Por que Gustavo Franco resolveu ir para o Nubank

A empresa de cartões de crédito Nubank acaba de contratar o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e fundador da gestora Rio Bravo, com a missão de ajudar a fintech a crescer e lançar novos produtos. Com salário fixo e plano de opções de ações, ele começa a dar expediente na sede da empresa uma vez por semana em julho. “Desde 2014 buscávamos alguém que entendesse o mercado financeiro brasileiro e nos aconselhasse em assuntos que não temos experiência, como regulação”, diz o colombiano David Veléz, fundador do Nubank. A decisão de contratar um grande nome do mercado é duplamente estratégica. Ao mesmo tempo em que ajuda os fundadores a identificar oportunidades e obstáculos em novas searas além do cartão, traz credibilidade a startup, que tem pouco mais de três anos. “Temos pretensões maiores do que ser apenas um emissor de cartão. Agora começamos a pensar na nossa segunda fase de crescimento”, diz Veléz.

Em entrevista a “Exame”, Franco afirma que a transformação do mercado financeiro nos próximos dez anos será “devastadora, no bom sentido”. “Os bancos ainda são muito focados em agências, papel e excesso de pessoas”, diz. “O público está buscando formas criativas, mais cômodas e baratas de fazer transações financeiras”. Sobre o prejuízo recorrente do Nubank, Franco diz ser natural que empresas pequenas e novas ainda precisem gastar grande parte dos recursos investindo no negócio. Confira a entrevista completa com Gustavo Franco.

Exame – Por que se associar ao Nubank?
Gustavo Franco – O lado tecnológico, financeiro e inovador do Nubank está em linha com o futuro que eu enxergo, onde consumidores têm produtos melhores e o ambiente seja de maior competição. Onde você encontra isso? Há muitas pessoas desafiando a indústria bancária e o Nubank é um caso bem sucedido. Em particular, um de seus ativos mais importantes é o relacionamento com o cliente, que é exemplar. Hoje ninguém na indústria financeira brasileira tem isso. Representa um novo equilíbrio de forças que a indústria financeira vai ter no futuro.

Exame – O senhor já acompanhava o crescimento do fenômeno das fintechs no Brasil?
Franco – Todo mundo no sistema financeiro está olhando para isso. Seja pelo encanto com a tecnologia e suas possibilidades que as fintechs trazem para os negócios financeiros. Pela Rio Bravo chegamos a investir em uma empresa de cartão de crédito consignado chamada Unik, que foi vendido a uma companhia americana há três anos. Mas, nada muito parecido com o que vemos no Nubank. No cenário que temos hoje, de alta concentração bancária no varejo, e sem perspectiva de que isso vai mudar em breve, a não ser que os bancos públicos sejam privatizados, é natural que surjam concorrentes mais eficientes.

Exame – E como o senhor vê o futuro das fintechs?
Franco – Vemos uma mudança muito profunda. O uso de mobile no setor financeiro, por exemplo, é algo que estamos bem atrasados. Os bancos ainda são muito focados em agências, papel e excesso de pessoas, mas, ao mesmo tempo, têm um legado importante. Não se joga fora essa infraestrutura. Ela vai permanecer até que se venha outra melhor em custo e comodidade ao consumidor e a própria concorrência vai fazer os incumbentes se sacudirem e migrarem suas plataformas para outros formatos. Além da tecnologia, a preferência do público pela plataforma aberta é outra mudança importante. As pessoas querem ser donas de seu próprio dinheiro e, dentro dos bancos, estão sempre sujeitas a ofertas de produtos e serviços do próprio banco. Há um conflito de interesse permanente, que cria uma espécie de má vontade estrutural contra o banco que já é grande em razão de taxa de juros. Existe uma disposição muito grande por parte do público por alternativas, a demanda por produto novo, inovação, concorrência, formas criativas, mais cômodas e baratas de fazer as coisas no mundo financeiro, está no ar. Essas transformações vão, ser nos próximos dez anos, devastadoras, no bom sentido.

Exame – Qual sua missão na empresa?
Franco – Novas ideias e novos produtos. Não que aqui não tenha boas ideias, mas eu estou vindo com um ângulo diferente de observação e, com a experiência que eu tive em política econômica, no Banco Central e em mercado de capitais, tenho um olhar diferente sobre as possibilidades de expansão. Complementar aos talentos que eles têm aqui.

Exame – O senhor continua na Rio Bravo ou vai se dedicar exclusivamente ao Nubank?
Franco – Terei uma dedicação semanal no Nubank, como tenho na Rio Bravo, mas não serei executivo de linha. Vou trabalhar de forma similar a um conselheiro de administração de uma empresa de capital aberto. Continuo na Rio Bravo e na Endeavor também. Já fiz trabalhos antes com o Nubank, mas agora me dedicarei mais. Já comecei também a participar de algumas reuniões estratégicas sobre os caminhos a seguir em produtos. Parte do jogo também é olhar exemplos internacionais. Muita coisa é aproveitável e idêntico, mas é preciso olhar sempre de forma humilde para os avanços internacionais e compreender as singularidades brasileiras.

Exame – Também vai participar das discussões das associações com o Banco Central sobre questões regulatórias das fintechs?
Franco – Sim, mas o que menos o pessoal quer fazer é associativismo com regulador. O ideal é que temos menos tempo dedicado a isso possível.

Exame – No que ainda estamos atrasados em relação ao mundo?
Franco – O Brasil é muito avançado em algumas questões, às vezes até pelas razões erradas. Foi a inflação que fez o Brasil avançar em meios de pagamento. Agora é um momento diferente. Hoje as pessoas têm acesso a muita informação. Sabem as taxas de juros praticadas e quais créditos são mais caros. Essa transparência abriu a discussão para o regulador permitir que o mercado seja mais competitivo. Todo mundo está a favor da inovação e do benefício ao cliente.

Exame – O fato de o Nubank ter prejuízo não o preocupa?
Franco – O Nubank é uma empresa de pouca idade ainda, apesar de ser já grande e nem poder ser comparada a pequenas startups. Prejuízo não quer dizer tanta coisa porque é preciso olhar o que eles já fizeram e o que vão anunciar em breve. O balanço fornece poucas informações para os analistas tirarem muitas conclusões. É natural que empresas pequenas e novas ainda precisem gastar grande parte dos recursos investindo no negócio, mas elas virarão grandes instituições financeiras e terão novas atividades que serão mais fontes de receitas.

Fonte: “Exame”, 27/07/2017.

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