Domingo, 11 de dezembro de 2016
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O ajuste fiscal é o caminho para sair da crise

A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, acredita que existe uma possibilidade de a economia brasileira seguir piorando. Dessa forma, ela diz que não é possível dizer se existe ou não exagero nos preços da cotação dos ativos, como do dólar e do risco País, por exemplo. “Os preços de ativos acabam antecipando uma probabilidade de um cenário mais preocupante se materializar.” Zeina passa ter um blog do no portal de Economia do Estado. Ela já colabora como colunista do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. A seguir os principais trechos da entrevista.

O Tesouro e o BC estão agindo nos últimos dias para conter a volatilidade. Há um exagero no comportamento do mercado?
Existe um grau de incerteza e risco na economia mais elevado. Os preços de ativos acabam antecipando uma probabilidade de um cenário mais preocupante se materializar. E ainda não dá para dizer que é exagero porque existe, de fato, uma possibilidade das condições continuarem piorando mais na economia brasileira. Claro que o Banco Central e o Tesouro têm os seus instrumentos para atuar em momentos de grande volatilidade. Agora, uma coisa é usar esses instrumentos para dar alguma referência e evitar a espiral de preços de ativos que acabam, às vezes, se autoalimentando e provocando um custo para o lado real da economia muito forte. Outra coisa é ter instrumentos que, de fato, mudem a percepção de risco da economia.

Na avaliação da sra. quais seriam esses instrumentos?
O instrumento é o ajuste fiscal. As ações do Tesouro e do BC são instrumentos de curto prazo. Não é exatamente uma estratégia de política econômica que possa ser perpetuada. O Tombini (Alexandre Tombini, presidente do BC) já disse que se for necessário pode usar reservas. O que ele quis dizer é que, se tiver um encolhimento de liquidez no mercado cambial e ameaça de fuga de capital, o BC pode prover liquidez e evitar um contágio financeiro forte no setor produtivo.

O câmbio é um ativo. Ele se move por expectativas. Se o BC vende reservas e o mercado começa a achar que foi além do que deveria, a política vai ser contraproducente e um tiro no pé. O resultado final da venda de reservas para acalmar o câmbio pode ser trazer mais insegurança e volatilidade.

Onde a sra. enxerga os riscos de piora na economia?
Houve uma reorientação importante da política econômica que interrompeu os erros dos últimos anos, mas ainda não é um ajuste fiscal que nos dê tranquilidade. O ajuste fiscal tem de cumprir o primeiro objetivo de ajudar a equilibrar a macroeconomia e trazer mais rapidamente a inflação para baixo e, preferencialmente, a ponto de o BC ver um espaço para corte de juros. Também é essencial tirar da frente a dinâmica ruim da dívida pública, que já começa a trazer um incômodo a ponto da S&P tirar o nosso grau de investimento. Infelizmente, se assim continuar, o País também vai perder o grau nas outras agências. E finalmente temos questões de longo prazo, de qual ação estatal vai promover o crescimento de longo prazo.

Quais os riscos para a economia se nada for feito?
Corremos o risco de olhar esse câmbio acima de R$ 4 e enxergá-lo não como exagero, mas como um novo patamar porque o risco da economia brasileira é maior.

A sra. acredita que as metas de superávit de 0,15% do PIB para 2015 e 0,7% do PIB para 2016 são suficientes para o sucesso do ajuste ou há outros riscos, como a questão política?
É a política que vai poder destravar a agenda fiscal. Uma coisa é entregar um resultado deficitário, mas ao mesmo tempo sinalizando que existem medidas sendo enviadas para o Congresso para reduzir despesas obrigatórias e a rigidez do Orçamento. Não é o déficit em si no curto prazo que preocupa, mas a ausência de perspectiva no longo prazo. E aí entra a questão da CPMF. Eu tenho alguma dificuldade com isso. O meu receio é que, a julgar pelo nosso histórico, toda vez que aumentamos a carga tributária houve uma certa leniência no esforço para cortar despesas.

Mesmo o governo afirmando que a CPMF é a única saída para evitar o rombo do ano que vem?
No final, pode ser algo negativo para o médio prazo porque o meu receio é que isso reduza o esforço para avançar na agenda de cortes de gastos obrigatórios.

A sra. enxerga alguma recuperação econômica?
Talvez, haja um carrego estatístico forte para o ano que vem. Pensando num carrego de 1%, o país precisaria ter um crescimento de 0,5% em cada trimestre, o que é pouco provável. Infelizmente, vai ser uma nova leitura (do PIB) negativa. Seria muito importante se houvesse uma reação da política e da questão fiscal para conseguir enxergar alguma reversão cíclica ao longo do ano que vem. A minha preocupação é que, conforme vamos demorando para chegar ao fundo do poço, o ambiente se torna perigoso, por isso volto para a pergunta inicial e, dessa forma, não dá para dizer que há exageros. Tem um círculo vicioso.

Como romper esse círculo?
Pelo ajuste fiscal. E o ajuste de preferência com qualidade, avançando nessas agendas de corte para acalmar e dar uma sinalização de estabilidade da dívida/PIB no médio prazo.

Esse é o caminho para sair da crise?
Eu não enxergo outro. Se houvesse um reviravolta no cenário internacional, claro que seria muito mais fácil. Seria preciso fazer um ajuste, mas não tão forte. Hoje, temos um mundo menos disposto a financiar países emergentes e o Brasil é patinho feio. O esforço que a gente tem de fazer é maior, e ter perdido o grau de investimento foi um erro grave porque piorou essa contaminação do quadro externo menos favorável.

Fonte: O Estado de S.Paulo.

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