Queiram  ou não tratar os problemas enfrentados pelo governo Dilma como uma  herança de um período em que a presidente atuou em cargos-chave ao lado  do presidente Lula, é fato que o Planalto precisa desobstruir estreitos  gargalos na infraestrutura e abater o máximo possível do custo Brasil,  para o país poder competir numa conjuntura mundial adversa e a economia  voltar a crescer.

Retomar investimentos públicos e abater este  custo também pela redução da carga pesada de impostos seriam parte  inexorável da agenda do novo governo. Era inescapável. E como o estado  das finanças públicas não permite maiores saltos nos investimentos, e  até mesmo devido à necessidade de uma administração mais eficiente, o  governo foi levado a se abrir ao setor privado. E foi assim que, afinal,  começaram a ser colocados em licitação aeroportos, surgiu a iniciativa  de negociar a renovação de concessões no setor elétrico prevendo-se a  redução de impostos e de tarifas, reviu-se a regulação do setor  ferroviário e anunciaram-se novas regras para a exploração de portos.

Intervencionismo estatal excessivo deseja limitar rentabilidade de concessionários privados e, com isso, afugenta investidores, beneficiando países como o México

Mas,  na prática, as boas intenções oficiais não surtem o efeito desejado,  como demonstrou reportagem do GLOBO de domingo. O governo acerta no  diagnóstico mas erra feio na terapia, devido ao viés do intervencionismo  estatal. O caso das novas regras para o setor elétrico é típico. Cortar  impostos e considerar que hidrelétricas já amortizadas justificam  tarifas mais razoáveis, essenciais para a indústria ganhar  competitividade, são pontos defensáveis. Porém, em nome dos bons  propósitos, querer limitar a rentabilidade dos negócios é a maneira mais  eficiente de afugentar a empresa privada. Um tiro no pé de grosso  calibre, pois atrair capitais privados é a única forma de o governo  conseguir deslanchar investimentos na precária infraestrutura.

Diante  das incertezas criadas, as ações de empresas do setor caíram, em um  dia, o do anúncio das alterações, 30%. Até semana passada, a perda de  valor das companhias, em bolsa, era de R$ 20 bilhões. “Não dá para  atrair o capital privado e querer controlar o retorno, não é por aí”,  alerta o brasileiro Will Landers, baseado em Nova York, onde trabalha na  Black Rock, uma das grandes gestoras mundiais de recursos. É perigoso o  conceito de “lucros excessivos”. Pois leva a um intervencionismo  maléfico cujo resultado é travar investimentos de que o país tanto  precisa. O exemplo da energia se repete nas ferrovias, onde a Agência  Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) estabelece tetos mais baixos  para as tarifas de concessionários antigos.

Como o governo não  confia em mecanismos de mercado, não estimula a concorrência para a  redução de preços e não aguarda a reacomodação de fatores de formação de  custos a partir da queda dos juros. Confia apenas na mão do Estado.  Erro crasso, porque afugenta capitais para outros emergentes, como o  México, em que, dizem os analistas, o ambiente de negócios está mais  favorável aos investimentos que o brasileiro.

Fonte: O Globo, 23/10/2012

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1 comment

  1. rafy

    o que move o empresário é a oportunidade de ficar mais rico do que já é, via lucros ou ganhos especulativos, que pouco importa. as margens de lucro estão apertadas e todos sabem disso. pedir mais investimentos agora só via bndes e nada mais. este governo no entanto já acabou, infelizmente.