FLIP: Marcelo Madureira critica esquemas de financiamento de cultura no Brasil

Karim Miskulin e Marcelo Madureira

Falando para uma plateia animada e interessada, público da Festa Internacional Literária de Paraty (FLIP), na Casa da Liberdade, o humorista, escritor e especialista do Instituto Millenium Marcelo Madureira despertou o auditório para questões da liberdade, educação, cidadania, patrulhamento ideológico, censura, limites artísticos x mercado e conscientização política na mesa “Liberdade de criação artística”.

Madureira ressaltou que como integrante do Imil, luta pela defesa da liberdade, sem a qual não existe democracia.

Quando se fala em liberdade artística em confronto com o mercado, o tema do limite da interferência do patrocinador ou do veículo de mídia sempre surge. Foi através dele que Madureira começou a chamar a atenção do público para o quanto a questão é mais da ordem prática da relação de trabalho do que de censura prévia: “O artista tem que pagar contas, tem que viver, pagar aluguel e produzir para alguém. Quando se trabalha em uma organização sempre há limites de várias ordens e o papel do artista é negociar em nome da obra, contribuindo politicamente para a formação do expectador.”

Para o humorista, no entanto, os grandes anunciantes ou financiadores de cultura, que no caso brasileiro são as estatais, como a Caixa Econômica Federal, a Eletrobrás e a Petrobrás, e o tipo de política imposto nas negociações de patrocínio são os verdadeiros fatores preocupante para a produção cultural e para a liberdade de criação no Brasil.  “A liberdade vive sob ameaça no país. As cabeças políticas não entendem a ampla liberdade de manifestação como liberdade. Os grandes anunciantes estatais estabelecem uma política de governo para quem quer conseguir recursos para produzir um filme, uma peça, que não possui movimentos claros para quem não faz parte da panelinha, do esquema”.

Madureira criticou a judiciarização da sociedade brasileira, experimentada pelo excesso da presença jurídica em casos da vida cotidiana, onde a ética bastaria para impor os limites necessários para a sociedade. “É impensável um samba como os de Moreira da Silva, que cantava nos idos de 1950, por exemplo”, disse.

Para o especialista, o Brasil sofre ainda do que ele ironicamente chamou de “corinthianização” ou “flamenguização” da sociedade, ao se referir sobre o pensamento dominante, da maioria, não aceitar as refutações ou posições contrárias: “No Brasil, quem contraria é chamado de mau- caráter, desonesto. Só pode se estar com a maioria”.

A precariedade da conscientização política torna o cidadão comum capaz de criticar o banco pela alta dos juros, mas não criticar o governo, o real culpado pelas altas taxas, disse Madureira.

O humorista criticou a demonizaçao do dinheiro, o esvaziamento da educação pública de qualidade e enfatizou a importância de festivais como a FLIP e de espaços como a Casa da Liberdade e o Imil para a “mudança das cabeças” na sociedade brasileira.

“Há esperança quando se tem uma agenda pela qual trabalhar. Eu sempre me pergunto qual será o mundo que vou deixar para os meus filhos e netos. Essa é a minha agenda”, afirmou.

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