Eligio Cedeño: “Chávez hoje é um homem fraco”

Se pudesse ficar cara a cara com Hugo Chávez, o banqueiro venezuelano Eligio Cedeño lhe faria uma pergunta: “Por que tanto ódio de mim?”. Mas hoje esse encontro é impossível. Opositor declarado do presidente da Venezuela, Cedeño vive em Miami, nos Estados Unidos, onde obteve asilo político. Preso sem condenação por uma suposta fraude bancária, fugiu da Venezuela assim que a juíza María Lourdes Afiuni lhe concedeu liberdade condicional, em dezembro de 2009. Logo depois, foi a vez de Afiuni ir para a cadeia – está agora em prisão domiciliar, tratando-se de um câncer. Em entrevista a ÉPOCA, Cedeño disse que trabalha para libertá-la “desde a hora em que me levanto da cama”. Na semana passada, o linguista americano Noam Chomsky, próximo a Chávez, escreveu uma carta aberta em que denuncia o autoritarismo do presidente e lhe pede “um gesto de clemência”. Se nada acontecer, diz Cedeño, Chomskyvai a Caracas visitar Afiuni.

Por Juliano Machado

Quem é:

O banqueiro Eligio Cedeño nasceu em Caracas e tem 46 anos. Cursou administração na Universidade Simón Bolívar. É casado e tem cinco filhos. Desde dezembro de 2009, vive como asilado político em Miami, nos Estados Unidos

O que fez:

Financiou campanhas de oposição a Chávez. Foi preso em fevereiro de 2007, por suposta fraude financeira. Fugiu do país após ganhar liberdade condicional

Época – A juíza María Lourdes Afiuni está em prisão domiciliar por ter lhe concedido a liberdade. O senhor imaginava que isso pudesse acontecer?

Eligio Cedeño – Primeiro, não me passava pela cabeça que ela pudesse conceder a medida cautelar de liberdade, mesmo com o pedido de meus advogados. Fiquei “bloqueado” na hora. A juíza Afiuni foi detida, segundo o governo, porque tomou sua decisão sem a presença do Ministério Público. Mas, na Venezuela, bastam o juiz e o requerente para julgar uma medida cautelar. E os promotores, supostamente impedidos de comparecer naquele dia, estavam na porta do tribunal. Eu os vi quando saí de lá, pela porta da frente. Quando ouvi a declaração de Chávez de que Afiuni deveria pegar 30 anos de prisão e que os meios de comunicação oficiais diziam que eu era procurado “vivo ou morto”, percebi que ajudaria muito mais fora do país do que dentro. Era a única saída.

Época – Por quê?

Cedeño – Porque seria impossível desempenhar toda a luta que venho travando para ajudar a libertar não só a juíza Afiuni, mas outros presos políticos venezuelanos. Desde a hora em que me levanto da cama, penso em libertá-la. Com advogados e lobistas, coordeno e dou impulso a todas as iniciativas internacionais que buscam esse objetivo.

Época – O linguista americano Noam Chomsky, um antigo simpatizante do regime chavista, pediu em carta aberta que Chávez faça um “ato humanitário” e solte a juíza. Que influência isso pode ter para o presidente mudar de ideia?

Cedeño – Acho que o presidente deveria estar pensando em mudar de ideia sobre muitas coisas que já fez, não só com Afiuni. Ela não é a única pessoa que está presa com problemas de saúde na Venezuela. Também estão nessa situação detentos conhecidos, como (Alejandro) Peña Esclusa (um líder da oposição preso por suposto envolvimento em um plano para fazer ataques violentos durante as eleições parlamentares de setembro de 2010) e Lázaro Forero (ex-chefe da Polícia Metropolitana de Caracas, acusado pela morte de 20 pessoas em abril de 2002, pouco antes da tentativa de golpe contra Chávez). Forero, aliás, está com suspeita de câncer de próstata, curiosamente a mesma doença da qual estaria sofrendo o presidente. Como todos somos humanos, em algum momento da vida a saúde nos cobra a fatura. Os que são crentes pensam o que fizeram de errado quando lhes ocorre algo ruim. Na prisão, eu me perguntava: “Senhor, por que estou passando por isso?”. Se Chávez está fazendo essa revisão em seu pensamento, e espero que sim, essa é uma maneira de libertação de seu próprio mal. Tenho informações de que, se Chávez não soltar a juíza Afiuni, o senhor Chomsky irá à Venezuela visitá-la. Isso pode aumentar a pressão sobre ele.

Época – Chávez está mais fraco politicamente depois do anúncio do tratamento de um câncer?

Cedeño – Sim. Já acho que ele esteja mais frágil. Principalmente porque sempre se vendeu como um homem forte para todos os venezuelanos. Lamentavelmente, e digo dessa maneira porque nunca vou desejar o mal a nenhuma pessoa, nem que essa pessoa seja Chávez, ele é hoje um homem fraco.

Época – O senhor acha que a oposição está preparada para tirar proveito deste momento?

Cedeño – Estão trabalhando bastante e se organizando bem. Acho que é uma grande oportunidade para tirar Chávez democraticamente.

Época – Mas ainda falta chegar a um nome forte de consenso, não?

Cedeño – Sim, falta. Mas quanto a isso há a consciência de que o governo joga com regras e sem regras. Se a oposição lança um nome com muita antecedência, maiores são as chances de a Procuradoria-Geral arranjar algum pretexto para investigá-lo e tentar impedi-lo de concorrer às eleições. O melhor é definir um candidato somente quando se aproximar o início do período eleitoral. Porque, aí, fica mais evidente uma ação do governo que venha a tentar lhe causar algum dano de imagem. A oposição marcou sua primária para fechar uma candidatura em fevereiro do ano que vem. Nove meses até a eleição é tempo suficiente para fazer uma boa campanha (as eleições presidenciais venezuelanas estão marcadas para o dia 2 de dezembro de 2012).

Época – O senhor pretende voltar à Venezuela em algum momento?

Cedeño – Assim que cesse a situação de risco a que estou sujeito atualmente, caso decida fazer isso, volto para que se possa continuar meu julgamento de maneira justa. Hoje, isso é impossível. Para regressar à Venezuela, eu teria de renunciar a minha condição de asilado político nos Estados Unidos (obtida em maio deste ano), o que não pretendo fazer no momento. A condição básica para quem pede asilo é não viajar para o país de onde saiu. Se eu desistisse de ser asilado e voltasse hoje, certamente me meteriam de novo na prisão, por algum motivo.

Época – E se Chávez renunciasse em um futuro próximo por causa da doença e assumisse o vice, Elías Jaua?

Cedeño – Mesmo assim. E acho que seria até mais arriscado. Jaua é pior que Chávez. É muito mais radical que ele.

Época – O senhor pretende ter uma carreira política quando voltar a seu país?

Cedeño – Não. Nunca recebi convite para entrar na política. Quando estava na prisão, cheguei a planejar uma candidatura a deputado da Assembleia Nacional para que pudesse ter imunidade parlamentar e, assim, ser libertado. Mas isso não foi possível.

Época – Mas o senhor ainda mantém um forte vínculo com a oposição…

Cedeño – Sem dúvida. Fui militante por muitos anos da Ação Democrática (tradicional partido venezuelano de perfil social-democrata e uma das principais forças de oposição a Chávez) e tenho contato com todos os dirigentes dos partidos de oposição. Durante o tempo em que estive na Venezuela, sempre fui um dos principais financiadores das campanhas presidenciais de opositores ao regime. E o fiz de maneira aberta, aparecendo em fotos tiradas em comícios, em reuniões… Nunca escondi minha posição. E obviamente Chávez ficava muito irritado com isso.

Época – Qual é sua relação com Carlos Ortega, o líder sindical que organizou a greve geral de 2002?

Cedeño – No começo, era um acordo político. Depois, tornou-se uma amizade muito próxima. Até hoje nos falamos frequentemente, mesmo eu estando nos Estados Unidos e ele no Peru.

Época – O senhor deu dinheiro para ajudá-lo a fugir da Venezuela?

Cedeño – Dei. Não fazia nenhum sentido um homem ser condenado a 16 anos de prisão por convocar uma greve. Eu o ajudei da forma que pude para que ele pudesse deixar o país após fugir da cadeia (em agosto de 2006).

Época – Apesar de sua conhecida atuação política contra Chávez, o senhor acabou preso por uma questão financeira…

Cedeño – Mas, justamente, governos “comunistoides” costumam te acusar de outro delito que nada tem a ver com o que lhe incomoda para evitar o rechaço internacional e a ação de grupos de direitos humanos. No meu caso, a estratégia foi passar a imagem do banqueiro corrupto. Fui preso porque teria financiado uma operação fraudulenta. Uma conhecida empresa de venda de computadores (o Consórcio Microstar), cliente do Banco Canarias (do qual Cedeño era sócio), nos informou que tinha feito uma aquisição de equipamentos eletrônicos vindos dos Estados Unidos no valor de US$ 27 milhões. Na Venezuela, um órgão governamental, a Cadivi, controla as operações de câmbio. O Banco Canarias recebeu os bolívares da Microstar, transferiu a quantia para o governo, recebeu em troca os dólares e os repassou à empresa. Mas depois descobriram que se tratava de uma fraude. Os computadores não existiam. O dono da Microstar, Gustavo Arráiz, me disse que um empregado dele estava envolvido, aparentemente com conivência da própria Cadivi. Arráiz se dispôs a devolver os dólares ao governo, que nunca aceitou. Ou seja, fui detido mesmo sem ter a obrigação, como agente bancário, de investigar os detalhes da operação.

Época – Como eram as condições da prisão onde o senhor ficou durante quase três anos?

Cedeño– Fiquei no centro de detenção da Disip (Direção Nacional de Serviços de Inteligência e Prevenção, atual Serviço Bolivariano de Inteligência). Minha cela tinha uma única janela, de uns 30 centímetros por 60 centímetros. Era o único lugar de onde vinha a luz do sol. Como quase nunca havia luz natural, só fluorescente, acabei ficando com alguns problemas de visão. O calor também era uma dificuldade. Lá dentro era, em média, uns 10 graus célsius mais quente que na rua. Ao menos me permitiram, com meu próprio dinheiro, instalar um sistema de ar condicionado em todas as celas. Quanto às visitas, duas vezes por semana eu podia receber familiares e meus advogados. Quando vinham deputados da União Europeia e ativistas de direitos humanos de outros países, porém, o governo sempre lhes negava acesso a mim.

Época – Como o senhor fugiu do país?

Cedeño – Fui de barco até Curaçao (uma das ilhas das Antilhas Holandesas) e, de lá, peguei um avião até Miami.

Época – Chavistas e mesmo venezuelanos comuns levantam suspeitas sobre como o senhor, de origem humilde, conseguiu se tornar um milionário tão rápido. Como o senhor encara essa desconfiança?

Cedeño – O problema da Venezuela, sobretudo da classe média alta, é que há muito ressentimento e muita inveja. Lamentavelmente tenho de dizer isso. Em países como os Estados Unidos, ninguém critica quem tem sucesso na vida. Na Venezuela, se alguém não tem o mesmo êxito que o outro, tenta justificar dizendo que ou o governo ajudou ou o outro é um ladrão. Trabalho em bancos desde os 16 anos, quando entrei de estagiário no Citibank. Quatro anos depois, fui para a área de mercado de capitais e me especializei em dívida pública. Sem modéstia, salvo uma ou duas pessoas, eu era quem mais entendia disso no país. Em 1994, abri uma empresa de corretagem com um capital de US$ 18 mil. Até 2001, a empresa faturava uns US$ 2 milhões por ano. Mais tarde, por US$ 20 milhões, comprei 50% do Banco Canarias, que estava para quebrar. Três anos depois, vendi minha parte por US$ 75 milhões. Tudo isso porque trabalhei muito. Chegava às 8 da manhã e saía à 1 da madrugada. Meus filhos se queixavam que nunca passavam férias comigo. Provei que alguém vindo dos cerros (morros, na tradução do espanhol) de Caracas pode se tornar milionário limpamente. Mas parece que alguns venezuelanos e o governo não entendem isso.

Época – O senhor conheceu Chávez pessoalmente?

Cedeño– Eu o encontrei apenas duas vezes, mas nunca falei com ele. Quem veio de lugares pobres, como eu, tem de conviver com delinquentes da pior espécie, que têm um comportamento habitual. E esse comportamento era o mesmo de Chávez e sua patota desde sua campanha. E assim também foi quando assumiu e disse “juro sobre esta moribunda Constituição”, para depois assinar um decreto convocando uma Constituinte. Ele sempre se portou como um “zafio” (termo em espanhol para uma pessoa grossa, mal-educada). Percebi isso de cara e a partir daí passei a combatê-lo.

Época – O que o senhor lhe diria se o encontrasse hoje?

Cedeño – “Por que tanto ódio de mim?”

Fonte: revista Época

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