O Brasil, pelas características de sua matriz energética, tem um sistema elétrico nacional interligado, dividido em subsistemas regionais. Dessa forma, o subsistema Norte pode transferir eletricidade para a região Nordeste, da mesma maneira que o Sul pode ser abastecido em parte pelo Sudeste e vice-versa. Essa interligação só é possível porque cada subsistema tem uma certa capacidade de autoabastecimento, e a transferência de eletricidade é complementar, administrada de maneira a preservar a armazenagem de água nos reservatórios das hidrelétricas dentro de razoáveis margens de segurança.

Como o Brasil tem extensão continental e o regime de chuvas varia de acordo com cada região, esta interligação possibilita transferências de energia entre os vários subsistemas, mantendo o equilíbrio na armazenagem de água entre eles. Há anos mais secos em algumas dessas regiões, o que exige um aumento na transferências. E como a transmissão de eletricidade pode ocorrer por distâncias muito longas, os riscos de interrupção tendem a se multiplicar quando ficam próximos dos limites da capacidade dos subsistemas.

O país não pode correr o risco de passar um vexame diante dos olhos do mundo por causa de algum apagão durante os eventos que aqui serão realizados

Existem medidas para reduzir esses riscos, e o principal deles é a ampliação da base de geração térmica em áreas vizinhas aos centros de consumo. São centrais elétricas que utilizam combustível nuclear, gás natural, óleo, carvão, biomassa, funcionando continuamente ou, para elevar a confiabilidade do subsistema, sendo acionadas apenas emergencialmente.

O Brasil tem procurado pôr em prática esse modelo, mas há um conflito entre aumento da confiabilidade e a necessidade de reduzir o preço da energia para os consumidores, especialmente os relacionados ao setor produtivo. E em função desse conflito investimentos deixam de ser realizados. O resultado tem sido, por exemplo, a sequência de apagões pelo país inteiro. Não se pode mais responsabilizar raios, incêndios, causas fortuitas.

A energia mais cara é a que não existe. Em função dos últimos acontecimentos, o sistema interligado tem de passar por uma reavaliação. O que precisa ser reforçado para evitar que qualquer falha desarme o fornecimento de energia para todo um subsistema, como já ocorreu no Norte e há poucos dias em todo o Nordeste? As respostas das autoridades do setor não tranquilizam mais os consumidores. A garantia de que não ocorrerão novos apagões agora não é mais levada em conta.

O Brasil será sede de grandes eventos internacionais a partir de 2013. Não podemos correr o risco de passar vexames diante dos olhos do mundo exatamente por falta de energia elétrica. Ainda mais que estes eventos serão uma oportunidade para mostrar ao resto do planeta que o Brasil tem uma matriz elétrica limpa. Mas é preciso que seja também eficiente.

Fonte: “O Globo”, 31/10/2012

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