“Mulheres que compram cabras”

Quando eu era jovem, meu (então) sogro costumava citar um ditado húngaro, se achasse que eu estava “inventando moda”. A tradução era algo como: “quando tudo vai bem, a mulher compra uma cabra”. Tínhamos ótima relação, e ele apenas estava se expressando dentro de uma ótica masculina conservadora, comum naquele tempo, a respeito das atitudes “adequadas” a uma mulher. Eu não estava fazendo nada de realmente extraordinário. Afinal, como eu, milhares de pessoas compareciam às manifestações na Praça da Sé, em São Paulo, a favor de eleições livres (a campanha “diretas-já”), numa fase em que quase toda a sociedade civil já era contrária à ditadura militar.

Mas há vários exemplos contundentes de mulheres que efetivamente compram não uma cabra, mas um rebanho inteiro. Uma delas é a dissidente cubana Yoani Sánchez, que esteve recentemente em visita ao Brasil. É incrível como uma mulher, à primeira vista frágil, tem conseguido incomodar tanto os dirigentes da ditadura cubana. Há que reconhecer a amplificação da visibilidade que o embaixador cubano no Brasil e alguns xiitas brasileiros lhe deram, ao impedir os pacíficos pronunciamentos de Yoani, durante a exibição de um documentário e do lançamento de um livro.

Usando como armas um blog, um computador jurássico e conexão que faz a rede brasileira de Internet parecer ultramoderna, Yoani tem contribuído para desfazer o antigo maniqueísmo nos moldes da guerra fria, ao pontuar que é contra a falta de liberdade do povo cubano, tanto quanto é contra o embargo comercial ao seu país. Não se trata mais da antiga divisão ideológica – quase religiosa – que pretende separar o mundo entre o bem e o mal, burguesia e proletariado -, mas de reconhecer a complexidade das relações econômicas e sociais. Seja como for, o divisor de águas é outro: dispor ou não da imprescindível liberdade de expressão, para que seja reconhecida a óbvia diversidade de pensamento que existe em qualquer sociedade, em qualquer parte do mundo. Liberdade que deve incluir os protestos de quem discorda de Yoani, mas que não pode prescindir do sagrado direito da blogueira de ser civilizadamente ouvida.

Yoani tem contribuído para desfazer o antigo maniqueísmo nos moldes da guerra fria, ao pontuar que é contra a falta de liberdade do povo cubano, tanto quanto é contra o embargo comercial ao seu país

No livro “Nossos anos verde-oliva”, recentemente lançado no Brasil, o chileno Roberto Ampuero descreve sua experiência política em Cuba, com um didatismo ímpar. Na juventude, nos anos 70, Ampuero era, como tantos, um jovem comunista empenhado na defesa do governo chileno de Salvador Allende. Após o golpe militar, liderado por Augusto Pinochet, Ampuero deixou um cenário de terror e intolerância, durante o qual muitos – os que se opuseram à ausência de democracia, os que ousavam expor ideias divergentes – foram torturados e mortos. Mas, em busca de um paraíso igualitário, foi para Cuba e deparou com cenário similar: o pensamento único imposto por Fidel e seu grupo, e a punição ou a morte daqueles que mostrassem qualquer tipo de discordância em relação às regras estatais. Em palavras de Ampuero: “Não há nada que se pareça mais com uma ditadura de direita do que uma ditadura de esquerda, não há nada mais parecido com o fascismo do que o comunismo, nada mais parecido com o hitlerismo do que o stalinismo. Para o cidadão comum, as ditaduras são todas iguais. Para aquele que aguarda o interrogatório em uma célula da segurança do Estado, dá na mesma se seu torturador é de esquerda ou de direita, se é religioso ou ateu, se acredita no comunismo ou na segurança nacional, se leva no cinto uma Kalashnikov ou uma Luger, se foi formado na antiga Bucareste ou em uma sala de aula da antiga Escola das Américas do Panamá”.

Mas talvez a mais precoce das mulheres a comprar cabras seja a paquistanesa Malala Yousafzai que, aos 14 anos, foi atacada por extremistas do Talibã por desejar algo realmente revolucionário: estudar. Malala foi alvejada por tiros quando voltava da escola, de ônibus. Antes, aos 11 anos, ela havia publicado na internet, sob pseudônimo, os problemas das meninas que queriam estudar, já que o Talibã havia fechado as escolas para meninas.

Nas últimas décadas, o mundo tem mudado muito, a favor das mulheres – e de toda a sociedade, apesar de todas as dificuldades que muitas ainda enfrentam. No geral, com a maior independência feminina, mudou também a configuração hierárquica familiar, antes centrada no provedor masculino. Consequentemente, os filhos tornam-se cada vez mais as prioridades da família. Programas públicos de distribuição de renda reconhecem este fenômeno, conferindo à mulher o papel decisor na alocação dos recursos da família. No Brasil de hoje, cerca de 20 milhões de famílias são lideradas por mulheres. Essa é uma verdadeira revolução social e política. Quanto mais mulheres comprarem cabras, mais igualdade teremos, e o mundo também terá mais chances de ser melhor, com maior liberdade de expressão.

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