Rebaixamento da Petrobras gera temor no governo

Para evitar corte na nota do país, governo deve mostrar que medidas vão melhorar a economia

O governo brasileiro terá de correr contra o tempo para mostrar que as medidas que vem tomando para garantir o ajuste fiscal, conter a dívida pública como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) e estimular uma trajetória de crescimento mais alvissareira vão surtir efeitos. Disso dependerá a boa vontade das agências de classificação de risco para decidir se o país é mais ou menos confiável quando divulgarem sua nova nota. Na quarta-feira, a Moody’s rebaixou a da Petrobras, o que desencadeou o temor não só nos mercados, mas também dentro do próprio governo, de que o mesmo poderia acontecer com o chamado risco soberano brasileiro.

A britânica Fitch se prepara para divulgar um novo documento, o “Global Economic Outlook”, nos próximos dias, com uma nova previsão para o crescimento econômico brasileiro. Mas a nota revisada com a avaliação de risco para o país só sai por volta do dia 15 de julho.

— Nós reconhecemos que houve uma deterioração das contas fiscais e que o crescimento está mais baixo do que previamente projetado. A revisão do crescimento será atualizada como parte do relatório “Global Economic Outlook”, a ser publicado em março, e vai levar em conta os indicadores fracos de confiança e o aperto das políticas econômicas, assim como os desgostos do setor da construção — disse ao GLOBO a diretora sênior de ratings soberanos da Fitch, Shelly Shetty.

Segundo ela, a revisão vai levar em consideração os desdobramentos da economia desde julho de 2014, quando a agência revisou a nota pela última vez.

— Ao mesmo tempo, vamos monitorar como a nova equipe econômica vai lidar com o processo de ajuste macroeconômico e em que medida as mudanças são sustentáveis e ajudarão a recuperar a credibilidade, confiança e crescimento — complementou.

Preocupação com eventual contágio

A Standard & Poor’s não tem data certa para publicar a revisão da sua nota. Mas deixou claro que pode aumentar, diminuir ou manter a atual a qualquer momento que julgue necessário.

A preocupação de analistas com um eventual contágio da nota mais baixa da Petrobras para o risco soberano do país não é infudanda, dado o tamanho da estatal do petróleo e a previsão de investimentos bilionários na economia do país. O governo sempre fez questão de lembar que a Petrobras tinha o maior plano de investimentos do mundo.

No entanto, as agências não deixam claro até que medida a nova nota pode influenciar as perspectivas para a economia brasileira como um todo.

O analista sênior para dívida soberana da Moody’s Mauro Leos, adianta que a agência já vinha considerando uma eventual ajuda financeira para a estatal.

— A atual classificação e perspectiva do Brasil refletem nossa avaliação de uma série de cenários possíveis, o que inclui os mais adversos envolvendo alguma forma de apoio financeiro para a Petrobras — disse Leos.

Ele destaca, contudo, que, em nenhum desses cenários, o patamar da dívida pública brasileira ultrapassaria 70% do PIB. Ou seja, a nota Baa2 recebida no ano passado continuaria compatível com este percentual. Mas isso “se a agência estiver confiante de que o governo vai responder com um plano crível para alcançar a consolidação fiscal, que melhore a dívida pública e favoreça o investimento e o crescimento”.

— O que vamos olhar continua sendo dirigido pelo nosso entendimento da credibilidade dos planos do governo e das perspectivas econômicas e fiscais de médio prazo — afirmou Leos.

Manutenção da governabilidade

A Moody’s revisou a nota pela última vez em setembro do ano passado. No último relatório que publicou em julho do ano passado, a Fitch destacava que pesariam para uma decisão negativa a erosão das políticas que levassem a vulnerabilidades macroeconômicas e financeiras, um desempenho baixo continuado da economia e deterioração fiscal que minassem a dinâmica da dívida do governo. Na lista do que daria pontos à economia brasileira estão, entre outros, mais investimentos e uma trajetória de crescimento.

Em um trecho do documento, a Fitch enfatizava ainda que os ratings e perspectivas são sensíveis a algumas premissas, como a manutenção da governabilidade apesar de protestos em algumas cidades. À época, a Fitch não incluía qualquer cenário potencial de racionamento de energia nas suas projeções econômicas básicas. Isso aconteceu antes dos problemas de energia no país e da falta de abastecimento de água.

As agências mantêm o contato direto com o governo brasileiro para receber dados e trocar avaliações sobre o desempenho da economia.

Fonte: O Globo

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