“Não há uma cultura que induza a mulher para a política”

Maria Lucia Victor Barbosa (nova)

O Brasil é um país de baixa participação feminina na esfera política, embora tenhamos uma mulher como presidente da República. Em 2013, de acordo com dados da União Interparlamentar da Organização das Nações Unidas, entre 188 países avaliados, em termos de presença feminina no Parlamento, ocupamos a 156ª posição. A situação também é bastante desfavorável ao país em termos continentais: dos 34 países americanos, o Brasil aparece na 30ª colocação.

Em entrevista para o Instituto Millenium, a socióloga e cientista política Maria Lucia Victor Barbosa analisa os aspectos históricos que ajudam a explicar a pequena presença das mulheres nos poderes Executivo e Legislativo. De acordo com a autora de “América Latina – Em busca do paraíso perdido” (Editora Saraiva, 1995), o eleitor brasileiro ainda resiste a votar nas mulheres. Dilma Rousseff, por exemplo, foi eleita não por sua própria trajetória, mas por ter sido escolhida por um homem extremamente popular para dar continuidade ao seu projeto político.

“O mundo já teve grandes governantes, como Indira Gandhi e Margaret Thatcher. Essas sim foram grandes por elas mesmas”, compara.

Instituto Millenium: Por que a participação feminina na política é tão tímida no Brasil?

Maria Lucia: Os aspectos históricos ainda ecoam. Se recuarmos ao período colonial, o casamento se configurava como a única carreira aberta à mulher, que casava cedo e com um marido não escolhido por ela. As mulheres de classe social mais alta raramente saíam às ruas e quando isso acontecia era para ir à igreja, e jamais sozinhas. Em casa, viam o mundo pela janela de treliça e quando as visitas chegavam lhes era ordenado que se retirassem da sala. Sempre houve uma moral dupla, uma para o homem, outra para a mulher. Essa formação pesou bastante.

Na segunda metade do século XIX, com o processo de urbanização das cidades, surgiram algumas oportunidades para as mulheres. Aos poucos, elas passaram a trabalhar em fábricas, lojas e escritórios. Mas não participavam da política. Isso lhes era vedado, inclusive o direito ao voto. Foi a Constituinte de 1934, cujo projeto foi elaborado com a colaboração de duas mulheres notáveis, Carlota Pereira de Queirós e Bertha Lutz, que conseguiram consagrar, definitivamente, no Artigo 108, o voto feminino. Depois disso, lentamente, a mulher brasileira foi assumindo posições antes reservadas ao homem. Hoje, com as dificuldades ainda existentes, cujas origens vêm lá de trás, a gente nota que são pouco numerosas as mulheres que se tornam vereadoras, deputadas, senadoras, prefeitas, ministras, presidente da República…

Imil: Além de investir em educação de qualidade, existe alguma forma de favorecer a igualdade de participação da mulher na política?

Maria Lucia: Acho que por meio da educação é possível promover uma discussão mais ampla sobre o Brasil, seus problemas e desafios. Ninguém tem essa noção. Participa-se na hora da eleição, votando como quem aposta em uma corrida de cavalo. De um modo geral, o nível é muito baixo. É preciso despertar na nova geração o interesse por esse futuro que nunca chega. A não educação é um problema geral no Brasil. Falta, tanto ao homem quanto à mulher, uma cultura cívica. Só que esse problema recai mais sobre ela, por conta dessa ausência histórica na política. As pessoas votam não a partir da trajetória do candidato, do seu programa político, mas de forma emocional. Enquanto o candidato é racional para chegar ao poder, a massa, os eleitores reagem de forma muito emocional. No caso das mulheres, é preciso cultura cívica e uma visão política mais consistente. A meu ver, tudo vem de um problema cultural – e não estou falando da cultura no sentido de formação escolar, mas de um complexo de comportamento, atitudes e valores.

Imil: Na opinião da senhora, no Brasil, as mulheres ainda precisam do apoio masculino para chegar ao poder.

Maria Lucia: Exato. No Brasil, temos a Dilma como presidente, mas ela foi escolhida por um homem. A eleição dela não foi consequência de uma projeção pessoal. O Lula a escolheu. Ela governa à sombra de um homem e isso é bastante nítido. Ela não dá um passo sem discutir uma ideia, fazer uma reunião etc. Falta um caminho para a mulher chegar à política. É um problema cultural brasileiro, de sua formação, por causa do voto tardio, da sociedade e do estado paternalista. Embora a mulher assuma vários papéis na sociedade, antes só permitidos aos homens, na política ela não se destaca. Às vezes, votam na mulher porque ela é íntegra, trabalhadeira. Mas tanto o homem quanto a mulher devem ser éticos, competentes e devem exercer o cargo com vistas ao bem comum.

Imil: A presidente Dilma herdou a popularidade do Lula?

Maria Lucia: Não, ela não herdou. Ela é projeção dele. Ela não tem o jeito do Lula de se apresentar às massas. Ela age como parte de uma estratégia, que não foi criada por ela. É tudo arquitetado. Os bastidores do poder, que são secretos para a imensa maioria, são uma estratégia de marketing. Então, o que ela faz? Ela conversa com o Lula, ele diz como fazer. Ela vai às cidades menores e distribui tratores, máquinas, inaugura obras que não estão prontas. E se dirige aos mais simples, a imensa maioria dos que escolhem vereadores, presidente da República… Esse é o grande potencial eleitoral. Eles têm um discurso sem ideologia, uns falam em direita outros em esquerda, mas se trata de um discurso populista. São todos salvadores dos pobres, que, por sua vez, se aproveitam nesta hora, mas votam em quem o coração mandar. Mas a Dilma não conquista esse coração.

Imil: Qual é a sua análise sobre a lei de cotas de gênero para os partidos políticos?

Maria Lucia: Sou absolutamente contra as cotas, um atestado de incompetência da mulher. Elas têm que conquistar o espaço por elas mesmas, por vocação política, por competência. Cota é uma esmola oficial. Sou contra todo tipo de cota. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, não precisou de cota para marcar a história do Brasil com sua presença e assim também as mulheres não precisam. Se existe muito machismo, que se lute contra, mostrando competência. É possível. As mulheres na política ainda têm muito a caminhar. O Brasil tem que passar por muitas transformações. Ainda prevalece no país aquilo que Simone de Beauvoir falava: “Os homens trocam ideias, as mulheres trocam receitas e coincidências”.

RELACIONADOS

Deixe um comentário