Maravilhas da cultura política brasileira

"Se me pedissem para apontar a ideia mais idiota de nossa (in) cultura política, eu diria sem pestanejar: o horror ao liberalismo"

Se me pedissem para apontar a ideia mais idiota de nossa (in) cultura política, eu diria sem pestanejar: o horror ao liberalismo. No Brasil, mesmo entre as elites cultas, uma quantidade de gente tem urticária só de ouvir a palavra. “Neoliberalismo” então, Deus me livre.

Esforcemo-nos por entender o conceito.

Em todas as suas variantes, o básico da doutrina liberal é a valorização do indivíduo, de sua autonomia física e moral, e de seu direito de escolher. No aspecto econômico, o liberalismo valoriza o lucro, legitima o enriquecimento, estimula o empreendedorismo e aprova o capitalismo, ressalvando certos papéis que o Estado deve desempenhar. Do ponto de vista político, o liberalismo tem como correlato a democracia política, que por sua vez implica uma pluralidade de partidos, o direito de votar e ser votado em eleições periódicas, limpas e livres, e o pleno acesso à informação, sem o qual o direito de votar perde o sentido.

Entenda o liberalismo em 5 pontos

Suponhamos que você, leitor, é um antiliberal empedernido. Considerando certas alternativas — por exemplo, quem quer como amigos, fazer ou não fazer uma viagem — você prefere tomar logo suas decisões sem dar satisfação a ninguém, ou acha que o Estado deve manter uma agência especializada em aconselhar os indivíduos?

Você ganha cem milhões na Mega Sena. Sei que você não joga, mas suponhamos, só para argumentar. De uma hora para a outra, você ficou rico, mas reprova o enriquecimento. Como vai se livrar dessa grana toda? A duras penas, depois de meditar muito, você resolve montar uma empresa? Mas, e o lucro? Você o aceita com naturalidade ou aceita só o suficiente para pagar os salários e cobrir os demais custos?

Quer saber mais sobre o liberalismo? Aprenda com Gustavo Franco, João Mauad, Paulo R. de Almeida e outros

Na política, você aceita a democracia — ditadura, afinal, já é demais. A extinta URSS e os países do Leste também reconheciam o direito de voto, mas, com o sistema de partido único, o resultado era sempre 99,9% a favor do Partido Comunista. O acesso à informação era também assegurado com notável rigor. No dia 26 de abril de 1985, o acidente na usina de Chernobyll, na Ucrania liberou na atmosfera uma radioatividade cem vezes maior que a de Hiroshima e Nagasaki somadas. Mas o povo soviético ficou sabendo de tudo. Quatro dias depois a informação apareceu em todos os jornais.

Fonte: revista “Istoé”

RELACIONADOS

Deixe um comentário