Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Sites de financiamento coletivo arrecadam mais na crise

Sites de financiamento coletivo (crowdfunding) estão crescendo em apoio e diminuindo em quantidade no Brasil. Passados cerca de cinco anos desde que se tornaram novidade no País, as plataformas, hoje mais maduras, contabilizam um número crescente de usuários e projetos, quadro que se deve a uma maior confiança sobre esse tipo de negócio e a uma onda de novos empreendedores que buscam nesse modelo uma forma de testar suas ideias sem esvaziar o bolso.

O crowdfunding funciona assim: um idealizador coloca seu projeto em um site de financiamento coletivo e estipula quanto dinheiro precisará para torná-lo realidade. Ele então oferece recompensas diferentes por faixa de valor aplicado por apoiadores. Se o valor for alcançado até um prazo estipulado, o idealizador recebe o montante. Algumas plataformas, mais flexíveis, admitem o recebimento mesmo sem ter-se alcançado a meta.

Levantamento feito pelo Estado mostra que de 76 plataformas de crowdfunding criadas no País, apenas 31 permanecem ativas com projetos ou campanhas lançadas há pelo menos três meses. Dentre as sobreviventes, está a Kickante, um dos sites de apoio coletivo a projetos que registram crescimento relevante neste ano. “De outubro de 2013 até o final do ano passado tínhamos 1 mil campanhas e R$ 4 milhões em arrecadação. Somente em 2015, foram 8 mil projetos lançados e mais de R$ 10 milhões arrecadados”, afirma Tahiana D’Egmont, responsável pela Kickante.

Para ela, o atual cenário econômico e o aumento de desemprego colaboraram indiretamente para a popularidade da plataforma. “A crise na economia é algo muito positivo para a gente. Crescemos muito neste momento”, conta Tahiana.

Quem explica essa relação é o analista Claudio Soutto, da Deloitte, que aponta para o empreendedorismo como uma cultura crescente no País. “O modelo de emprego no Brasil e de profissão está mudando muito. Daqui alguns anos, a maioria dos empregos será de pequenas empresas que prestam serviço para outras organizações. O empreendedorismo hoje é muito mais acentuado do que anos atrás.”

Para ele, esses novos pequenos empresários veem nos sites de financiamento coletivo uma forma de provar a demanda por seus produtos ou serviços, partindo de investimento e riscos muito baixos. “São plataformas democráticas, que permitem que qualquer pessoa, de qualquer classe, com uma boa ideia chame atenção de um público maior. É um prato cheio para o empreendedorismo”, acredita.

Pesquisa realizada pelo Catarse embasa a relação entre crowdfunding e empreendedores. Segundo ela, 32% dos donos de projetos são donos de empresas.

Uma das empresas que mais ajudaram na popularização do modelo de financiamento de projetos – sejam eles a gravação de um álbum musical, o desenvolvimento de um jogo ou o apoio a um projeto social – também relata uma explosão semelhante de seus índices. O Catarse, criado em 2011, contabilizou um crescimento de 23% no primeiro semestre deste ano na comparação ano a ano.

“Nosso crescimento foi um ciclo: passamos confiança para quem tinha um projeto, ele passou confiança para quem queria apoiar e por aí vai”, conta Diego Reeberg, fundador do Catarse. ”Hoje, a maioria dos projetos que entram foram por recomendação de outras pessoas que usaram a plataforma.”

As plataformas de nicho, que aceitam apenas projetos ligados a temas específicos, como livros, animais de estimação ou cervejas, também acompanham a alta. “Arrecadamos R$ 1,2 milhão apenas nesses primeiros seis meses. Na história da empresa, que criei em 2012, foram R$ 3,4 milhões”, conta Ariel Tomaspolski, cofundador da Juntos.com.vc, focada em projetos sociais.
Segundo a dados da Massolution, empresa dos EUA que pesquisa e presta consultoria para o setor, a alta na arrecadação realizada pelo mercado de crowdfunding é observável em todo o mundo. Entre 2010 e 2014, o valor obtido com campanhas saltou de US$ 880 milhões para US$ 16,2 bilhões. A projeção para este ano mais do que dobra, podendo chegar a US$ 34,4 bilhões.

À brasileira
Apesar da crescente popularização do crowdfunding, o brasileiro ainda tem receio de participar deste tipo de negócio. A falta de conhecimento sobre a ferramenta e o medo de realizar transações na internet são alguns dos motivos da falta de adesão, segundo Monica Penido, pesquisadora da área.

“As pessoas tem medo de divulgar dados de cartão de crédito na internet, impossibilitando o apoio a projetos”, comenta. “O comportamento colaborativo parece ainda estar circunscrito ao círculo íntimo de cada apoiador de projetos.”

Carlos Lima, fundador da Social Beers, site de financiamento coletivo focado em cervejas artesanais, ressalta que muitos ainda estão tentando entender a lógica desse sistema. “Recebo mensagens de gente que não entende a proposta e de outros felizes por terem entendido”, diz. “O crowdfunding, depois de todos esses anos, ainda é uma novidade.”

Por aqui, a área de música é a que mais recebeu projetos até hoje (748), segundo levantamento do Catarse, seguida de cinema (698). O fato diferencia sites brasileiros dos americanos Kickstarter e IndieGoGo, que popularizaram o crowdfunding no mundo. Neles, projetos de inovação, anunciados por empreendedores ou grandes empresas são maioria. Mas a realidade no Brasil pode estar mudando. Um indício é o fato de o projeto com mais alto valor de apoio no Catarse ser inovador. Trata-se do Mola, um sistema de maquetes feito com molas e imãs, que arrecadou mais de R$ 600 mil.

Luisa Rodrigues, fundadora do site Benfeitoria, diz que até incentiva o uso de crowdfunding como “ferramenta para prototipar e pré-testar uma ideia” mas “as pessoas e as empresas ainda olham com desconfiança para o modelo”. “Dessa forma, vemos que se tornou muito mais uma ferramenta de apoio a causas.”

Apesar disso, o financiamento coletivo no País deve seguir crescendo, aposta Reeberg, do Catarse. “Os projetos não precisam de milhões de reais e milhares de pessoas. São comunidades, com 100 ou 200 pessoas, dispostas a financiar um projeto para tirar do papel. O crowdfunding preenche um papel que não tem ninguém para ocupar.”

Projeto quer regular o crowdfunding no Brasil
Na última semana, o deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ) protocolou na Câmara um projeto de lei (nº 2.862), que visa regulamentar a atuação de empresas de financiamento coletivo no País. O parlamentar espera garantir dedução de 10% no imposto de renda do valor investido por apoiadores. Em caso de projetos sociais, o benefício chegaria a 50% do valor.

“Hoje, o ambiente de crowdfunding está mais maduro. Regular, no Brasil, significa colocar amarras, mas nesse caso é preciso deixá-los o mais livre possível. Mas é justo e necessário que também existam incentivos para quem apoia os projetos que estão por lá”, disse.
Além disso, em um dos artigos, o texto aponta os autores de campanhas como os únicos responsáveis pela execução (ou não) dos projetos. A ideia é garantir que quando problemas – como a não entrega de recompensas ou a não realização de um projeto – surgirem, os apoiadores possam exigir judicialmente.

“As plataformas também tem que mediar, mas é licito que o apoiador que aportou recursos possa questionar judicialmente a inoperância do dono do projeto ou empreendedor”, disse.
Para a assessora técnica do Procon-SP, Fátima Lemos, a relação entre apoiadores e apoiados é de consumo e se um apoiador se sentir prejudicado, ele pode atualmente recorrer à justiça.
“Se ele está oferecendo uma recompensa em troca de apoio, ele pode ser chamado a cumprir com isso? Sim. É preciso avaliar caso a caso, mas eu não fecharia a porta do Procon para o consumidor que tivesse uma demanda dessa”, diz.

Quem passou por essa situação foi Alan Guedes, de São José dos Campos. Ele apoiou a produção de um livro de um autor iniciante, mas não recebeu sua recompensa prometida. “O autor não teve um bom planejamento na hora de enviar os livros. Até hoje, eu e outros apoiadores não recebemos nada.”

Lemos, do Procon, no entanto, questiona a responsabilização única do autor nesses casos. “Os sites podem dizer que o usuário não pode reclamar se não receber recompensa, mas é possível sim.” Ela compara os sites de crowdfunding ao Mercado Livre, que se colocava apenas como “anunciante”, mas logo passou a ser considerado corresponsável pelas ofertas de produtos que hospedava. “Para o Procon e do ponto de vista do Código de Defesa do Consumidor, site que faz essa intermediação tem responsabilidade.”

Guedes, que já apoiou outros sete projetos sem passar por qualquer problema, reclamou para a plataforma que anunciava o projeto. Ela, por sua vez, cobrou do autor da campanha.

“A ferramenta é ótima, mas por essas coisas tem gente que fica com um pé atrás em apoiar algo que você só verá e terá em mãos daqui uns meses”, diz. “É preciso que quem use essa opção de realizar seu projeto tenha em mente não sujar o prestígio que o crowdfunding tem conquistado.”

Fonte: Pequenas Empresas & Grande Negócios.

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