Arminio Fraga afirma que para inflação convergir para a meta em 2012, deveria cair já este ano

O sócio-fundador da Gávea Investimentos e presidente do Conselho de Administração da BMF&Bovespa, Arminio Fraga, acha que a Europa está despreparada para lidar com a crise que se abateu sobre o continente: “Acho que há uma certa perplexidade entre os dirigentes europeus. Estavam acostumados a ver a crise nos países em desenvolvimento”. Os EUA, por sua vez, responderam à crise de forma rápida, mas agora há um embate feroz sobre a dívida, sem que os republicanos queiram ceder: “A política americana é feita com ‘P’ minúsculo”, resume. Ele evita críticas ao Banco Central, que presidiu durante o governo FH, mas acha que o ritmo das intervenções na área cambial deveria ser reduzido.

O Globo: Em recente editorial, o jornal britânico “Financial Times” escreveu que a economia brasileira está difícil de pedalar. O senhor concorda?

Arminio Fraga: Nunca é fácil pedalar. Só que ainda está mais difícil pedalar na Europa do que aqui. O choque lá está sendo maior do que se imaginava mesmo há um ano, quando a crise estourou. A discussão agora mudou de patamar, depois que atingiu a Itália. Olhando de longe, parece que eles estão assustados. Talvez eles não estejam é preparados para lidar com a situação atual de crise.

O Globo: O senhor acredita que a crise na Europa está se aprofundando?

Arminio: Inicialmente, eles montaram o Fundo Europeu de Estabilização Financeira para depois irem ao Fundo Monetário Internacional (FMI). É que, num primeiro momento, as lideranças européias queriam evitar recorrer ao FMI. A crise na Grécia, por exemplo, está se mostrando, a cada dia que passa, mais difícil. Portugal está conseguindo fazer algumas reformas, enquanto a Irlanda, particularmente, temos que admitir que fez um ajuste econômico muito bom. Já a Espanha, que também teve seus momentos de tensão, vem conseguindo ainda ter acesso aos mercados. Agora a crise chegou à Itália.

O Globo: Como a Itália é uma grande economia, com PIB de US$ 2 trilhões, o senhor acha que a discussão mudou de patamar?

Arminio: Além de ser uma economia grande, é um país bastante endividado. Mas diga-se a favor da Itália, que o país vinha executando uma política fiscal mais conservadora do que a de outros países da zona do euro. Além de ter um sistema financeiro que não viveu uma bolha. Tanto assim que a percepção é de que os bancos têm ativos normais e não superaquecidos, como ocorre em outros mercados. Ainda assim, o país precisa de um financiamento relativamente alto nos próximos 12 meses. Acho que há uma certa perplexidade entre os dirigentes europeus, porque eles estavam acostumados a ver este tipo de crise circunscrito aos países em desenvolvimento e não na Europa, uma economia madura e, institucionalmente, mais avançada.

O Globo: O poder de contágio da crise pode acabar provocando um efeito dominó entre outros países da Europa?

Arminio: A Europa contínua atrasadas nas providências é a solução para enfrentar esta crise. Eles estão sistematicamente correndo atrás e não estão liderando este processo. Ainda sim acho que esta crise para por aí. A Europa precisa voltar no sentido de ajuste fiscal, porque os parâmetros de dívida e deficit público foram desrespeitados no Tratado de Maastricht. Os países de zona do euro tem registrado taxas de crescimento modesta. E crescimento econômico é fundamental para diluir problemas. É o caso da China, que há uns 15 anos, teve problema com seus bancos e, hoje, devido a seu alto grau de crescimento, vem conseguindo diluir o impacto deste problema. Se, no passado, este problema representava 50% do PIB chinês, hoje, este percentual não supera os 20% . Mas acho que a crise vai ficar circunscrita a esses países em que está.

O Globo: Com essa crise, o euro está sob ameaça?

Arminio: A União Européia significa muito mais do que uma simples união econômica. É um projeto político. Acredito, sinceramente, que, ao fim deste processo todo, deve prevalecer a visão política e os líderes do euros vão acabar fazendo os sacrifícios necessários para garantir a sobrevivência do euro. Nós, aqui no Brasil vivemos uma versão desta crise no passado. Foi o que Pedro Malan (então ministro da fazenda), chamou, à época, de “união monetária imatura”. Ele se referia obviamente às finanças estaduais. E, em resposta, os Pedros, (então ministro da Casa Civil), criaram a Lei de Responsabilidade Fiscal ( LRF). Eles Propuseram também a reestruturação das dívidas dos bancos estaduais. Lá, o risco é que haja um colapso de confiança. Isso deve ser evitado a qualquer custo.

O Globo: Se a Europa, a crise é uma novidade, para o Brasil é um lugar comum, já que estamos acostumados a conviver com crise?

Arminio: Em 2002, por exemplo, O Brasil administrou uma crise de confiança bastante difícil. Para da resposta dada àquela crise foi conseguir uma linha de financiamento de US$ 30 bilhões. Parte deste valor seria desembolsado no governo de FH e a maior parte dos recursos no governo do ex-presidente Lula, durante seu primeiro mandato. Era uma injeção de capital, que, à época, representava 5% do PIB, ou seja, um proporção infinitamente do que os pacotes que estão sendo aprovados na Europa para contornar a crise. Ou seja, são valores que giram em torno de 50% ou mais do PIB dos países que estão sendo ajudados. São financiamentos enormes.

O Globo: A crise americana é mais que grave que a européia?

Arminio: De jeito nenhum. Os Estados Unidos reagiram à crise de forma rápida e decisiva. O problema é que os EUA têm um déficit fiscal imenso e uma dívida pública perto de 100% do PIB. Achei lamentável que a proposta do presidente Barack Obama de promover um forte corte gastos e promover um ligeiro aumento de impostos tenha sido rejeitada. Fiquei surpreso. Sempre achei que os republicanos tivessem uma posição clara de preferir ajuste de gastos e a aumento de impostos. É uma visão pequena, de política com “P” minúsculo.

O Globo: E o debate econômico no Brasil? Melhorou?

Arminio: Vejo hoje no Brasil um debate muito saudável, mais rico, feito em alto nível. O governo tem certa simpatia pelo capitalismo de Estado, que nós conhecemos muito bem. Não sou radical, esse é um tema bom. Por exemplo, o papel das agências reguladoras diminuiu no governo Lula e acho que agora vai voltar a ter mais força no governo Dilma.

O Globo: Falando nesse capitalismo de Estado, a possibilidade de a BNDESPar participar da fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour foi bombardeada… O senhor concorda com a ação do BNDESPar?

Arminio: Acho que aquilo foi um acidente de percurso.

O Globo: O que precisa fazer para a taxa de investimento aumentar no Brasil?

Arminio: O Brasil tem uma agenda de trabalho, na área econômica, bastante extensa. Precisa ter uma visão de longo prazo, melhorar a educação e criar condições para taxa de juros cair. Assim também não colocaria tanta pressão sobre a taxa de câmbio (com os juros altos, o país atrai mais dinheiro do exterior e essa enxurrada de dólares deixa o real cada vez mais valorizado). O Brasil é vítima de seu próprio sucesso. O governo está disposto a mexer nos juros, há todo um discurso da presidente Dilma pela meritocracia, pela eficiência do setor público, que me impressionou muito. Vivemos um período de aumento de consumo, tem a ver com justiça social , mas tem que tomar certo cuidado, porque tomar um porre de crédito é perigoso… O Brasil tem várias áreas para trabalhar. Não é à toa que nosso PIB per capita é mais ou menos 20% do PIB per capita americano. Vamos ter que investir mais e educar melhor.

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