Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
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Castelar aponta maior depressão da história econômica brasileira

O economista Armando Castelar é capaz de apresentar uma análise detalhada sobre a atual crise econômica e política do país, ao mesmo tempo em que projeta seus desdobramentos em um futuro carregado de desafios para a sociedade brasileira. Os passivos que estão se formando agora na condução da política fiscal devem cobrar um preço alto mais à frente, na sua visão. Ao contrário das crises agudas do passado, desta vez não está presente o colapso do financiamento externo, o que retira o senso de urgência que poderia impulsionar reformas estruturais.

Coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Castelar não tem dúvida em afirmar que o país atravessa a maior depressão de sua história econômica documentada, desde o início do século 20. A prolongada queda no Produto Interno Bruto (PIB) terá um efeito corrosivo, a ponto de levar a uma década perdida, com a perspectiva de contaminar um período ainda mais amplo.

A conversa com o blog aconteceu antes da decisão de ontem da agência de classificação de risco Standard & Poor’s de impor um novo rebaixamento à nota de crédito brasileira. E da divulgação feita há pouco pelo Banco Central do Índice de Atividade Econômica (IBC-BR), que registrou uma queda de 4,08% no ano passado. São informações que tornam ainda mais sombrio o quadro econômico retratado por Castelar. Os principais trechos da entrevista estão a seguir.

– Qual sua avaliação sobre o quadro atual? Em que altura estamos da crise econômica e política no país?
A crise é bastante profunda. Temos uma inflação de dois dígitos, um PIB que caiu perto de 4% no ano passado e que deve cair mais de 3% este ano. Tivemos um milhão e meio de empregos com carteira assinada destruídos em 2015 e nossa avaliação é que, em 2016, serão 2,2 milhões a mais de empregos formais destruídos. Então, sem dúvida temos uma crise, entendida como uma forte contração, redução do emprego, inflação em alta, colapso do investimento, queda muito grande da confiança de empresários e consumidores. Está instalada no Brasil há bastante tempo e vai continuar aumentando e se aprofundando. Para se ter uma ideia, não temos em nossa história estatística documentada, que começa no início do século XX, nenhum outro episódio parecido em termos de queda do PIB. É a maior queda que já experimentamos no Brasil, se olharmos o biênio, o quadriênio ou o triênio.

– Maior do que na década de 30?
Sim. Se tomarmos o quadriênio 2014,15,16 e 17, levando em conta nossas projeções para este ano e o próximo, nunca se teve nada parecido. Mas, com certeza, se focarmos o biênio 2015-2016, também é muito pior do que na década de 30.

– Portanto, é o período de maior depressão da nossa história econômica?
Sim, sem dúvida. Trata-se de uma contração do PIB que não existe na nossa história, pelo menos desde o início do século XX, desde 1901. Mostra que é uma crise séria, com um aumento do desemprego que a gente deve ver com mais força neste ano do que vimos no ano passado. Mas também é uma crise estranha, em que se nota menos reação, em termos de política econômica.

– Falta um senso de urgência?
Não só não tem urgência, como também não tem muitas propostas. É um discurso muito geral de fazer uma reforma da previdência, enquanto pedaços do governo querem ir em diferentes direções, não há prazo para apresentar proposta… Está num nível em que pode muito bem amanhã sair no noticiário, sem qualquer compromisso.

– Assim como saiu a reforma trabalhista.
Exatamente. Não tem um cronograma, uma meta de que se vai produzir uma reforma para poupar 1% do PIB, por exemplo, daqui a dez anos, ou que tem um prazo de três meses para se ter uma proposta. Simplesmente são intenções muito gerais. Como eu disse, partes diferentes do governo apontam em direções distintas. Significa que nem internamente no governo há uma proposta concreta. Enquanto isso, o principal termômetro da crise hoje em dia, do ponto de vista dos economistas, é a dinâmica das contas públicas. E que se reflete, no final das contas, na dívida pública porque os déficits são muito altos, financiados via emissão de dívida. O resultado é que temos uma dívida explosiva.

– A questão fiscal é o centro desse processo que estamos vivendo?
A questão fiscal é onde vai explodir, vamos chamar assim. Isso porque, em tese, a economia pode continuar andando para trás, o desemprego pode continuar aumentando, mas a dívida pública não pode aumentar para sempre. As projeções apostam numa dinâmica muito rápida de expansão da dívida.

– Quais os números com que vocês trabalham hoje no Ibre?
Os nossos números para o final de 2017 apontam uma dívida bruta chegando a 82,1% do PIB. Para se ter uma ideia, no final de 2013, essa relação era de 51,7%. Ou seja, a dívida vem aumentando mais de 7% do PIB por ano, em média – uma trajetória que, se não for estancada, vai levar a uma crise em não muito tempo. E isso não é um segredo, vários economistas têm projetado essa dinâmica. A minha percepção é que o governo está esperando para ver se as coisas não explodem antes de acabar o seu período de mandato. Alguns investidores têm esperança de que, conforme as eleições presidenciais se aproximem, a perspectiva de mudança e reformas em um novo governo aquiete o mercado também. Mas ninguém sabe se vai dar para esperar. São duas dimensões diferentes. A economia vai continuar andando para trás, o desemprego continuará aumentando, de um lado, mas isso pode continuar por muito tempo. Na questão da dívida, ninguém sabe exatamente por quanto tempo ela vai poder continuar a crescer nesse ritmo sem que se tenha uma fuga de dinheiro, sem um agravamento rápido da crise.

– A que você credita esse comportamento do governo diante da crise? Há uma certa perplexidade?
O meu raciocínio é que tudo começa pelo político. O melhor cenário para o governo, do ponto de vista da sua colocação política, é não fazer nenhuma reforma que desagrade a sua base de sustentação tradicional de sindicatos, funcionários, e que também não tenha crise. Um cenário em que nada é feito, mas em que a situação também não explode, acaba sendo o ideal. O que se vê é que o governo por enquanto está administrando isso. A administração é feita em prazos curtos. Propõe alguma coisa, aí a data vem e nada acontece. Como ocorreu agora em fevereiro na questão do corte de gastos. Tem uma data, mas quando a data chega, diz que não vai ser agora, vai ser daqui a pouco e por aí vai.

– Mas três anos não é muito tempo para o país viver nesse ritmo?
É bastante tempo. Vai ser bem difícil, concordo com você, mas repare que não serão três anos, porque quando chegar 2018 todo mundo vai estar vivendo as eleições, a expectativa do novo governo. Obviamente, o cenário alternativo é o governo não conseguir o seu objetivo e a situação ficar ruim o suficiente para que as pessoas achem que tem de mudar. Mas é uma incógnita.

– Ou seja, trata-se de administrar uma situação precária.
Sim, mas não é uma administração econômica, é uma administração de discurso, seguindo uma lógica política. Se você tem um discurso em que não faz as reformas, mas não há uma explosão de descontentamento maior, fica com uma narrativa para as eleições de 2018. Acho que essa é a orientação principal. Você não faz, mas ao mesmo tempo acena para o mercado financeiro com datas, com linhas muito gerais e com isso vai se equilibrando.

– As reformas alterariam o modelo de Estado que o governo sempre defendeu politicamente? É isso que fricciona e paralisa o governo ao mesmo tempo?
Sim, obviamente são reformas que precisam mudar coisas que estão aí há muito tempo. O gasto público vem crescendo muito rapidamente há muitos anos, mas o governo atual gosta muito desse modelo, ele se identifica ideologicamente e politicamente com o modelo de expansão do gasto, por isso tanta resistência a fazer coisas que resolvam esse lado. Vemos sempre essa tentativa de aumentar imposto novamente. Mesmo que o aumento de imposto não resolva, dá o fôlego de um ano, dois anos, dependendo do aumento. Aí, o problema volta daqui a pouco. Temos uma situação muito complicada, porque não é só o governo federal. Estados e municípios também estão com muitos problemas. Em certo sentido é uma corrida. O problema está aumentando, a crise está aumentando. A pergunta é se vai aumentar rápido o suficiente para explodir na atual administração ou se a atual administração consegue ir levando as coisas de maneira que a explosão aconteça depois.

– Se fosse possível antecipar a discussão que certamente acontecerá em 2018, o que você acha que seria o ideal para o país encontrar caminhos e construir um futuro mais promissor?
Em primeiro lugar, é preciso ver a questão fiscal. Qual é o problema do país hoje em dia? O empresário vê que vai ser preciso uma mudança gigantesca, que a dívida está explodindo. O próprio consumidor olha e pensa que isso vai levar a um grande momento de mudança, aí ele espera também. Enquanto não se resolver a questão fiscal de uma maneira mais permanente, não haverá confiança. E sem confiança, não vai haver investimento. Portanto, é preciso resolver a questão fiscal. Mas é preciso resolver vários outros problemas. O ambiente de negócio no Brasil é muito ruim, há muita insegurança jurídica, faltam condições para investimentos em infraestrutura. É preciso criar condições para que o país cresça. O potencial de crescimento hoje em dia é muito baixo. É muito penalizado pela carga tributária alta e complexa, pelo risco político regulatório nessa estrutura enorme. Basta ver o setor de petróleo, com mudanças de regras a toda hora. É preciso realmente criar um ambiente para crescer.

– Como chegamos a esse ponto? Ou por que chegamos a esse ponto?
Essa ideia de prometer e não cumprir vem há bastante tempo. Há vários anos, vemos o ministro da Fazenda garantir no início do ano que vai ter um superávit, mas chega no fim do ano e nada daquilo que foi prometido acontece. O cacife de credibilidade foi sendo corroído. Coincidiu também com a questão do boom de commodities. Historicamente no Brasil o mau comportamento na política econômica acaba numa crise de financiamento externo. Mas isso foi evitado agora porque houve uma melhora muito grande no preço das commodities. Além disso, por força da crise financeira internacional, os bancos centrais de Estados Unidos, da Europa e do Japão imprimiram muito dinheiro, que também veio para cá. O governo conseguiu, pelo boom de commodities e pela entrada de capitais, fazer uma reserva internacional muito volumosa. Tudo isso evitou a crise externa.

– É um diferencial desse momento, não?
É um diferencial completo. Quando você olha o passado, o Brasil passou por crises muito menores do que a atual, como em 99 e 2003, e fez muito mais coisas. Na minha interpretação, o primeiro fator é que não houve agora a pressão externa. Além de contar com reservas, a própria recessão fez com que as contas externas melhorassem. O segundo fator que observamos, mas que ainda não conseguimos explicar integralmente, é que, apesar da forte contração no ano passado, o mercado de trabalho não piorou de maneira muito significativa. A taxa de desemprego aumentou bastante porque mais gente entrou no mercado procurando emprego. O nível de emprego e a renda, no entanto, não caíram de maneira significativa. As pessoas perderam vagas formais, mas conseguiram se realocar por conta própria, com empregos informais, mantendo a renda de alguma maneira. Isso foi um diferencial importante também. São fatores que diminuíram um pouco a urgência.

– O aumento da inflação não teria esse papel de pressionar por saídas mais rápidas da crise, já que afeta diretamente a vida das pessoas e cria um grande desconforto na sociedade?
É verdade, mas o rendimento real das pessoas praticamente não caiu. A inflação cria essa urgência ao corroer a renda, mas a verdade é que isso aconteceu muito pouco no ano passado. Parte dessa falta de urgência vem exatamente da ausência de pressão externa. A outra parte pode ser explicada pelo comportamento do mercado de trabalho. Em 2003, os salários colapsaram quase 13%. Foi uma queda muito mais forte de salários do que tivemos até agora. Em certo sentido, o governo conseguiu uma licença para errar muito maior do que teve em outros momentos.

– E usou todo esse espaço de erro?
Claro. Até certo ponto, continua usando. Vimos essa questão dos subsídios creditícios, por exemplo, o governo está novamente querendo ir por aí, criar passivos futuros via empréstimos subsidiados de bancos públicos. Na verdade, quem acompanha área fiscal vê que a situação vai explodir. Está rapidamente indo em direção à parede, que não vai sair do lugar. Mas o cidadão comum ainda não sente isso proporcionalmente ao tamanho do problema. E aí ajuda muito a forma da crise externa. Tem muito dinheiro rodando no mundo ainda, o que contribui para criar esse ambiente em que não há uma restrição de financiamento externo. Muito capital continua a entrar no Brasil e, portanto, dá mais licença para não fazer reformas, mais licença para errar. Se fosse uma situação com menos liquidez externa, provavelmente já teríamos de ter feito alguma coisa.

– A rede de proteção social reforçada nos últimos anos, e que também expandiu o gasto público, ajuda a explicar esse cenário?
Em parte, sim, ao criar um certo piso em termos de renda familiar. Mas também a questão do mercado de trabalho formal faz com que os efeitos da crise sejam mais lentos. A formalização do mercado de trabalho foi muito forte antes. Quem tem carteira assinada conta com seis meses de seguro desemprego, fundo de garantia. A pessoa ficou desempregada, mas pode ainda não estar sentindo a falta de renda. Nossos dados mostram que o número de famílias que recorre à poupança para pagar suas contas está aumentando.

– Estão queimando, digamos, uma pequena gordura que ainda resta?
Exatamente. A questão é a velocidade nesse processo. Pelo fato de ser formal o emprego, aumenta muito o custo de demissão. Empresas que estão sem caixa podem não demitir porque não têm dinheiro para pagar a multa de FGTS. Mas isso vai até o ponto em que uma empresa consiga se sustentar. Sempre existe também o risco de o investidor se apavorar com a dinâmica da dívida e resolver todo mundo sair. E esse enredo acabar de repente com uma crise grande de fuga de capitais.

– No atual ambiente externo, com queda de juros e excesso de liquidez, o Banco Central brasileiro pode recorrer ao corte da Selic para ajudar na questão fiscal?
É uma pergunta difícil porque sabemos que a nova matriz econômica não está esquecida, não existe um rompimento do governo internamente com esse modelo. Então, por uma questão ideológica, é totalmente possível. Não necessariamente o governo vai responder a um agravamento da crise com reformas pró mercado. Ele pode perfeitamente responder dobrando a aposta em políticas heterodoxas. É óbvio que esse é um cenário possível. No quadro atual, a tendência é o Banco Central não fazer nada. Até porque acho que ele não ganha nada em baixar os juros agora, dado que a inflação continua bastante forte. A nossa visão é que com a recessão forte em que o país vai continuar mergulhado, e com o aumento do desemprego, é difícil a inflação disparar. Também não acho que vai cair muito. A tendência é que fique nesse patamar bastante elevado, alguma coisa entre 8,5 e 10%.

– A perspectiva é caminhar no fio da navalha por mais tempo? 
O trabalho dos economistas hoje em dia, paradoxalmente, está feito. Vai ter um agravamento, uma questão fiscal muito complicada, o que significa, de um lado, que o sofrimento vai aumentar. Não há qualquer dúvida sobre isso. A pressão por fazer alguma coisa vai aumentar, mas não se sabe se vai aumentar o suficiente. A única alternativa, mas que honestamente acredito muito pouco nela, seria uma mobilização das classes empresariais, por canais totalmente democráticos, em favor de uma correção de rumos. Porque estamos falando de destruição de valor em empresas, de muito ativo que está sendo destruído e de muito mais que vai ser destruído.

– Se vamos ter nesse quadriênio a maior crise do PIB da nossa história documentada, como você disse, é possível saber como será a recuperação desse processo? 
Sabemos que vai ser mais difícil. Nas crises que são muito agudas, como a de 2008-2009, quando você voltou, a capacidade estava lá, preservada. Agora, estamos realmente falando de um processo de destruição de capacidade de produção pelo fato de ser um período muito longo. Destruição da capacidade do capital humano, do trabalhador que fica fora da força de trabalho por muito tempo, que tem mais dificuldade de voltar e produzir como antes. Ele precisa de um novo treinamento, precisa da socialização. Quem fica em casa sem trabalhar perde toda uma lógica da produção, depois é mais difícil se readaptar. O capital é a mesma coisa, vai se destruir muito capital nesse processo. Quando voltar, terá uma capacidade permanentemente menor. E com desafios gigantescos. O que fazer com a dívida pública, por exemplo. Isso vai gerar um ônus enorme. É uma crise que pode não explodir, mas que vai fazer o Brasil voltar muito tempo.

– Talvez mais de uma década?
Sem dúvida. A renda per capita do brasileiro no início da próxima década vai ser menor do que no início da década atual. É uma década literalmente perdida em termos de padrão de vida, mas que talvez tenha implicações até ao longo da próxima década por conta dessa destruição de valor que uma crise tão longa está provocando. A gente vê que o investimento simplesmente despencou. Se isso acontece, despenca a manutenção, a reabilitação, a troca de peças.

– O custo para o país pode ser, portanto, até mais alto do que se a crise tivesse provocado uma explosão? 
A vantagem da explosão é que ela força você a mudar de rumo, essa é a lição da experiência de 99 e de 2003, que foram crises agudas, mas que nos levaram a fazer reformas. Na crise de 99, resolveu-se a questão fiscal. Saiu-se de um déficit primário para um superávit primário, criou-se institucionalidade, avançando numa série de questões. Na crise de 2003, foram adotadas políticas responsáveis, com mudanças importantes na área de crédito e assim por diante. Então, sem uma crise aguda, como agora, também não se corrige o rumo. Eu me lembro muito da história do sapo dentro da panela de água. Em vez de você botar água fervendo, como foi na crise de 99 e de 2003, a água está quente e você está simplesmente fervendo o sapo devagarinho. As pessoas vão se adaptando enquanto a crise vai se aprofundando.

– O resultado final é pior?
Tenho certeza disso. Veja a situação da Petrobras, está sendo corroída. A situação dos estados e municípios está sendo corroída, a situação da dívida está sendo corroída. Então está se criando um conjunto de passivos. Se fosse uma crise aguda, você teria que dar uma resposta. É como uma pessoa que está doente. Se tem um choque, ela perde peso, faz exercício, leva uma vida mais saudável. Se vai corroendo aos poucos, quando reage, o organismo já está todo consumido. É muito mais difícil.

Fonte: “G1”, 18 de fevereiro de 2016.

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