Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Universidades estaduais do Rio ficam sem verba para manutenção

Atingido em cheio pela crise financeira, o ensino superior do estado está hoje em situação de total penúria. Se na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) o fantasma de uma nova greve de professores ronda os corredores, onde a limpeza há tempos deixa a desejar, na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) a falta de verba para manutenção ameaça o funcionamento da instituição, em Campos. O reitor Luis Passoni diz que ela corre o risco de, a qualquer momento, ter suas atividades acadêmicas paralisadas por falta de condições de segurança e higiene. Há um ano a Uenf não recebe dinheiro para manutenção, cujo custo chega a R$ 3 milhões por mês. Lá, servidores são obrigados a levar de casa até papel higiênico e compram material de limpeza. Um esforço coletivo para que o campus não feche os portões para 3.750 alunos de graduação e pós-graduação, sem contar outros 2.250 de ensino à distância.

Na Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo), com 1.831 alunos, o quadro não é melhor: diante da falta de recursos e sem serviço de limpeza, o ano letivo só começou dia 12 de setembro, quando professores, servidores e alunos arregaçaram as mangas e fizeram uma faxina em corredores, salas e laboratórios. Assim como ocorre na Uenf, faz um ano que a Uezo não recebe um centavo do governo para manutenção. Ontem, Passoni esteve com o governador em exercício Francisco Dornelles e, de acordo com ele, houve a promessa de repasse a partir do dia 15. A dívida da universidade com as empresas de vigilância e limpeza chega a R$ 15 milhões. No primeiro semestre, a Uenf recebeu a doação de R$ 1,5 milhão da Assembleia Legislativa (Alerj), mas o valor não foi suficiente para tirar a instituição do atoleiro.

Funcionamento está no limite

Hoje, apenas três dos dez postos de segurança da unidade, em Campos, estão em operação. A firma ameaça se retirar totalmente. No caso da limpeza, a empresa, mesmo sem receber, mantém os 200 terceirizados, que estão sem auxílio para alimentação e transporte. Eles usam no trabalho apenas produtos comprados pelos servidores da Uenf.

— Estamos no limite da nossa capacidade. A qualquer momento ficaremos sem condições de funcionar — afirma o reitor, classificando de gravíssima a situação da Uenf. — Diante da crise do estado, seguramos tudo o que era possível. Estamos deixando de comprar itens como papel e tinta para impressoras. E os prédios estão se deteriorando. Hoje (ontem) caiu uma chuva em Campos e a nossa casa de cultura, que funciona num prédio histórico de 1930 cheio de infiltrações, está com dois centímetros de água sobre o assoalho de madeira. Com certeza exigirá um esforço grande de recuperação para que o prejuízo não seja maior.

Thiago Venancio, professor na área de bioquímica da Uenf, diz que a falta de recursos prejudica pesquisas:

— Trabalhos estão ameaçados porque não há recurso para pagar o fornecimento regular de nitrogênio líquido e gases. Além disso, há vários projetos sem verba da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), também em crise. Tenho vários projetos aprovados, alguns do ano passado, sem recursos liberados. Um deles, por exemplo, envolve o estudo de genomas de bactérias multirresistentes isoladas de pacientes internados em hospitais.

Na veterinária, área em que a Uenf é referência, pesquisadores vivem o drama de ter que doar emas, emus e avestruzes que contribuíam para pesquisas sobre as espécies. Falta verba para a compra de ração, que custa R$ 3 mil por mês. O último repasse foi em março, sendo que o fornecedor não recebia desde outubro do ano passado. Sem dinheiro, pesquisadores fizeram uma “vaquinha” online e conseguiram arrecadar cerca de R$ 3 mil e algumas doações. Mas não foi suficiente. Hoje restam 30 dos 88 animais. O que ficou, no entanto, será doado até novembro, quando a pesquisa será desmontada de vez.

— Infelizmente, com muita dor no coração, a pesquisa será encerrada. Nosso estoque de ração acabou em abril, e, no começo de maio, eu e outra professora começamos a comprar com dinheiro nosso — conta a pesquisadora Adriana Jardim de Almeida.

Na Uerj, 170 dias sem aula

Apesar de a Uerj ter sete servidores administrativos por aluno, além de 2.900 professores, a universidade não consegue manter o ritmo das aulas. Este ano, uma greve deixou estudantes 170 dias fora das salas, e o fantasma da paralisação ainda ronda a instituição. Ontem, docentes fizeram uma assembleia na qual discutiram a falta da verba de manutenção para serviços essenciais. O estado ainda não repassou nenhuma das cinco parcelas de R$ 10 milhões, que começaria a depositar em agosto.

— Em novembro, a Uerj corre o risco de ficar abandonada mais uma vez — alertou a presidente da Associação de Docentes da Uerj (Asduerj), Lia Rocha.

A Uezo também recebeu em abril, da Alerj, R$ 1,5 milhão. O dinheiro deu certo fôlego, mas a preocupação é grande em relação ao próximo ano. O orçamento aprovado para 2017 é de R$ 480 mil, sendo que, segundo o vice-reitor, João Bosco de Salles, são necessários, no mínimo, R$ 3 milhões para o funcionamento da instituição. Professores e alunos têm feito “vaquinhas” para pagar a uma faxineira.

— Com a crise do estado, professores saem da universidade por medo de não receberem, e alunos não sabem se terão aulas. Vivemos a incerteza, mas sempre temos esperanças de melhorias. Tanto que alunos e professores estão pegando vassouras para fazer a limpeza — desabafou a professora Cristiane Pimentel.

Risco de a Uezo parar é real

— Estamos correndo atrás de recursos, emendas parlamentares, para que as atividades não sejam paralisadas em janeiro — disse o vice-reitor.

Desde o ano passado, não há dinheiro para conserto de elevadores e aluguel de carros. O número de motoristas dos ônibus que levam parte dos alunos para o campus improvisado no Instituto de Educação Sarah Kubitschek, em Campo Grande, caiu de 12 para três. A Uezo não consegue mais pagar as empresas terceirizadas e aos fornecedores. Em três anos, o número de docentes passou de 140 para 100. Há 15 que passaram em concurso, mas não há dinheiro para a contratação. Sem professor, 50 turmas não foram abertas este semestre.

A Secretaria estadual da Fazenda informou que não há repasses previstos para as instituições.

Fonte: “O Globo”.

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