Agenda de competitividade brasileira é embrionária

Queda economia_internet

Doutor em Economia e professor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Regis Bonelli acredita que as políticas industriais adotadas pelo Brasil para alavancar a economia não têm sido bem sucedidas.

Segundo o professor, a produtividade brasileira cresce lentamente e para mudar esse quadro é preciso investir em infraestrutura — o que o governo começou a realizar por meio das concessões tardiamente, segundo Bonelli. Organizador do livro “A agenda de competitividade no Brasil” (FGV, 2011), ele diz que o país tem um planejamento ainda embrionário e que muito pouco foi feito nos últimos dois anos. Leia a entrevista.

Instituto Millenium: O Brasil é considerado um país de baixa produtividade. Por quê?
Regis Bonelli: A produtividade no Brasil é baixa e cresce lentamente. Existem diversas causas que explicam isso. Um dos principais motivos se deve ao fato de que o crescimento da economia é lento e os processos produtivos muito burocratizados. A infraestrutura e a logística são deficientes, a educação e o treinamento da mão de obra, precários, e a qualidade dos novos entrantes na força de trabalho tem piorado ao longo do tempo. Ou seja: o capital humano tem piorado. A dotação do capital e o investimento no trabalhador crescem muito pouco. Difícil atribuir peso para cada um dos fatores individualmente, mas tudo isso conspira para que a produtividade cresça muito pouco. A produtividade também é baixa porque o Brasil ainda é um país em estado de desenvolvimento.

Imil: O que o país deve fazer para mudar este cenário?
Bonelli: Precisa mudar essas condições. Os empresários têm que estar dispostos a investir mais. Mas eles não vão fazer isso, a menos que vejam condições de demanda atraente no futuro. A própria institucionalidade da economia, as instruções precisam mudar para que a facilidade de fazer negócios seja maior e melhor. O que está ao alcance de quem tem o poder em mãos são os investimentos em infraestrutura. Por intermédio de concessões e privatizações, o governo começou a fazer pouco e muito tarde. O ideal seria que tivesse começado há mais tempo e com mais vontade, com uma direção muito definida, indicando claramente ao setor privado a estabilidade da regra do jogo e coisas do tipo.

Imil: Em quais setores o Brasil tem pior desempenho e em qual existe a chance de ter melhores resultados?
Bonelli: Pode melhorar em todos os setores. Alguns têm tido aumento de produtividade grande há muito tempo, como é o caso da agropecuária, outros estão mais parados. Em geral, os intermediários financeiros, os serviços de informação e alguns serviços prestados às empresas experimentam um aumento de produtividade. Mas são poucos setores, o problema é mais geral. Exceto a agropecuária, são setores relativamente pequenos em termos de emprego de mão de obra. Não vou dizer que eles vão muito bem, mas estão indo bem melhor do que os outros.

Imil: A baixa produtividade faz com que o país se torne menos competitivo. No livro “A agenda de competitividade no Brasil” é afirmado que o Brasil está construindo um planejamento de competitividade. Quais seriam as características dessa estratégia brasileira?
Bonelli: A agenda está em construção, mas ainda é muito embrionária. O livro foi lançado há dois anos e o que a gente assistiu neste período é que muito pouco foi feito. Então, na verdade, tem uma agenda ainda em princípio de construção. Os agentes econômicos já identificaram os pontos fracos para os quais deve existir alguma atuação do setor público no sentido de melhorar as condições de competitividade. Mas entre identificar e realizar é um longo passo.

RELACIONADOS

Deixe um comentário