Violência faz bairros da Zona Sul do Rio investirem em projetos privados de vigilância

Moradores do Leblon, Jardim Botânico, Urca e Botafogo se mobilizam para montar centrais de monitoramento em batalhões da PM

Em terra onde os roubos de rua aumentaram 96% — numa comparação de janeiro a agosto deste ano com o mesmo período de 2016 —, quem tem olho eletrônico é rei. Pensando assim e seguindo o exemplo da região da Barra, lideranças comunitárias de Botafogo, da Urca e do Jardim Botânico estão se mobilizando para montar centrais de monitoramento em batalhões da PM. E a Associação de Moradores e Amigos (AMA) do Leblon enxerga mais longe: além de um sistema de câmeras, planeja implantar, em dezembro, uma versão local do projeto Segurança Presente, nos moldes do existente na Lapa, na Lagoa, no Aterro do Flamengo, no Méier e no Centro. Nesses bairros, as operações contam com o apoio financeiro da Fecomércio-RJ.

— Empresas, bancos, shoppings e supermercados serão procurados para ajudar o bairro a ganhar o projeto, que deverá custar R$ 10 milhões por ano. A situação ficou muito séria, o número de assaltos vem aumentando, bandidos armados estão roubando à luz do dia devido à certeza da impunidade. Não vamos esperar ajuda da indústria, e, diante da falta de recursos do governo do estado, não podemos ficar parados — afirmou Evelyn Rosenzweig, presidente da AMA-Leblon.

Procurado pelo “Globo” para comentar a iniciativa, o governador Luiz Fernando Pezão disse, por meio de uma mensagem enviada por celular, que conheceu o projeto da AMA-Leblon e que é favorável à sua implantação.

UM NOVO SEGURANÇA PRESENTE

Segundo Evelyn, o projeto para o bairro foi elaborado em parceria com a Secretaria estadual de Governo, responsável pela criação do programa Segurança Presente. A intenção, informou ela, é contratar 124 policiais da ativa para fazer, em horários de folga, patrulhamento a pé, de bicicleta e de carro no Leblon. Paralelamente, deverão ser instaladas 95 câmeras em pontos estratégicos.

— As imagens das câmeras vão diretamente para o 23º BPM (Leblon), a Secretaria estadual de Segurança e o Centro de Operações Rio, da prefeitura. Queremos otimizar a resposta da polícia. Também teremos duas torres móveis com câmeras que filmam em 360 graus. Esses equipamentos foram doadas por uma empresa — destacou a presidente da AMA-Leblon.

A Associação de Moradores e Amigos do Jardim Botânico também se movimenta: planeja instalar nas ruas do bairro 208 câmeras de alta resolução com cabeamento em fibra ótica. Os equipamentos deverão ser fornecidos pela ONG Viver Bem, responsável pela instalação de um sistema semelhante em Niterói que, segundo o Instituto de Segurança Pública, ajudou a reduzir os índices de oito tipos de crimes na cidade. O custo estimado para a montagem do circuito é de R$ 450 mil, e os gastos com a manutenção deverão girar em torno de R$ 25 mil por mês. A ideia também é contar com a ajuda de empresas locais.

— Queremos colocar uma central de monitoramento no 23º BPM (Leblon), que atua em nosso bairro, e pagar os salários de pessoas especializadas em vigilância eletrônica. Elas poderão ajudar muito os policiais militares — disse Heitor Wegmann, presidente da AMA-Jardim Botânico.

— Chegamos à fase de apresentação do projeto aos síndicos. É um trabalho de formiguinha. O ideal seria que a prefeitura e o governo do estado bancassem a iniciativa. É lamentável que tenhamos de apelar para um sistema de segurança privada, porém o povo não aguenta mais ver tanta violência — desabafou Regina.

A Urca deverá se beneficiar da mesma cabine implantada no 2º BPM. A presidente da associação de moradores do bairro, Celi Paradela, disse que vem discutindo com comerciantes e outros líderes comunitários os melhores locais para a instalação de câmeras.

— Será algo bom para todo mundo. As imagens geradas ficarão arquivadas, e poderão ser usadas como provas em situações de delito — pontuou Celi.

A presidente da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese), Selma Migliori, calcula que o município do Rio tem hoje cerca de um milhão de câmeras — o que representa um aumento de 30% em relação à quantidade estimada em 2013.

PM APROVA, ESPECIALISTAS SE DIVIDEM

O coordenador de comunicação social da Polícia Militar, major Ivan Blaz, afirmou que “a iniciativa popular é fundamental para os órgãos de segurança pública, sobretudo neste momento de escassez de recursos”:

— Não temos qualquer constrangimento de receber esse tipo de apoio — destacou o oficial, acrescentando que a PM perde, por ano, cerca de 1.100 homens, um déficit que não vem sendo coberto porque concursos para a corporação estão suspensos.

A iniciativa das associações de moradores divide opiniões entre especialistas em segurança pública. O sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, não vê problema na mobilização; já a socióloga Maria Isabel Couto acha que pode estar sendo criada uma brecha para uma política de justiçamento.

— O estado tem a obrigação de prover a segurança pública, mas como isso não está acontecendo, entendo os grupos que buscam soluções. Isso é válido desde que não haja transferência de recursos públicos — opinou Cano.

Maria Isabel, no entanto, manifestou preocupação:

— Uma parte da sociedade paga a policiais por segurança; uma outra, não. Quem paga quer exigir mais, e isso pode incentivar a volta do conceito de justiçamento. Em tese, o poder público deve garantir uma segurança igualitária. O estado não vem enxergando seu papel.

Fonte: “O Globo”

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