Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Conheça a geração que não tem medo de mudança

Robert Safian é editor da revista norte-americana FastCompany. Há quatro anos, ele escreveu um artigo sobre pessoas que têm a habilidade de se adaptar rapidamente a um ambiente em constante mudança. Safian batizou esse grupo de “Generation Flux” (algo como Geração Mudança em português). Seu conceito de geração, ao contrário das gerações Y, Z ou millenials, não é limitado pelo ano de nascimento. Tem a ver com o comportamento que essas pessoas assumem na vida e no mercado de trabalho. Desde que Safian criou o conceito, já se passaram quatro anos. O mundo só ficou mais rápido e menos previsível. Portanto, parece que cada vez mais essa geração estará em vantagem para encontrar oportunidades. Neste mês, ele virá ao Brasil para participar do Fórum HSM de Liderança e Alta Performance.

O que é a Geração Flux?
São pessoas que estão bem preparadas para ter sucesso em um ambiente de constante mudança, que é como a nossa economia e o nosso mundo tem se apresentado. A Geração Flux não é definida pela idade cronológica, mas pela atitude e pela mentalidade. Por um desejo de se adaptar a condições mutáveis.

Desde que você publicou a primeira material sobre o assunto, algo mudou? Você continua pesquisando o tema?
O primeiro artigo saiu em 2012. Desde então, a velocidade das mudanças na nossa cultura apenas aumentou e há um entendimento que a antiga maneira de fazer negócios faz cada vez menos sentido. Nesse artigo, o foco estava nas pessoas que “construíam” habilidades que as tornariam mais adaptáveis e flexíveis. O segundo foi sobre o estilo de liderança que esse novo ambiente exige, o que inclui como gerenciar um negócio e maneiras diferentes de liderar uma equipe, abordagens necessárias para cuidar de um time mais flexível. A terceira história foi sobre essa ideia de motivação, de missão, de ter um propósito na sua empresa. Quando há tantas mudanças acontecendo ao mesmo tempo e cada vez mais estímulos externos, torna-se mais difícil saber o que fazer. E os indivíduos e organizações precisam ter uma filosofia, um propósito, para serem capazes de determinar a quais mudanças precisam se adaptar – e quais deixar passar. É claro que não podemos nos adaptar a cada reviravolta. Temos que ser conscientes e fazer escolhas.

É possível se tornar um membro da Geração Flux? Há ferramentas que permitem a alguém fazer parte desse grupo?
Sim, você pode aprender a ser mais como a Geração Flux. Mas não é algo que está dentro de todo mundo, é mais fácil para uns do que para outros. Há quem pense que quanto mais jovem você é, melhor, mas não é sempre assim. Para alguns jovens, é um desafio se tornar uma pessoa mais adaptável; e há pessoas mais velhas, com maior experiência, que desenvolvem essa capacidade. Eu costumo fazer um paralelo entre a capacidade de se adaptar e o surfe. Você precisa ir no embalo da onda, não lutar contra ela. É um aprendizado entender como surfar e reconhecer que, às vezes, a onda vai quebrar e você será pego de surpresa. Então, todo mundo se molha quando surfa. Mas quanto melhor você surfar, mais vai se divertir. E nisso tudo pode desenvolver um equilíbrio para lidar com as condições adversas.

Então tem a ver com não desistir diante do primeiro desafio?
O mundo em que crescemos e as estruturas das empresas não nos preparam para um mundo em evolução. Quando vamos para a escola, todas as cadeiras ficam enfileiradas. Quando pensamos na estrutura corporativa, há uma hierarquia estática. Essas estruturas são feitas para nos deixar mais confortáveis e quem passa muito tempo operando sob esse regime pode se sentir desorientado quando está em um sistema menos estruturado, com menos ordens. Pertencer à Geração Flux tem a ver não apenas com capacidades práticas, mas emocionais. Se você é mais resiliente e se adapta a mudanças pode aproveitar as oportunidades que surgem ao invés de brigar com elas.

A resiliência é uma palavra bem popular hoje em dia. Ela é um elemento essecial dessa geração?
É um elemento essencial para todos nós. Precisamos entender que as coisas não acontecerão do jeito que planejamos. Aliás, temos de entender que em princípio as coisas não vão sair do jeito que esperamos. Observando a carreira de pessoas bem sucedidas ou a história de negócios bem sucedidos, pode parecer que é uma trajetória em linha reta, mas quase nunca é o caso. Quando você olha para trás enxerga a linha. Mas quando está olhando para a frente não sabe exatamente para onde está indo, não é mesmo? É fácil dizer “é assim que eu cheguei aqui”, mas isso não quer dizer que outra pessoa chegará ao mesmo lugar em outro momento. As pessoas me perguntam: quais as lições da Apple? Como posso ser mais como a Apple? Ou como Steve Jobs? A verdade é que o que funcionou para Steve Jobs pode não funcionar para outras pessoas; o que funciona para a Apple pode não funcionar para outras empresas. E mesmo o que funcionou para Jobs e para a Apple em um determinado momento poderia não ter funcionado em outros tempos. E é isso que nos deixa tão inseguros. Queremos regras. Como na escola: se você ler esses livros e estudar esses tópicos vai passar na prova, conseguir uma boa nota e se formar. Mas na vida real e nos negócios não é assim que funciona mais hoje.

E as empresas valorizam esse tipo de funcionário, que corre mais riscos e se adapta com mais facilidade?
Sempre dizemos que há companhias aceleradas e setores acelerados de empresas lentas. Em toda organização, algumas pessoas abraçam a ideia da mudança. Há gente assim em todas as áreas. Como indivíduos, precisamos entender qual nosso papel na empresa. Você pode ser parte desse grupo acelerado. É um trabalho desafiador. E é preciso saber se a organização valoriza suas contribuições. Há empresas que querem ser mais rápidas e valorizam aqueles que têm esse estilo. Mas há companhias que sofrem com isso e não querem se mexer. Aí, a melhor opção pode ser pedir as contas e procurar uma cultura ou um grupo que aprecia suas habilidades e suas attitudes. a sintonia existe quando as empresas realmente conseguem fazer algo especial.

Então, a Geração Flux não é composta somente de pessoas independentes ou empreendedores – elas também estão em grandes empresas?
Você pode ser um empreendedor dentro de uma grande empresa. Conheci o CEO da Under Armour, Kevin Plank, uma empresa que hoje tem 14 mil funcionários. Plank começou a empresa sozinho no porão da casa da avó e ainda se sente um empreendedor. Ele quer que todos em sua empresa sejam empreendedores. É um desafio manter um senso de comprometimento com tantos funcionários. Mas ele está tentando e cada vez mais as grandes empresas entendem que precisam disso. E precisam da liderança certa, que reconheça, valorize e recompense os funcionários com essa atitude.

Como um líder deve se comportar para manter esse grupo motivado?
Quando escrevi o segundo artigo sobre Geração Flux, a questão central que queria estudar era como uma organização opera de maneira flexível. Assumi inicialmente que tudo seria de baixo para cima, que um grupo de funcionários seria mais importante que um líder. Mas o que concluí é que o líder é mais importante do que nunca nesse tipo de organização. Ele cria o ambiente que permite a circulação de ideias. A noção tradicional do CEO da empresa no canto do escritório e mexendo os pauzinhos para fazer com que as coisas aconteçam – o famoso comando e controle – desencoraja o empreendedorismo e a iniciativa das pessoas para resolver problemas e fazer com que a empresa se mexa. A liderança de uma empresa que quer ser dinâmica precisa empoderar e encorajar os funcionários. O CEO da Nike sempre comenta sobre o risco do sucesso. Quanto mais bem sucedido você é, mais acredita que descobriu a fórmula. E quando ele percebe que a Nike está adotando essa perspectiva, vai lá e cutuca. O ponto fraco do sucesso é acreditar que você já entendeu tudo. É aí que você fica vulnerável. E você precisa achar um jeito de melhorar todos os dias.

O líder, portanto, precisa encorajar os funcionários a se questionarem constantemente?
O líder precisa criar um ambiente em que seja possível questionar, achar soluções e ser ambicioso sobre os planos em relação à empresa. Qual é o futuro que queremos criar juntos? Quando há um consenso sobre essa direção, todos precisam fazer sua parte.

É fácil falar de Geração Flux e ter em mente startups e empresas do Vale do Silício. Mas os governos, por exemplo, mudam muito mais lentamente. Você já se deparou com a Geração Flux na política?
Nossa perspective na FastCompany é que as empresas são o veíuclo de mudança no mundo, ou pelo menos nos Estados Unidos. Gostaríamos que o governo tivesse um papel maior ao encorajar essa disposição, mas ele tende a ser mais reativo. Tive a chance de falar com o presidente Barack Obama no ano passado e ele reconheceu que o governo corre um risco maior conforme o tempo passa e ele fica para trás em termos de tecnologia. Ao mesmo tempo, empresas têm ideias que nem sequer foram consideradas por reguladores e legisladores, como Uber e Airbnb. E elas preferem pedir perdão do que pedir permissão. O governo diz que quer encorajar novos negócios porque eles criam emprego e geram imposto. Mas novos negócios com modelos antigos são fáceis de implantar. O desafio é criar novos negócios com novos modelos.

Fonte: “Época negócios”, 9 de maio de 2016.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.