Marcos Troyjo fala sobre a Brasil, China e a “encruzilhada da globalização”

Brasil e China – Encruzilhada da Globalização – Entrevista com Marcos Troyjo

O Brasil busca mudar o seu padrão de crescimento com menor dependência no consumo interno e maior ênfase em investimentos. A China está crescendo menos, mas talvez melhor. Tem se reorientado para a produção de bens de maior valor agregado, mais incentivos ao mercado interno e portanto menor dependência nas exportações. Nessa entrevista, o economista e cientista social Marcos Troyjo, professor da Universidade Columbia e do Ibmec, reflete sobre essa mudança de perfil das duas maiores economias emergentes.

Brasil no Mundo: A julgar pelas taxas de crescimento de Brasil e China podemos dizer que a renda per capita desses países será a mesma ao final da década?
Marcos Troyjo:
Em termos da renda per capita medida pelo critério do poder de paridade de compra, os dois países estão ainda mais próximos. O Brasil tem cerca de US$ 11.500 e a China US$ 8.500 de acordo com dados do ano passado compilados pelo Banco Mundial.

A China tem adotado desde 1978 um modelo de industrialização voltado a exportações. O Brasil tem praticado diferentes variantes da estratégia de substituição de importações. Os chineses buscaram acordos comerciais (inicialmente na forma de tratamento de sua economia como “nação mais favorecida. Implementaram desde os anos 80 PPPs (parcerias público-privadas) voltadas à infra-estrutura para o comércio exterior e administraram para baixo o câmbio e a remuneração dos fatores (o valor pago pela mão-de-obra, por exemplo). Já o Brasil recorre frequentemente ao protecionismo, alento ao mercado interno e incentivo em compras governamentais ao conteúdo local.

Brasil no Mundo: Esses modelos podem continuar a ter sucesso?
Marcos Troyjo: O êxito ou fracasso desses modelos e seu impacto na renda estará associado à adaptação ante um verdadeiro “eclipse”da economia global. Como o cenário global mudou, esses dois países também têm de “reinventar” suas estratégias econômicas.

Estamos entrando numa fase de “reglobalização” marcada não apenas pelo novo status da China como superpotência econômica, mas também pela “reemergência” dos Estados Unidos e seu papel de liderança no desenho de megaespaços de comércio e investimentos, como é o caso da Aliança Transatlântica (EUA + Europa) ou da Parceria Transpacífico (EUA + alguns países de Ásia, Oceania e América Latina). Parece-me que a China está mais bem preparada para jogo que vem por aí do que o Brasil, e isso vai refletir-se na progressão da renda per capita de ambos.

Brasil no Mundo: O Brasil teve ao longo do século 20 taxas recordes de crescimento econômico, era pouco expressiva no mercado global. A situação hoje se inverteu. Que lições podemos tirar das evoluções desses emergentes?
Marcos Troyjo:
Vejo que a China tem acelerado sua adaptação criativa e, mediante exuberantes superávits comerciais e sucessivos excedentes orientados estrategicamente à pesquisa, desenvolvimento e inovação, está aproximando-se do centro denso em tecnologias. Já lidera o mundo em energia solar, por exemplo. Em 2020, chegará à marca de 2,5% de seu PIB voltados à inovação, superior portanto à media de 2,1% dos países da OCDE. O Brasil continua no patamar de apenas 1% de seu PIB em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Já foi possível sentir isso nos últimos 10 anos. Este renovado sistema internacional em que há uma centralidade da China faz reemergir, para países como o Brasil, lógica semelhante ao padrão Norte-Sul das vantagens comparativas do século XIX. A tonelada chinesa exportada ao Brasil vale US$ 3 mil, enquanto a tonelada brasileira à China menos de US$ 170. Esta relação é temerária para o Brasil. Pode levar a uma sensação de efêmera prosperidade, pois os benéficios do comércio em commodities não têm se traduzido em investimentos nas áreas de ponta deste cenário global de acirradas rivalidades tecnológicas.

Daí o Brasil ter grandes dificuldades em promover ganhos sustentados de renda ao longo do tempo, pois sua produtividade permanece muito baixa. De 1992 e 2007 a Proditividade Total dos Fatores (PTF) no Brasil cresceu apenas 11.3%. No mesmo período PTF cresceu a uma média anual de 4% na China. Estes parâmetros reforçam a noção de que os períodos de elevado crescimento da economia brasileira associam-se (I) à vigorosa demanda global por commodities em que o Brasil apresenta vantagens comparativas ou (II) a períodos de proteção do mercado via substituição de importações, forte papel do Estado na composição da demanda e consumo interno voraz.

Brasil no Mundo: O Brasil ganha ou perde com a mudança do perfil da economia chinesa em direção a uma maior participação do mercado interno?
Marcos Troyjo: Penso que em geral a reconversão do modelo econômico chinês diminui as oportunidades relativas para o Brasil. Os grandes beneficiários da mudança são os países que podem atrair empresas que hoje produzem na China e cujas matrizes encontram-se descontentes com os custos de produção em alta naquele país, caso da mão-de-obra e do preço dos imóveis. São países como o México, que tem acordo de livre comércio com os Estados Unidos, e os do entorno geográfico chinês, como Tailândia, Indonésia e Vietnã.

Um dos mais impactantes fenômenos da economia global nos próximos quinze anos será a migração de postos de trabalho da China para outros países. Cerca de 10 milhões de empregos sairão da potência asiática, que deixará cada vez mais de ser apenas uma plataforma de produção de itens de baixo valor agregado e se concentrará em produtos que exigem conhecimento intensivo. Em 10 anos, a China será a maior economia do mundo. Mas, ainda assim, será uma economia comparativamente pobre, com um PIB de US$ 15 trilhões e renda nominal per capita próxima a US$ 12 mil por ano, semelhante à do Brasil contemporâneo.

Caso o Brasil não promova reformas estruturantes, sacrifícios em direção à competitividade e reforma de sua inserção global, essa “China 2.0” vai imobilizar ainda mais o Brasil na chamada “armadilha da renda média”. O Brasil vai ficando muito caro para competir com os mais pobres e muito ineficiente para competir com os mais avançados e dinâmicos.

Fonte: Blog “Brasil no Mundo” (Exame online)

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