Resultado nas urnas confirma poder de currais eleitorais

Milícias seguem exercendo influência, mas domínio muda de mãos

O resultado das eleições municipais comprova que as milícias continuam exercendo influência política na Zona Oeste do Rio, área que domina, mas o poder mudou de mãos. Não está mais concentrado na figura do ex-vereador Jerônimo Guimarães, o Jerominho, apontado como chefe do principal grupo paramilitar da região. A filha dele, a vereadora Carmen Glória Guimarães, a Carminha Jerominho, (PT do B), não se reelegeu e conquistou 6.234 votos, quase um quarto do que obteve no pleito anterior (22.068 votos).

Já Elton Babu (PT), que é irmão do ex-vereador Jorge Babu, condenado por formação de quadrilha armada, garantiu mais quatro anos na Câmara de Vereadores. Babu manteve-se nas três primeiras colocações nas zonas eleitorais sob influência de milícias, como Inhoaíba, Cosmos, Paciência, Guaratiba, Nova Sepetiba e Santa Cruz. Do total de 12.630 votos que recebeu, 8479 foram nessas áreas.

Este pleito também firmou Chiquinho Brazão (PMDB) como o principal herdeiro político da área de atuação do bombeiro Cristiano Girão, condenado por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro — ele está preso numa prisão federal. Chiquinho Brazão recebeu 15.757 votos na Gardênia Azul e Anil, em Jacarepaguá, zonas eleitorais que também atendem a Cidade de Deus, área de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). O mapa de votação confirma a extensão dos tentáculos de Brazão: ultrapassou os limites das áreas de milicianos e alcançou essa região pacificada.

Em favelas com UPP como a Rocinha e o Complexo do Alemão, os candidatos investigados pela polícia por uma suposta ligação com o tráfico de drogas foram bem votados. No entanto, não conseguiram se eleger. Apesar de ter sido o segundo candidato mais votado na Rocinha, o presidente da Associação Pró-Melhoramentos da Rocinha, Leonardo Rodrigues Lima, o Leo Comunidade (PTN), que está licenciado, ficou de fora da Casa. Ele obteve 3.244 votos na comunidade, de um total de 5.775 em toda a cidade. O Ministério Público chegou a impugnar sua candidatura por abuso de poder político e econômico, por distribuir cestas básicas em troca de votos. No domingo foi flagrado pela polícia fazendo boca de urna, mas teria fugido após uma confusão.

No Complexo do Alemão, Wagner Nicacio, o Wagner Bororó (PSB), que é suspeito de intermediar a venda ilegal de apartamentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na favela da Grota, angariou 2 mil votos de um total de 3.657. A comunidade optou por reeleger Jorge João Silva, o Jorginho da SOS (PMDB), conhecido por distribuir bolsas de estudo na favela.

A prática assistencialista continua sendo o filão para se ganhar votos em comunidades. Esta ação garantiu a reeleição também de Teresa Bergher (PSDB), a mais votada na Vila Cruzeiro e em favelas que o tráfico ainda se mantém, como a Maré, onde teve um centro social lacrado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), porém a vereadora nega. Na Maré, apesar de o administrador Regional, Hildebrando Gonçalves (PT do B), ter sido o campeão de votos com 7.043, não conseguiu uma cadeira no Legislativo. Moradores contam que ele chegou a consertar uma quadra de esportes na favela.
Nos morros do Chapadão, Lagartixa e Pedreira, em Costa Barros, uma das áreas mais violentas do Rio, o médico Eduardo Moura (PSC) se elegeu com 10.438 votos, de um total de 17.869. Ganhou notoriedade após ajudar a levar uma Unidade Básica de Saúde para o Complexo de Acari.

A reboque do uso de centros sociais, a deputada estadual Lucinha (PSDB) conseguiu que o filho Júnior da Lucinha (PSDB) fosse eleito na Zona Oeste com 19.851 votos distribuídos em áreas de grupos paramilitares como Santa Cruz, Campo Grande, Paciência, Cosmos, Inhoaíba e Afonso Viseu. Foi um dos mais votados na área com 31182.

Os bairros de Copacabana, Leme, Ipanema, Botafogo e Rocinha, onde há UPPs, elegeram o médico Paulo Pinheiro (PSOL). Com a saída da vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB), Pinheiro pegou carona na preferência dos eleitores dela, que fez campanha indicando o vereador. Ele teve 5.166 votos em áreas pacificadas, de um total 28.539.

Fonte: O Globo

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