Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
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Boa educação nem sempre exige mais dinheiro

O economista americano Eric Hanushek, de 72 anos, professor da Universidade Stanford, talvez seja o acadêmico que mais tenha influenciado as discussões sobre reformas educacionais nos Estados Unidos nos últimos 40 anos.

Seus estudos inovaram em três frentes. Primeira: com a tese de que investir mais em educação não necessariamente significa colher resultados melhores. “O que importa é como, e não quanto, se investe”, afirma.

Segunda: com a ideia de que, para melhorar o aprendizado dos alunos, nada é mais importante do que a qualidade do professor. E terceira: com a aplicação do conceito de valor agregado, típico da economia industrial, na avaliação do impacto dos educadores no aprendizado das crianças.

Nos últimos anos, Hanushek abriu uma nova frente de estudos: ele está se dedicando a mostrar que, na comparação entre países, o que importa não são os anos de estudo completados, mas a qualidade desses anos de estudo. Para ele, o que influencia o crescimento econômico é quanto de conhecimento formal foi adquirido, principalmente em matemática e ciências.

A ideia é polêmica, mas ajuda a explicar por que os países latino-americanos crescem pouco. “Na América Latina, as crianças vão para a escola mas não aprendem”, afirma. A seguir, trechos da entrevista concedida por telefone, de seu escritório, na Califórnia.

Exame CEO – Como o senhor começou seu envolvimento com a educação?
Eric Hanushek – Quando eu estava fazendo o doutorado no Massachusetts Institute of Tech­nology (MIT), havia um grande estudo do sociólogo James Samuel Coleman sobre o efeito da desigualdade social no desempenho escolar. A interpretação mais comum desse estudo era que as escolas não faziam muita diferença no aprendizado.
A única coisa que importava de verdade era a família e talvez um pouco o convívio com as outras crianças da escola. Esse estudo ficou muito popular e eu achava inacreditável que as pessoas julgassem que a escola não fazia diferença. Se esse fosse o caso, não deveríamos gastar tempo e dinheiro nos preocupando com as escolas. Então decidi focar minha tese em educação e acabei chegando a conclusões diferentes das de Coleman.

Exame CEO – Suas primeiras pesquisas sobre professores nos Estados Unidos são, portanto, do fim dos anos 60. Sua visão mudou de lá para cá?
Eric Hanushek – Nessa época eu fiz um trabalho com escolas de Los Angeles e comecei a ver que os professores eram muito importantes para o aprendizado. Diferenças na qualidade desses profissionais impactavam muito no aprendizado das crianças. Portanto, algumas das coisas que defendo hoje foram estabelecidas muito cedo na minha carreira. Fiz diversos estudos sobre a qualidade dos professores desde então e todos eles concluem a mesma coisa.

Exame CEO – Então, o que faz um professor ser bom?
Eric Hanushek – Não tenho a menor ideia! Não entendemos completamente o que faz um professor ser melhor do que outro, mas está claro que há uma diferença grande entre eles. Inclusive no Brasil, onde tive a oportunidade de fazer algumas pesquisas dos anos 80 para cá. Muitos pesquisadores, eu inclusive, buscam descobrir quais características fazem um professor ser bom e outro ruim, mas não me parece haver algo muito sistemático.
Isso me faz pensar que, em vez de nos preocupar sobre como capacitamos os professores ou que tipo de diploma eles têm, deveríamos nos preocupar se eles conseguem ensinar adequadamente os conteúdos. Por exemplo, é importante avaliar se os novos professores que chegam às redes são capazes de permanecer no trabalho ou se devem ser dispensados no período probatório.

Exame CEO – Mas como fazer essa avaliação?
Eric Hanushek – A avaliação precisa ser baseada na evolução do desempenho dos alunos de cada professor. Não pode ser feita por meio de uma prova para o docente porque não sabemos com clareza que tipo de conhecimento é necessário para melhorar o desempenho dos estudantes. Ter um professor que seja bom em matemática não significa que os alunos dele vão aprender matemática.
É preciso olhar o valor agregado de cada professor ao conhecimento de seus alunos. E isso é muito controverso, porque é puramente estatístico. Por isso, penso que deve ser combinado com algum tipo de supervisor ou avaliador externo que assista às aulas e faça uma avaliação mais humana também, que leve em conta o contexto da sala de aula. Seja como for, a avaliação do professor é um elemento crucial para fomentar educação de qualidade.

Exame CEO – Além do bom professor, quais são os outros determinantes para o aprendizado?
Eric Hanushek – Continuo achando que o fator mais importante é a qualidade dos professores. Mas a qualidade dos diretores também é muito importante porque eles determinam quem são os professores. Eles têm muita influência sobre quão bem esses educadores se saem em sala de aula. A gestão da escola e a pedagogia andam de mãos dadas onde há sucesso acadêmico.
Depois desses dois fatores, eu não consigo ver evidência suficiente para apontar outro determinante. Muitos dizem que o currículo ou o material didático fazem toda a diferença. Eu digo que um bom professor pode ensinar com qualquer currículo e com qualquer material didático.

Exame CEO – James Heckman, prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade de Chicago, escreveu no ano passado um livro no qual questiona a relação entre o desempenho dos estudantes em provas e seu futuro sucesso. O que acha da opinião dele?
Eric Hanushek – Acho que testes de conhecimento são fundamentais. Eles não capturam todas as dimensões do conhecimento, mas me parece que Heckman exagera ao criticá-los. Há outras coisas importantes além da nota que um indivíduo alcança em uma prova de conhecimento específico, mas é possível explicar muitas das diferenças de renda entre indivíduos dentro de um mesmo país por meio desses testes.
Também é possível explicar diferenças entre países em termos de crescimento econômico. Os países que recorrentemente se saem melhor nas avaliações do Pisa, o principal exame internacional de estudantes, também experimentam mais crescimento econômico. Sabemos que é importante quanto se aprende em disciplinas como matemática.
Existe uma hipótese, que é desenvolvida principalmente por Heckman, na qual há outras habilidades mais socioemocionais que também são relevantes (disciplina e perseverança, por exemplo). Concordo com a importância dessas habilidades que Heckman chama de não cognitivas, mas ainda não há boas maneiras de medi-las. E também não se sabe se é possível ensinar as crianças a desenvolvê-las.
É um campo de pesquisa muito interessante, mas neste momento seria imprudente focar as habilidades socioemocionais e dar menos atenção ao aprendizado de conteúdos tradicionais. Isso seria um erro enorme.

Exame CEO – Em sua opinião, quais foram suas maiores contribuições para o debate sobre a qualidade da educação?
Eric Hanushek – Acho que a primeira contribuição foi alertar para o fato de que o gasto com educação não está relacionado com o desempenho dos estudantes. Como você gasta os recursos é mais importante do que quanto você gasta. Acho que essa ideia modificou o debate mais do que qualquer outra coisa.
Focar os resultados, e não apenas os valores gastos. A segunda contribuição é o valor adicionado pelos professores e como medir a qualidade deles em sala de aula. A terceira são as pesquisas que tenho realizado sobre o crescimento pelo mundo e como o aprendizado afeta os resultados das nações —aumentando o PIB, por exemplo.

Exame CEO – Qual é a relação entre o aprendizado típico da escola e o crescimento econômico?
Eric Hanushek – Nações onde as pessoas são mais educadas conseguem aumentar sua produtividade ao longo do tempo. Hoje, há o consenso de que o capital humano é importante para o desenvolvimento econômico. Porém, historicamente, mediu-se a qualidade do capital humano com base nos anos de escolaridade das pessoas.
Essa medida é muito ruim, pois um ano escolar no Brasil não é o mesmo que um ano escolar nos Estados Unidos. Então, é preciso olhar para o que as pessoas de fato aprenderam. A inovação foi trazer a ideia de que usar medidas internacionais de desempenho em matemática e ciências é uma forma mais clara de relacionar educação com crescimento econômico.

Exame CEO – Quanto do baixo crescimento da América Latina se deve à baixa qualidade educacional?
Eric Hanushek – No longo prazo, quase toda explicação para o baixo crescimento da América Latina está na educação. O problema é que as pessoas vão à escola, mas elas não aprendem muito. Isso afeta diretamente o crescimento do país, e o caminho é aumentar a qualidade do ensino.

Exame CEO – No Brasil, parece que há duas discussões paralelas. Uma sobre a ampliação do acesso à educação, outra sobre a qualidade da educação. Em outros países, a discussão também costuma ser fragmentada desse modo?
Eric Hanushek – O Banco Mundial, com o programa Education for All, e a Organização das Nações Unidas, com os Objetivos do Milênio, pressionaram os países em desenvolvimento a resolver o problema de acesso e a garantir que todos estudassem por pelo menos oito ou nove anos. Acho que o erro dessas instituições foi não falar de qualidade ao mesmo tempo.
Estas obtiveram sucesso em colocar crianças na escola no mundo inteiro, mas em muitos desses lugares elas não estão aprendendo. A ONU e a Unesco organizaram o Fórum Mundial de Educação na Coreia do Sul neste ano e definiram os novos objetivos para 2030 e, de novo, deixaram de lado a qualidade para focar o número de anos de estudo que cada pessoa deve ter. Hoje, meu objetivo é colocar na pauta a qualidade do que se ensina.

Fonte: Exame, 24/9/2015

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