A corrupção na política local de Brasília

O editorial do jornal “O Globo” desta terça-feira, 12 de junho, põe em foco a cobertura da corrupção em Brasília e o “encadeamento de escândalos pluripartidários que levantam a suspeita da existência de uma entranhada cultura local de corrupção”.

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A corrupção na política local de Brasília

A política regional em Brasília deveria receber uma atenção específica de historiadores e cientistas políticos. Pois surpreende como a administração do Distrito Federal tem sido controlada por esquemas de corrupção quase só encontrados em centros muito atrasados.

De Joaquim Roriz a Agnelo Queiroz, passando por José Roberto Arruda, há um encadeamento de escândalos pluripartidários que levantam a suspeita da existência de uma entranhada cultura local de corrupção.

Estão nesta ciranda brasiliense o PMDB de Roriz (partido pelo qual o ex-governador se elegeu senador e teve de renunciar, a fim de não ser cassado), o PT de Agnelo (ex-PCdoB) e o DEM de Arruda (lançado na vida pública pelo cacique Roriz). Mas, por ser Brasília, tem-se a impressão que, mesmo se fossem outros os partidos, não haveria qualquer mudança no enredo de falcatruas.

Como é homem público, com poder para assinar cheques gastando dinheiro do contribuinte, seu enriquecimento merece investigação minuciosa

Queiroz comparecerá à CPI do Cachoeira, para explicar ligações com o contraventor goiano. Mas, diante da reportagem do GLOBO de domingo, também seria justificável o Legislativo, o Judiciário ou o Ministério Público convocar o governador a explicar a fabulosa multiplicação do seu patrimônio.

A ida à CPI já é boa oportunidade para Queiroz revelar sua fórmula de sucesso pessoal. Se publicada em livro, seria inevitável best-seller no segmento de autoajuda.

Ao lançar a candidatura a deputado federal pelo PCdoB de Brasília, em 98, Agnelo reunia patrimônio modesto. Um apartamento na Asa Sul, três automóveis, um deles um velho Chevette, e linhas telefônicas (fixas e celulares). Tudo foi avaliado em R$ 95,9 mil. Doze anos depois, em 2010, ao se candidatar ao governo do DF pelo PT, já ostentava bens de R$ 1,15 milhão.

Até por haver uma natural subavaliação de bens declarados à Receita — determinada pelas próprias normas do Imposto de Renda —, Agnelo tem uma trajetória invejável de sucesso pessoal. Se considerarmos que os subsídios pagos a parlamentares e a remuneração de titulares no Executivo não permitem a acumulação de suntuosos patrimônios, o salto patrimonial do governador é ainda mais exuberante.

Todos os indícios são de que a maior plataforma de lançamento da riqueza pessoal de Agnelo Queiroz foi a Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, para a qual o atual governador de Brasília conseguiu ser nomeado diretor, em 2007, como prêmio de consolação por ter sido derrotado ao se candidatar ao Senado, em 2006, pelo PCdoB.

No ano seguinte, Agnelo e a mulher, Ilza, compraram a mansão em que moram do casal Glauco Alves e Santos e Juliana Roriz Suaiden Alves e Santos.

Por estranha coincidência, Juliana é irmã de Jamil Elias Suaiden, proprietário da F. J. Produções, vencedora de concorrência na Anvisa, quando Agnelo era diretor da agência, para realizar 260 eventos.

Foram gritantes os indícios de concorrência dirigida para facilitar a vida da F.J. E facilitou mesmo, porque, de um faturamento de R$ 61,9 mil em 2006, a produtora começou a receber milhões do governo federal. Apenas em 2010, quando Agnelo foi o candidato vitorioso, já pelo PT, ao governo de Brasília, a firma abocanhou R$ 103,2 milhões. No ano passado, R$ 71,3 milhões.

Agnelo, via porta-voz, deu várias explicações para o aumento vertiginoso do patrimônio. Uma, endividamento. Outra, negócios da família.

Pode ser, mas, como é homem público, com poder para assinar cheques gastando dinheiro do contribuinte, seu enriquecimento merece investigação minuciosa.

 

O Globo, 12/06/12

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