem especialistas em psiquiatria e psicologia são encaminhados para os 34 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) distribuídos pela cidade.

Somente entre janeiro e abril deste ano, 1,6 mil pacientes foram internados nos CAPS da capital. Ao todo, 15 mil pessoas estão registradas no sistema de saúde mental da cidade.

Fonte: G1.

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