Tesourômetro: telão mostra cortes de orçamento em universidades e em pesquisa científica

Ação acontece em universidades do Rio, Brasília e Belo Horizonte

Diante da crise fiscal que afeta o funcionamento dos serviços públicos, universidades e organizações de pesquisa científica se uniram para criar o chamado “Tesourômetro”. O painel eletrônico mede, em tempo real, os cortes dos orçamentos das universidades públicas e na ciência e tecnologia. O valor, que é calculado desde 2015, chegou ao acumulado de R$ 12 bilhões e cresce em torno de R$ 500 mil por hora.

No Rio, o painel da campanha “Conhecimento sem Cortes” fica do campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Avenida Venscelau Braz. O país tem outros dois painéis: um em Brasília e o outro em Belo Horizonte.

— Queríamos fazer uma campanha de sensibilização da sociedade sobre esses cortes na ciência e tecnologia, nos comunicar melhor com a comunidade para além das formas mais tradicionais de luta como greve — explicou Tatiana Roque, presidente da ADUFRJ, a Associação dos Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma das organizações responsáveis pelo painel.

A UFRJ é uma das principais universidades afetadas pelas mudanças e sofreu grande redução orçamentária nos últimos anos. De acordo com Robert Leher, reitor da universidade, nos últimos 30 meses foram subtraídos R$ 157 milhões do orçamento da instituição. Em 2017, por exemplo, a redução foi de 6,7% em comparação com o ano anterior.

— Toda forma de resistência é importante e bem-vinda. Estamos em um contexto de maior engajamento em campanhas virtuais e de menor envolvimento nas lutas públicas. Muitas pessoas participam e se sentem exercendo a cidadania por meio virtual. É algo meritório, por certo, mas nada substitui a mobilização institucional e, principalmente, a presença da comunidade no espaço público — argumentou o reitor, sobre a campanha, ao citar a necessidade de ampliar o espaço de diálogo para interagir com setores para além dos círculos acadêmicos.

— Esses cortes acarretam prejuízos na pesquisa e no ensino. Afeta bolsas de graduação, mestrado e doutorado e até laboratórios. Essas são as verbas que impactam diretamente o funcionamento da pesquisa e também todos os alunos — disse Tatiana, reforçando que a redução orçamentária impacta diretamente a capacidade de muitos alunos, especialmente os que precisam do auxílio de permanência, de efetuarem suas pesquisas e formação.

O arrocho já afetou diversas partes da maior universidade federal do país. Como noticiado no GLOBO, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), que funciona no Fundão, corre riscos de fechar as portas por falta de repasses. Outras, já fecharam. Foi o caso do Laboratório de Pesquisa sobre Zika, montado no ano passado, e que alcançou resultados expressivos no estudo sobre a doença e sua relação com a microcefalia. Um programa conjunto de departamentos de pesquisa da UFRJ, ele foi desarticulado por falta de verba.

Os alunos também sentem os impactos em seu dia a dia, mesmo os que não estão inseridos diretamente na pesquisa. É o caso do aluno de Ciências Contábeis, Pedro Valério, que estuda no Campus da Praia Vermelha, onde está localizado o Tesourômetro.

— Sou bolsista, e tenho recebido minhas bolsas com atrasos de 10 a 15 dias, o que causa grandes transtornos. E tem gente ainda mais afetada, como quem recebe auxílio moradia, por exemplo — explicou o universitário, que diz que muitos dos estudantes criam redes e grupos de internet para ajudar os colegas que precisam de suas bolsas. Para ele, ações como o “Tesourômetro”, não mudam a situação, mas ajudam com o caráter informativo.

É o que acham também Dani Castro e Itamar Rangel, moradores da região próxima ao Campus da UFRJ. Para eles, a ação é informativa, mas não mobiliza a população.

— É preciso de mais mobilização e menos ativismo passivo — argumentou Itamar, que é estudante em outra instituição de ensino superior. Outra crítica recorrente entre os passantes do local é de que o painél é pouco visível para quem caminha nas ruas, o que dificulta a compreensão da mensagem a ser passada.

— O telão me dá agonia, porque me lembra do quanto estamos perdendo. E sinto os efeitos disso — comentou Igor Ramos, que é aluno da vizinha Unirio, no curso de Teoria do Teatro. Para ele, as reformas envolvendo ensina e pesquisa, principalmente a curricular do Ensino Médio, não parecem demonstrar resultados a médio e longo prazo e causam prejuízos no curto.

De acordo Ildeu Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (Sbpc) o cenário atual só se agrava desde 2013, ápice orçamentário para as áreas. Para ele, o “Tesourômetro”, parte da campanha concebida também pela Sbpc em parceria com outras instituições de pesquisa, é simbólico.

— Como falamos de corte, a tesoura representa isso. No nosso ponto de vista é muito pouco racional cortar investimento de áreas com capacidade de ajudar a superar a crise. É possível ver em outros países a importância da pesquisa na ciência e tecnlogia, inclusive para sair dessas recessões. Em médio prazo ela já reverte um valor muito maior. Queremos deixar isso claro para a sociedade — argumentou.

E, segundo Ildeu, a presença da campanha no Rio de Janeiro é reflexo da situação do estado, um dos mais afetados pelos cortes por conta da sua grande densidade de pesquisa.

Para tentar reverter o quadro, a próxima ação da “Conhecimentos sem Cortes” será uma plenária pública no Congresso, nos dias 8 e 9 de outubro. O objetivo é tentar recuperar parte dos recursos contigenciados pelo orçamento atual, e garantir que não haja ainda mais cortes no ano que vem.

Se não houver mudanças, a previsão é de que o orçamento chegue a R$ 3,3 bilhões em 2018, uma redução considerável se comparado aos R$ 5 bilhões desse ano, e quase um terço dos R$ 10 bilhões de 2010.

— Um exemplo de efeito é o Cnpq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que é fundamental, e ainda está precisando de recursos para fechar o ano. Vamos tentar essa liberação. Se o novo orçamento for aprovado, os números vão ser piores, dramáticos. O Cnpq só teria dinheiro para funcionar até o meio do ano — disse Ildeu.

Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), disse que “destaca o papel da pesquisa científica, imprescindível para o desenvolvimento econômico e social de qualquer país, como demonstra a história. O órgão reconhece e respeita a livre manifestação da comunidade acadêmica e científica neste sentido”.

Além disso, que o ministério “trabalha pela recomposição orçamentária”, buscando com os Ministérios da Fazenda e do Planejamento o descontigenciamento de recursos. Os planos são de “prioridade” para os institutos do órgão (16 unidades de pesquisa e as 6 organizações sociais).

Fonte: “O Globo”

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