“A política perdeu o sentido nobre”

Em janeiro de 2007, Lula assumiu seu segundo mandato presidencial. Semanas antes, Facebook e Twitter haviam sido abertos ao público. Dias depois, o iPhone inaugurou a era dos smartphones. Desde então, as formas de organização social mudaram muito. Os partidos políticos brasileiros, contudo, mudaram pouco. Segundo um estudo do movimento Transparência Partidária, a taxa de renovação dos dirigentes nacionais dos partidos, em uma década, foi de apenas 25%. “A política ganhou má fama. Perdeu o sentido nobre. Foi entendida como um lugar de malandros”, afirma Carlos Melo, doutor em ciência política e professor da universidade Insper. “Assim, os jovens dos últimos 30 anos foram fazer qualquer outra coisa, menos se envolver com política. Isso tem um custo. Você não renova o sistema.” Para Melo, os movimentos civis atuais representam a esperança de oxigenação da gestão pública ao propor regras de transparência e alternância de poder.

Época – Por que é difícil encontrar o novo na política?
Carlos Melo – A política não criou canais para o novo. Nos parlamentos e nos partidos, ela ainda é feita como se fazia antes da queda do Muro de Berlim. Antes da internet. A sociedade passou por uma profunda transformação econômica, social e tecnológica nos últimos anos, mas a política não acompanhou. Não acompanhou por uma questão de manutenção de poder. O líderes tendem a manter as regras que permitiram a chegada deles ao poder.

Época – Como renovar a política?
Melo –
É necessário criar canais. Acho que isso está acontecendo agora. Movimentos novos estão querendo forçar as portas para que se abram para o novo. É um processo que está acontecendo no mundo todo. Não vale mais a pena discutir se são movimentos de direita, de esquerda, de centro… Até isso parece estar desgastado.

Época – Como a tentativa de abrir canais como a defesa de prévias nos partidos e de candidaturas avulsas favorece a renovação política?
Melo –
Se você olha para qualquer jardim, está cheio de botão. Você só não sabe qual deles vai se transformar em rosa. Isso é imprevisível. Você não sabe objetivamente de onde virá a rosa, mas sabe que precisa fertilizar o terreno. O meio político, hoje, não é um meio fértil. É muito positivo esses grupos se preocuparem com isso.

Época – Os novos movimentos de jovens defendem o fortalecimento dos partidos políticos, mas a maioria descarta se converter, um dia, em partido. Preferem se dedicar a bandeiras específicas. Esse é o futuro da política?
Melo –
Uma visão ampla será necessária, ainda que agora ela não se coloque como a mais urgente, porque a reivindicação é “abre essa porta que eu quero entrar”. Depois da porta, há uma casa ali dentro. Você pode falar “eu não tenho nada com isso”, mas alguém terá de ter. Alguém vai ocupar o espaço das políticas públicas. Se não forem esses grupos serão outros. Cada grupo já definiu sua pauta particular e segmentada. Isso é uma árvore. Política é olhar a floresta. É buscar consenso e resolver o grande conflito de interesses entre diferentes pautas.

Época – Qual a diferença entre os movimentos de agora e aqueles surgidos nas manifestações de 2013?
Melo –
Em 2013 e 2015, todo mundo foi para a rua, foi uma festa, mas voltou para casa sem se preocupar com o dia seguinte. E aqui estamos nós, em 2017, com um enorme mico na mão. Eles eram contra tudo e tinham razão de ser contra tudo, porque tudo parece estar mesmo muito ruim. Mas e daí? Você tira a Dilma para colocar o Temer. Aí vai tirar o Temer para colocar o Rodrigo Maia? Não houve preocupação com o dia seguinte.

Época – Os últimos grandes líderes do país, Fernando Henrique Cardoso e Lula, surgiram para a política nos anos 1970, durante a ditadura. Por que justo na retomada democrática, depois dos anos 1980, a fonte secou?
Melo –
Algumas pessoas com muita capacidade de diálogo e que não pensavam necessariamente dentro da dicotomia bem e mal, ou esquerda e direita, apareceram na política brasileira. Mas a sorte não ajudou. Luís Eduardo Magalhães, do PFL, filho de Antônio Carlos Magalhães e presidente da Câmara, morreu de infarto aos 43 anos. Marcelo Déda, do PT, governador reeleito de Sergipe, morreu aos 53 anos. Eduardo Campos, do PSB, governador reeleito de Pernambuco, morreu aos 49 anos, num acidente aéreo, quando disputava a Presidência. De certa forma, simbolicamente, morreu também o Antonio Palocci. Além dessa falta de sorte, a redemocratização dos anos 1980 coincide com o desinteresse dos jovens pela política — um fenômeno mundial.

Época – Por que os jovens se afastaram da política?
Melo –
A reabertura política do Brasil coincide com a afirmação mundial do prazer individual. Em busca do prazer, eu vou para onde? Para o mercado. Nele ganho dinheiro e tenho vitórias palpáveis. Já na vida dos parlamentos não há resultado imediato para nada. O padrão de recompensa é outro. Cada um foi cuidar de sua vida, de sua própria casa, no âmbito do mercado. Foi um movimento compreensível, e não é demérito para ninguém fazer isso. Mas ele acabou minando a possibilidade de renovação do sistema, porque as pessoas não se interessaram mais pela vida pública. Em 1987, Margaret Thatcher [então primeira-ministra da Inglaterra] afirmou que esse negócio de sociedade não existia. O que havia eram indivíduos e suas famílias. Se existem apenas indivíduos e suas famílias, não existe política.

Época – Porque a política é o meio…
Melo –
A política é o meio de conexão entre os indivíduos e a sociedade. Ao mesmo tempo que a política não criou mecanismos de participação, as pessoas também não quiseram participar. Pior: a política atraiu aqueles que não encontraram lugar no mercado. Celebridades decadentes, como o palhaço e deputado Tiririca. Chamar Michel Temer, Romero Jucá ou Renan Calheiros de lideranças é um desrespeito com os líderes que já tivemos. O primeiro time foi embora: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Mario Covas… Sobrou o resto. A política ficou com má fama. Perdeu o sentido nobre. Foi entendida como um lugar de malandros. Assim, os jovens dos últimos 30 anos foram fazer qualquer outra coisa, menos se envolver com política. Isso tem um custo. Você não renova o sistema.

Época – A busca do novo, ironicamente, não é nova. Por que o eleitor não apoiou outras tentativas de renovação?
Melo –
Na transição de Fernando Henrique para Lula, o mercado achou que a lógica econômica estava posta, estava dada. Achou que não havia forma de se contrapor a ela, e que qualquer presidente que viesse preservaria alguns valores do mercado, como a estabilidade e os fundamentos macroeconômicos. O mercado acreditou que a dinâmica econômica era soberana. Mentira. Não era. As escolhas políticas importam. Passaram-se 20 anos para se perceber isso. Foi o tempo que levou para o sistema se deteriorar a tal ponto que começou a prejudicar a economia.

Época – A crise econômica atual, a mais grave já registrada no país, favorece a emergência de novos líderes?
Melo –
As pessoas adoram citar os chineses, dizendo que toda crise gera líderes. Eu concordo. Mas muitos se esquecem de que o horizonte histórico da China tem mais de 1.000 anos. Até gerar líderes, a crise precisa de maturação. Primeiro vem a crise, a deterioração. Depois vem a consciência, o diagnóstico da crise, a necessidade de buscar saídas. Aí começam a aparecer as primeiras alternativas, as primeiras respostas, até que uma geração se consolida como resposta para a crise. Essa geração ainda não surgiu. Com esses novos movimentos todos, a resposta pode surgir. Temos de esperar.

Época – Em um ano, a corrida presidencial na França passou do favoritismo de uma candidata de extrema-­direita à eleição de um moderado, Emmanuel Macron. Como encontrar um Macron brasileiro?
Melo –
Macron não surgiu de fora do sistema. Ele se desconectou da antiga esquerda para fundar uma coisa nova. Ele tem uma visão de Europa e uma visão de economia, escreve a respeito e tenta formular questões novas. Se é o novo, nós não sabemos ainda, mas ele busca essa perspectiva. Aqui, não tivemos isso. Não tivemos no Brasil uma figura capaz de demonstrar o novo. Os nomes que aparecem representam o velho e, pior, mais radicalizado. Lula representa o velho à esquerda. Bolsonaro representa o velho à direita. Doria aparece com uma visão burocrática, gerencial. Há uma Cracolândia? Ele vai lá e derruba. Ponto. Falta uma visão sistêmica dos problemas.

Fonte: “Época”, 8 de junho de 2017.

 

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