Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Devo esperar a economia voltar a crescer para empreender?

Por Sergio Bertucci*

Algumas pessoas tem me perguntado se neste momento de crise seria interessante abrir uma empresa ou deveriam esperar até a economia voltar a crescer? Logicamente que em um país em crise as vendas caem, o dinheiro em circulação some, a inadimplência sobe, os juros aumentam, mas também surgem oportunidades.

Na Segunda Guerra Mundial surgiu a famosa frase “enquanto uns choram outros fabricam lenço”, teve case de confecção que foi confiscada para produzir os uniformes para os soldados americanos e quando a guerra terminou, o proprietário já tinha toda a mão de obra formada e treinada. Foi a grande explosão do negócio logo após a Segunda Guerra.

Acredito que se você estiver preparado, conhecer muito bem do negócio que irá montar, já trabalhou no negócio como funcionário tendo uma visão de dono, tem noção mesmo que seja básica de todos os departamentos da empresa que terá que administrar, não vejo problema em abrir o seu negócio na crise. A sugestão que faço é que terá que trabalhar mais do que o normal, comparado com um país em crescimento com economia aquecida.

Sugestão: não invista todo o seu dinheiro. Separe uma parte caso não de certo.

Vou aproveitar para fazer uma analogia do resultado de uma má administração. Ela pode não só quebrar uma empresa como também um país. Exatamente o momento que estamos vivendo com o nosso governo atual. Eles não tinham experiência nenhuma em administrar um município, um estado e muito menos um país. No que deu tudo isso? Eles quebraram o país! Muito engraçado mais estamos tendo mais um caso de mistura da pessoa física com a pessoa jurídica. O que é da empresa é da empresa e o que é do país é do país, não pode misturar com a pessoa física!

Estou no ramo de confecção há quase 20 anos, já passei por várias crises no mercado nacional e internacional. Estou vendo várias confecções fechando, algumas estão quebrando, outras pedindo recuperação judicial, mas pela primeira vez estou vendo empresas que estão fechando as portas simplesmente para não perderem o patrimônio construído durante os anos de trabalho. Estão pagando os funcionários e os fornecedores e encerrando as atividades.

Alguns que têm condições, inclusive, estão saindo do país. Tem um lado que é uma grande pena, mas ao mesmo tempo quem conseguir sobreviver a crise terá uma grande oportunidade. Existirão menos concorrentes quando a economia voltar a crescer, além do aprendizado de apertar os cintos em um momento de crise.

Quem implantou o Orçamento Base Zero (OBZ) neste momento consegue ver quanto dinheiro era jogado no lixo somente pela falta de análise dos pequenos detalhes.

Eu sei que estou remando contra a posição do governo em facilitar a abertura de empresas, mas o meu objetivo é poder colaborar em virar este jogo e fazer com que o Brasil possa ser um país capacitado a ajudar os empreendedores que estiverem dispostos a gerar mais empregos na sociedade, aumentar o PIB com a construção de empresas estruturadas, capacitadas e solidas.

A Global Entrepreneurship Monitor (GEM), em 2010, fez um estudo sobre educação empreendedora e apenas 9% da população adulta brasileira havia recebido treinamento sobre como iniciar um negócio, refletindo uma das piores taxas do mundo.

No Chile, por exemplo, essa proporção é de 43% e, na Argentina, 20%. Na União Europeia, 13 países já incluem educação empreendedora na estratégia nacional de ensino. Metade dos países da União Europeia estão reformando seus sistemas de ensino para inserir educação empreendedora. E no Brasil, o que está sendo feito?

Levantei uma pesquisa do Sebrae feita em 2014 com 1.829 empresários apresentando a falta de informações dos empreendedores sobre o mercado:

– 61% não procuraram ajuda de pessoas ou instituições para abertura do negócio

– 55% não elaboraram um plano de negócios

– 42% não calcularam o nível de vendas para cobrir custos e gerar o lucro pretendido

-39% não sabiam qual era o capital de giro necessário para abrir o negócio

-38% não sabiam o número de concorrentes que teriam

-33% não tinham informações sobre fornecedores

-32% não conheciam os aspectos legais do negócio

-31% não sabiam o investimento necessário para o negócio

-21% não identificaram o público-alvo do negócio

Resolvi pegar um exemplo de falta de administração no tipo de negócio que mais se abre no Brasil hoje que é o salão de beleza. De acordo com a Associação Nacional do Comércio de Artigos de Higiene Pessoal e Beleza (Anabel), entre 2005 e 2010, o número de estabelecimentos de beleza no Brasil cresceu em torno de 78%, subindo de 309 mil para 550 mil formais, incluindo os informais esse número é acima de 1 milhão de salões.

O que deve ser feito para se abrir um salão? Passo numero 1,o futuro empreendedor faz um curso de cabeleireiro por aproximadamente 6 meses para abrir o seu salão. No curso normalmente está incluso aulas de administração que infelizmente devem ser muito superficiais. A falta de preparo para visualizar a empresa como um todo, da gestão ao atendimento, acaba causando transtornos em diversos setores da empresa. No caso de salões de beleza, seguem os principais problemas de administração de acordo com a revista Cabelo & Cia:

-Falta de conhecimento: caso clássico da(o) cabeleireira(o) que sai de um salão, recebe a indenização e resolve abrir o seu próprio. Habilidades na tesoura não garantem sucesso na administração do salão.

-Ver o negócio como um hobby: abrir o salão e não estar presente no dia a dia é um grande passo para o fracasso do negócio. Os desvios são muito fáceis de ocorrer. Tem que estar diariamente no negócio, conhecendo as clientes, ajudando o time a dar um ótimo atendimento.

-Locação cara e ponto ruim: tem que tomar muito cuidado com o valor do aluguel perante o faturamento, tentar não passar dos 10%. Qualidade, localidade e estrutura do salão tem que ser muito bem adequada ao público-alvo, pontos que podem ajudar a gerar uma fidelização dos clientes.

-Má gestão de estoque: uma processo de compra errada faz com que você tire dinheiro do seu fluxo de caixa e fique empatado no estoque, vai embora a liquidez da empresa.

-Falta de capital de giro: devido ao tempo de retorno do investimento médio ser de 18 – 36 meses, você precisa fazer uma reserva de capital quando for abrir o negócio, tomar muito cuidado com a formação de preço errada, às vezes vai achar que está ganhando e não está.

-Descontrole das despesas: falta de consciência do custo fixo e variável, a falta de controle e informatização dos serviços do dia a dia, gastar mais do que esta ganhando ou faturando.

-Informalidade: a informalidade deixa o negócio vulnerável a processos trabalhistas, a falta de processos e controles pode fazer com que funcionários se tornem revolucionários na empresa.

Quanto mais informações e treinamentos tivermos, mais chances e probabilidades de sucesso teremos! Já tive problema com alguns itens acima como “Má gestão do estoque”. Tudo que eu produzia eu vendia quando comecei a grife de moda que tive. Peguei um inverno como este que começou fazendo frio e de repente 30º graus. O frio acabou e eu lotado de mercadoria de inverno com inúmeras duplicatas de fornecedores para pagar. Tive que vender o lote inteiro por ¼ do preço do que iria vender, pensando que metade era custo, não tive lucro algum e ainda tive que tirar do bolso para honrar com os fornecedores. Lições da vida, na outra estação preferi faltar mercadoria do que sobrar.

*Sergio Bertucci: MBA na vida de empreendedor com muitos acertos e erros; já são 20 anos, quase quebrei 2 vezes, uma por falta de pedido e outra por um pedido muito grande. Sócio-fundador da Star Think Uniforms, membro Internacional da Endeavor.

Fonte: Estadão PME, 4/8/2015

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