“Ainda não estamos no auge da crise”, afirma Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do FMI

Raghuran Rajan

Raghuram Rajan afirma que a situação se agravará caso a crise da dívida soberana se alastre pela Europa e a alerta para os riscos do crédito fácil e da atuação do BNDES no Brasil

Em 2005, o indiano Raghuram Rajan, então economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, alertou os maiores bancos centrais do mundo sobre o fato de que algo estava errado com a economia global: ele foi um dos poucos a prever a crise financeira, que assolaria nações ricas e pobres em 2008. Agora, três anos depois da quebra do Lehman Brothers, o mundo desenvolvido ainda patina. A crise acentuou a divisão no Congresso americano. A maior economia do mundo foi quase levada, por interesses políticos, a um calote. O acordo de última hora entre republicanos e democratas não salvou o país de perder a nota máxima de crédito. Na Europa, a possibilidade de a crise da dívida soberana se alastrar para economias maiores, como a Itália e a Espanha, mantém os mercados à beira de um colapso nervoso.

Mas o pior ainda pode estar por vir, afirma Rajan. O economista avalia que uma crise propriamente dita ainda não se instalou. O professor da Universidade de Chicago defende, em seu livro “Fault Lines”, lançado em 2010 (ainda sem versão em português), que, se as autoridades responsáveis não atentarem para fraturas econômicas mal percebidas, uma crise muito mais devastadora virá. E o recado serve também ao Brasil. “Nenhum país está imune. Especialmente o Brasil, que tem recebido enormes fluxos de capital”, afirma Rajan, em entrevista ao site da “Veja”.

Veja – O senhor defende, em seu livro Fault Lines, que não deveríamos culpar apenas os banqueiros gananciosos ou os políticos negligentes pela crise que se desvelou em 2008, mas também outras fraturas na economia, escondidas, embora muito disseminadas. Quais são as fraturas as quais as autoridades brasileiras não estão atentas? O que pode enfraquecer o poder do Brasil de resistir à crise?
Raghuram Rajan – Nós não estamos auge da crise ainda. Chegaremos lá se os empréstimos interbancários cessarem e os problemas começarem a transbordar para economias maiores da Europa. Por enquanto, estamos vivenciando uma onda de pânico. O que temos até agora é uma volatilidade intensa nas bolsas. Alguns bancos na Europa estão com medo de conceder empréstimos a outros bancos, mas isso não se espalhou ainda. Se o problema ficar contido na Grécia, na Irlanda e em Portugal, é fácil de administrar. Mas, se a crise se expandir para a Itália, para a Espanha, ou até para a França, a situação vai começar a ficar feia.

Ainda estamos longe desse ponto. Mas nenhum país está imune porque o sistema financeiro é todo integrado. O Brasil tem algumas fontes de preocupação. O país conta com enorme fluxo de capital. Em função disso, a moeda brasileira se valorizou muito. Da perspectiva do consumo, os produtos importados ficam mais baratos. Mas, se isso for sustentado por muito tempo, será difícil para os exportadores se manterem competitivos. E a forma de combater essa situação não é promover controles de capital, como o Brasil vem fazendo, mas sim melhorar a produtividade e reduzir os gastos públicos. Para melhorar a produtividade, é preciso investir mais em infraestrutura – o que o Brasil já vem fazendo, em função da Copa e das Olimpíadas, mas de forma insuficiente –, e em educação. O governo tem tentado cortar no campo fiscal, mas é preciso examinar um pouco mais os gastos. E o crédito público deveria ser mais contido.

Com um pouco de sorte, em três ou quatro anos, os países industriais irão se recuperar, o capital começará a voltar e o Brasil poderá respirar. Mas poderá ter asfixiado sua indústria até lá.

Veja – O senhor defende, em seu livro, que uma das fraturas que levaram o mundo à crise é a maneira como os Estados Unidos lidaram com a desigualdade: em vez de investir na solução de longo prazo, que é democratizar a educação, usaram um paliativo, a rápida ampliação do crédito. O Brasil tem uma educação deficiente e está experimentando um boom de crédito. É possível comparar as duas situações?
Rajan – As duas situações são diferentes nos detalhes. O crédito no Brasil – sobretudo o imobiliário, que deu origem à bolha americana e à crise – não é tão desenvolvido nem tem as dimensões do crédito nos EUA. Dito isso, é preciso ter cuidado quando o crédito se expande muito rapidamente, como aconteceu nos EUA e como parece estar acontecendo no Brasil. Como a classe média é beneficiada por esse tipo de movimento, os políticos têm pouco incentivo para interromper a onda. Mas isso não ataca a desigualdade em sua raiz. Outro perigo está no elemento de financiamento público, liderado pelo BNDES. Ele ajuda a distorcer o mercado e criando problemas potenciais, que poderão se manifestar mais adiante.

Veja – O que um governo precisa fazer para reduzir a desigualdade de renda? E quando as ações governamentais começam a representar perigo para a economia?
Rajan – A ação governamental se torna excessiva quando cria condições para a ineficiência. Por exemplo: nos EUA, em uma tentativa de ajudar os jovens a melhorar sua educação, o governo passou a conceder empréstimos direcionados à formação universitária. Mas esse crédito atraiu também instituições ruins, que oferecem diplomas que não valem o papel em que estão impressos. Os estudantes, por alguma razão, não prestaram atenção ao tipo de educação que eles estavam recebendo, e continuaram retirando empréstimos elevados. Isso se tornou problemático. Tudo o que é em excesso pode trazer resultados ruins, mesmo que tenha sido desenhado com boas intenções. É importante sempre checar se seguimos na direção correta.

Veja – O senhor relata experiências de países essencialmente exportadores, e descreve como eles se tornaram dependentes do mercado externo. O Brasil é um grande exportador de commodities, mas não de produtos industrializados. Como o senhor avalia esse modelo?
Rajan – O Brasil tem uma base industrial forte e muito capaz de exportar. O problema é que esse sistema amplamente baseado em commodities e esses enormes fluxos de capital que o país vem recebendo estão fazendo a moeda brasileira se valorizar muito. E isso dificulta a vida do setor manufatureiro. Você pode até tentar controlar a entrada de capital, mas é muito difícil. O único jeito de combater essa situação é melhorar muito a produtividade, para que a indústria seja competitiva mesmo com o câmbio desfavorável. A Austrália e o Canadá já fizeram isso quando foram alvos de fluxos intensos de capital.

Veja – Quais são as fraturas econômicas que se agravam no mundo, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa?
Rajan – Uma delas é muito clara: o antagonismo político, tanto nos Estados Unidos como na Europa. Nos EUA, aquelas pessoas que não tiveram uma boa educação são as mesmas que começaram a comprar casas e que, em seguida, perderam seus empregos. Esse grupo – a classe média baixa – é parcialmente responsável pela discussão que estamos vendo em Washington. O outro lado das vozes vem dos que acham que o governo já está muito grande. Quando a administração Obama começou a se mover em direção a um sistema de saúde universal, para ajudar essas pessoas que perderam os empregos, houve uma enorme reação. O diálogo fraturado em Washington piorou porque a mágica que segurava os dois lados juntos, ou seja, crédito fácil, preços imobiliários em expansão e sentimento positivo, não existe mais.

Veja – Que reformas os protagonistas dessa crise deveriam priorizar daqui em diante?
Rajan – A reforma do sistema financeiro é claramente importante. Mas tenho medo de que esteja havendo muito lobby dos bancos para que essa reforma não seja efetiva. Outra preocupação é que não houve absolutamente nenhum progresso no monitoramento, na supervisão ou na regulação dos bancos multinacionais.

Veja – O senhor definiu, em seu livro, a decisão do Federal Reserve de manter os juros perto de zero por muito tempo no passado, como uma decisão política que provocou desequilíbrios na economia americana. Como o senhor avalia a decisão, tomada na semana passada, de manter os juros em quase zero até 2013?
Rajan – O Fed entrou de vez no jogo de assegurar os mercados. O Fed quase se convenceu de que precisa ter um papel ativo no estímulo dos preços dos ativos. Isso é perigoso porque as pessoas passam a pensar que, sempre que as coisas piorarem, o Fed vai intervir. E, portanto, não é preciso ter cuidado.

A forma primária que Fed tem para lidar com a situação americana é trabalhar com os juros no curto e no longo prazo. Mas ambos já estão muito baixos. Não acredito que seja possível estimular fortemente a produtividade baixando os juros um pouquinho mais.

Sou crítico com relação ao Fed porque essa política monetária não está ajudando os EUA e ainda causa efeitos colaterais no resto do mundo. E, no fim das contas, pode prejudicar o próprio país. Caso os países emergentes decidam não elevar as taxas de juros tão rapidamente para evitar que suas moedas apreciem, a atividade nesses locais aumentará, haverá superaquecimento, e isso refletirá imediatamente nos preços das commodities e da energia. E esses preços altos prejudicarão o consumo nos EUA.

Fonte: revista Veja

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