Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
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“A estratégia continua sendo empurrar com a barriga”

Caso o governo Dilma Rousseff continue após o processo de impeachment, ou se um novo governo não tiver maioria para fazer reformas, a tendência é o Brasil reviver, até 2018, o caso do governo José Sarney (PMDB), quando o ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, capitaneou a política do “feijão com arroz” até o governo seguinte. O cenário foi traçado pelo economista Armando Castelar Pinheiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV, e professor da UFRJ. A seguir, trechos da entrevista.

Quais os efeitos da perda do grau de investimento do Brasil?

Era bastante esperado, o que não significa que não seja ruim. Agora, o Brasil está formalmente caracterizado como País que não pode receber recursos de investidores que não aplicam em países que não são grau de investimento. Residualmente, ainda tem algum efeito negativo, mas a maior parte já tinha sido antecipada. A gente está andando para trás.

Quais os efeitos da saída do ministro Levy?

A gente começou 2015 com a expectativa de um ano ruim e está terminando 2015 com um ano muito pior. Isso ocorreu muito porque o governo não teve reação à deterioração fiscal de 2014. O governo adotou um discurso do Joaquim, para fora, e, na prática, era totalmente diferente. O Joaquim chegou falando em 2% (do PIB) de superávit primário (saldo positivo nas contas públicas usado para pagar a dívida) no ano que vem e a previsão do Ibre é de déficit de 1,5%. Isso dá dimensão da diferença entre discurso e prática. A sensação é de que o governo fingiu que a crise não era com ele, com a exceção notória do Joaquim. Entendo que o plano do governo é continuar com a estratégia ambígua, de propor metas que depois não são cumpridas, uma coisa que vem do primeiro mandato de Dilma. O Joaquim, talvez involuntariamente, foi instrumental.

Instrumental por quê?

Ele emprestou sua credibilidade, é aguerrido em defender metas, pedir compromissos, tentar gerar resultado nas contas públicas. Ao mesmo tempo, em certo sentido, permitiu que o governo tivesse um discurso de austeridade e uma prática de não austeridade ou de pequena austeridade. A saída dele complica a estratégia de manter a ambiguidade de prometer metas que não são cumpridas e, quando descobre que não cumpriu, promete que no ano que vem será diferente e vai levando. A estratégia continua sendo empurrar com a barriga o ajuste, mas, ao mesmo tempo, limitar o estrago com promessas de que daqui para a frente será diferente.

A culpa da falta de reação na política fiscal é toda do governo ou o Congresso atrapalha?

Não estou dizendo que nada aconteceu. Foram feitas mudanças no seguro-desemprego, nas pensões por morte, o investimento público caiu mais de 40%. A estratégia não é não fazer nada, é fazer o mínimo necessário, mas não reagir proporcionalmente ao tamanho da crise. Essa crise é de confiança: o investidor vê a dívida subir e não tem confiança de que vem uma resposta à altura. Acho que a questão política começou no governo, porque não houve uma resposta à altura. Agora, quando o Congresso vê que o Executivo não está tomando uma iniciativa à altura, ele reage igual, não vai ser ele que vai tomar a iniciativa.

A indicação do ministro Nelson Barbosa para a Fazenda muda essa estratégia ambígua?

Com o Nelson, fica mais difícil estar nas duas pontas ao mesmo tempo. A credibilidade do discurso de austeridade fiscal fica mais difícil. Primeiro, por causa da participação do Nelson na formulação da “nova matriz econômica” (como ficou conhecida a política econômica do primeiro mandato Dilma, em que se buscou reduzir os juros básicos, desvalorizar o câmbio e deu-se menos importância ao cumprimento das metas fiscais). Segundo, pelo que se sabe da participação dele no primeiro mandato de Dilma, com geração de déficits fiscais, e agora, na articulação para que a meta de superávit de 2016 tivesse bandas, com possibilidade de redução. Terceiro, porque o Nelson pensa como a Dilma, e o Joaquim representava um contraponto. Agora, há de se aguardar quem será a equipe (do novo ministro da Fazenda).

O processo de impeachment paralisou as medidas de ajuste. Tendo uma definição, as coisas podem melhorar?

Sair ou não sair o impeachment não vai resolver os problemas estruturais. Temos um problema sério de aumento contínuo de gasto do governo, que vem das regras e precisa ser mudado independentemente do que acontece com o impeachment. O cenário com o impeachment, do ponto de vista estritamente da economia, cria dinâmica nova de confiança, traz uma oportunidade. Um novo governo teria muito menos comprometimento com as políticas do primeiro mandato. Agora, essa é uma avaliação só econômica, é preciso considerar outras questões.

E se não houver impeachment?

A julgar pelo que vem acontecendo, você vai continuar tendo um governo com dificuldades de adotar uma agenda mais ambiciosa de reformas. Não é só dificuldade de passar no Congresso, é de gerar consenso interno.

Nesse quadro, como a economia chegará a 2018?

A estratégia preferida do governo mantém a economia longe de ruptura, de um lado, e um discurso politicamente palatável, de outro, para chegar com uma narrativa nas eleições de 2018, repetindo um pouco a estratégia de 2014. Há três coisas que vão jogar a favor desse cenário. A primeira é que não temos problema nas contas externas e isso limita a saída de capital. A segunda é que o fato de estarmos numa recessão muito forte limita o que você pode ter de inflação, o que daria a ideia de um desajuste mais forte. O terceiro item é a expectativa de 2019. Conforme o tempo for passando, as pessoas vão começar a trabalhar com a perspectiva de uma mudança em 2019. A gente está caminhando para uma situação parecida com o que aconteceu no governo Sarney. É uma versão atualizada do “feijão com arroz”.

Como ficaria a economia até 2019?

A tendência é ter atividade muito fraca, inflação alta e aumento do desemprego. Você terminaria, em 2018, com o PIB per capita 5% menor do que em 2010. A economia pararia de cair lá pelo terceiro trimestre de 2016, mas pararia de cair porque já teria caído muito. Seria uma recessão parecida com a de 1990 a 1992 e com a do início dos anos 1980.

Fonte: O Estado de S.Paulo.

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