Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Década perdida?

Não é exagero afirmar que o economista e cientista político Marcos Troyjo é, hoje, um das vozes mais ouvidas no mundo quando o assunto é BRICS. Sua agenda de viagens internacionais costuma levá-lo a falar sobre relações internacionais, mercados emergentes e inovação tecnológica em mais de 20 países por ano. Troyjo é fundador e diretor do BRICLab, um fórum sobre governança global num dos principais centros de conhecimento do mundo, a Universidade Columbia, em Nova York. Na instituição, ele leciona relações internacionais e políticas públicas.

Colunista da Revista VOTO, Troyjo também assina coluna semanal na Folha de S. Paulo, além de colaborar regularmente com a CNN en español e o Financial Times. Sua atividade acadêmica também inclui responsabilidades como pesquisador-associado do CEAQ-Sorbonne, em Paris, e como professor-visitante da Academia Nacional Russa de Economia e Administração, em Moscou. Suas análises e habilidades negociadoras – características típicas daqueles que unem o mundo do saber com o mundo do fazer – são demandadas cada vez mais por empresas e entidades do terceiro setor. Tanto no Brasil quanto no exterior.

Diplomata de carreira – embora tenha deixado o Itamaraty para atuar na academia e no setor privado –, Troyjo conhece bem os meandros da ONU, onde serviu por quatro anos. Seus grandes interesses, contudo, residem na geoconomia, estratégias de desenvolvimento e no papel do Brasil no mundo. Enquanto prepara seu novo livro, “A chegada da reglobalização”, a ser publicado no segundo semestre de 2015, Troyjo conversou com a Revista VOTO sobre os grandes desafios do país no cenário internacional.

 Como o senhor analisa a última década do Brasil ? E os investidores estrangeiros como nos veem hoje?

Passamos de uma situação onde havia grande entusiasmo, uma verdadeira “brasilmania”, para um certo desapontamento com o país. Sobrevém um amargor na boca quando o termo “recessão” aparece na tela do radar que o mundo direciona ao Brasil. O impacto negativo dos erros da última década convida à noção de que o país está em meio a uma nova década perdida. Hoje, o desperdício de nossas potencialidades associa equívocos econômicos aos de política externa numa combinação que deprecia o respeito pelo Brasil. Se fecharmos a atual década com expansão média anual de 2%, nem de perto nos desvencilharemos da armadilha da renda média. Em paralelo, é frustrante continuarmos a assistir a grandes mercados emergentes arremeterem.

É claro que temos de voltar rapidamente ao chamado “tripé” de metas de inflação, responsabilidade fiscal e uma taxa de câmbio livremente flutuante

Quais, por exemplo?

Indonésia, Índia e China esperam crescimento anual superior a 6% no intervalo 2015-18. No período, estimativas realistas projetam o Brasil com expansão média 1,5 % abaixo da economia mundial. Ouve-se com frequência do governo brasileiro, no que só pode ser alusão à Europa, que poucos estão crescendo. Uma coisa, porém, é o desempenho estacionário da zona do euro, onde a renda per capita é de US$ 35 mil. Outra é empacar com um terço disso, como o Brasil, ainda nos verdes anos do bônus demográfico. Nesse ritmo, é grande o risco de ficar velho antes de se tornar rico. Nações desperdiçam anos quando não crescem, não têm desempenho à altura de seu potencial. Mas uma década só é realmente perdida quando um país nada aprende com ela. Vivemos uma confluência de todos esses fatores. Tomara que desta vez o passado – e o presente – nos ensinem algo para o futuro. Apesar de tudo, existe uma imensa boa vontade com o Brasil da parte de investidores e parceiros comerciais. Ainda somos o segundo maior mercado emergente. Nossas potencialidades – agronegócio, ativos energéticos, empreendedorismo e economia criativa – são reconhecidas por todos.

Quando se coloca o ambiente empresarial brasileiro sob análise? No que é possível melhorar já no curto prazo?

As lições da história econômica das últimas décadas ensinam claramente que aqueles países que buscaram a internacionalização tiveram mais êxito do que os atrelados dogmaticamente a seu mercado interno. Cabe ao Brasil aprender essa lição. Para esse objetivo, além das reformas trabalhista, previdenciária e tributária, há um “quarteto” de prioridades: facilitação da legislação interna para abertura de empresas de vocação exportadora; ênfase nos aspectos logísticos de projetos a serem contemplados pelas PPPs (parcerias público-privadas); formação de recursos humanos especializados, no âmbito do setor privado, para a promoção comercial no exterior e a atração de IEDs (investimentos estrangeiros diretos), e fortalecimento da presença das micro e pequenas empresa mediante consórcios exportadores. Eis os primeiros, e elementares, passos rumo a uma melhor ambiente empresarial.

O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos já se mostrou muito mais promissor do que atualmente. O que, de fato, aconteceu nos últimos anos? Ainda existe espaço para expandir a cooperação entre os dois países?

Brasil e EUA deveriam constituir o eixo central de poder e prosperidade nas Américas. É verdade que estivemos muito afastados nestes últimos doze anos. No entanto, forças conjunturais empurram os dois países a uma reaproximação. Apostas da política externa brasileira mostraram-se infrutíferas. O Mercosul à deriva e o acordo com europeus ainda incerto. O declínio do preço dos bens primários mundo afora compele o Brasil a alternativas comerciais. É no mercado americano que podemos ancorar revigorada receita exportadora. Para os EUA, é impossível subestimar o Brasil – segunda maior democracia do Ocidente e segundo PIB das Américas. Washington está tomando um baile da China na Ásia, para onde supostamente migraram seus grandes interesses estratégicos. A adesão de tantos aliados tradicionais dos EUA ao banco de infraestrutura liderado por Pequim convida Washington a olhar novamente para a América Latina, onde a China também estabeleceu forte cabeça de ponte. O potencial cooperativo entre Brasil e EUA é imenso, não importa para onde se olhe, nos investimentos ou no intercâmbio tecnológico, no turismo ou nas Nações Unidas. O caso do comércio ilustra bem o ponto. Hoje o Brasil vende US$ 25 bilhões ao ano para os EUA. A China exporta anualmente aos americanos 20 vezes mais. Precisamos, no mais alto nível, afirmar nossa predisposição a trabalhar por um tratado comercial com os Estados Unidos, seja bi ou plurilateralmente.

O episódio da espionagem americana a diversos outros países poderia ter sido melhor aproveitado pelo governo brasileiro? 

Entendo que sim. Infelizmente, o desperdício de potencial é marca das relações governamentais Brasil-EUA. Na medida em que nenhum tema de relevo encontra-se na pauta bilateral, o peso relativo do episódio da espionagem foi hipertrofiado. O Brasil, em vez de aproveitar a barbeiragem americana para obter vantagens ante a maior economia do planeta, preferiu ficar de mal. O episódio atrasou o que poderia ser ambiciosa agenda de comércio e investimentos.

Em artigo recente, o senhor comenta que a credibilidade da economia brasileira está profundamente dependente do ministro Joaquim Levy, uma espécie de bastião da moral e da confiança do Estado perante o mercado. Depois de feito o ajuste fiscal, o que se pode esperar?

Dada a gravidade da situação econômica do país resultante de tantos erros, Dilma viu-se compelida a montar um novo time de composição mais ortodoxa. Desse processo alimenta-se uma forte tensão entre continuidade e mudança. O hiato, por um lado, entre o discurso do “mais do mesmo”, “não há nada errado” que os gurus do marketing deram à voz de Dilma durante a campanha e, por outro, os imperativos da realidade econômica que não abrigam ilusões, obrigou-a a mudar o curso macroeconômico. Tal inflexão é agora uma das principais causas de disputa em sua própria base de apoio político. Essa divisão, que durante a eleição separou Dilma da oposição, migrou vigorosamente para discussões sobre como seu segundo mandato deve desenrolar-se. O titular de Dilma 2.0 no Ministério da Fazenda aplica doses maiores de ortodoxia e transparência na gestão macroeconômica. Faz todo o possível para eliminar vestígios da ”nova matriz econômica” de Dilma e a contabilidade criativa que tanto marcou seu primeiro governo. Torço para que Levy vá além da gestão quotidiana da economia. A macroeconomia por si só não vai moldar um futuro melhor para o Brasil. É preciso ir além da política econômica e reajustar também a economia política.

Já se pode ver um caminho mais claro a ser trilhado?

O Brasil está desprovido de qualquer plano estratégico para enfrentar o surgimento de um novo ciclo na globalização — marcado por novos acordos comerciais e de investimento, uma China intensiva em tecnologia e uma economia globalmente interdependente baseada no conhecimento. Se deixados a si mesmos, Dilma e o PT certamente tentariam continuar a reavivar o crescimento do Brasil por meio do incentivo ao consumo interno, a oferta de benefícios fiscais pontuais a setores industriais favorecidos e a realização de cortes seletivos em impostos sobre o trabalho aqui e ali. Bancos oficiais e empresas estatais continuariam a ser usados como instrumentos para a promoção (protecionista) de conteúdo local, na esperança de gerar empregos e receitas fiscais — a um custo muito pesado para os consumidores e contribuintes brasileiros. Mas, da mesma forma que os mercados podem afastar as políticas macroeconômicas de Dilma das aventuras experimentalistas do passado recente, fracassos e escândalos na economia política atual podem ajudar a aproximar o país de um ambiente pró-negócios, mais orientado para o mercado.

Nesse contexto, a energia é uma questão fundamental. Que paralelo se pode traçar entre a matriz energética brasileira e a dos demais países dos BRICS? 

Esse é um tema central, pois não será possível recolocar o Brasil no bom rumo do setor energético sem algumas escolhas estratégicas, que, por definição, implicam sacrifícios no curto prazo. A Rússia é uma das maiores produtoras mundial de petróleo e gás o que não lhe posta problemas energéticos no horizonte. A China trabalha cada vez mais por modalidades múltiplas de energia para seu gigantesco parque econômico. Os chineses “clonaram” muitas das experiências brasileiras na construção de hidroelétricas, são atualmente os maiores importadores de petróleo do Oriente Médio, e o país que mais investe em energia eólica e fotovoltaica no mundo. No caso da energia solar a liderança chinesa é particularmente marcante, pois a China investe mais no setor do que todos os outros países do mundo juntos. Além da China ter firmado um acordo de fornecimento estratégico de gás com a Rússia no ano passado – acordo cuja negociação se arrastava há 10 anos e foi tornado possível graças a necessidades russas de ampliar parcerias alternativas por conta das sanções que vem sofrendo do Ocidente em razões de sua anexação da Crimeia e que remonta a meio trilhão de dólares. A Índia tem se beneficiado imensamente do petróleo barato e essa é uma das razões do grande entusiasmo que hoje se tem pela Índia nos mercados internacionais. O acesso mais barato à conta energética fará com que a Índia neste ano tenha crescimento percentual de sua economia superior ao da China. Além privilegiar indústrias mais centrais ao esforço brasileiro de agregação de valor, é fundamental o redimensionamento da equação “custeio x investimento” no destino dos recursos.

No final do segundo mandato de Lula, o Brasil chamava a atenção com as grandes expectativas do pré-sal. O que de fato se pode esperar da exploração de petróleo no País no médio e longo prazo – e, no limite, no próprio setor energético do País?  

Até há pouco tempo, o Brasil era considerado candidato à superpotência energética. Fomos pioneiros num programa de energias alternativas, particularmente o biocombustível, o que resulta num país no qual de cada 10 automóveis 8 se movimentem com algum tipo de motor flex. Aumentamos nosso perfil como produtor de petróleo – e a descoberta das reservas do pré-sal prenunciavam um país que poderia chegar à produção de 6 milhões de barris/dia em 2020. Nossa rica bacia hidrográfica também conferiu vantagens comparativas para a instalação de usinas hidroelétricas. Para não falar de nosso imenso potencial na geração eólica e na fotovoltaica. Nosso problema não é potencial, mas gestão e estratégia. Há tempos não geramos a poupança necessária para investimentos maciços na infraestrutura energética. Estamos apenas investindo 16% do PIB, quando a média dos países emergentes já é de 28%. Misture-se a isso equívocos na política de preços – que tanto prejudicou a Petrobras e, paralelamente, as usinas de biocombustíveis. O mesmo em relação aos preços da energia elétrica. Há também mudanças no panorama mundial da energia, com a atenção voltando-se, por exemplo, à ascensão dos EUA como potência autônoma e exportadora de energia. Por todas essas razões, o Brasil, suas empresas e cidadãos, acabam arcando com o sobrepreço de erros administrativos. Resgatar o planejamento do setor energético é a principal ordem do dia. Nesse setor, a falta de profissionalismo e ausência de estratégia machucam muito mais do que choques externos ou caprichos sazonais.

Que conselhos o senhor daria a presidente Dilma? 

É preciso um choque de confiança. Será difícil restaurar os níveis de 2010, quando a economia do Brasil cresceu 7,5%, apenas melhorando a política macroeconômica. Para a estrela do Brasil voltar a brilhar, ela deve fazer mais do que contar com uma equipe de competentes gestores financeiros. Ela deve enfatizar a mudança sobre a continuidade na concepção das políticas para além da macroeconomia. A economia brasileira é uma das menos abertas ao comércio e seu nível de investimento como percentual do produto interno é o menor entre as dez maiores economias do mundo. A taxa de poupança brasileira é de apenas 15% do PIB, aproximadamente. Mesmo sendo um país com potencial amplamente reconhecido como economia criativa, o Brasil direciona apenas cerca de 1% do seu PIB à pesquisa, desenvolvimento e inovação. Apesar de contar com uma sociedade vibrantemente empreendedora, o Brasil está embaraçosamente classificado no 120º lugar entre 189 países de acordo com o Relatório Doing Business do Banco Mundial.

Pelo que se pode perceber, é preciso ir bem além das medidas de gestão macroeconômica, não é isso?

Exatamente. É claro que temos de voltar rapidamente ao chamado “tripé” de metas de inflação, responsabilidade fiscal e uma taxa de câmbio livremente flutuante. Mas também haveria que demonstrar vontade política para trabalhar em reformas estruturais, que devem ser a principal prioridade do país no biênio 2015-2016. Isso também vale para a política externa em temas econômicos. O Brasil deve se envolver na negociação de acordos dinâmicos de livre comércio — sem as camisas de força impostas pelo Mercosul – com os EUA, a União Europeia e os países da Aliança do Pacífico, México, Colômbia, Peru e Chile. A ineficácia do primeiro mandato de Dilma pesa sobre as perspectivas para o futuro próximo do Brasil. Mas as circunstâncias podem desempenhar algum papel construtivo no impulso para uma macroeconomia sólida, uma abordagem mais interdependente para a política externa e, pelo menos, o início do trabalho político por reformas. Embora as chances dessa combinação virtuosa de fatores serem baixas, elas existem. Se elas entrarem em jogo, o Brasil passaria por uma espécie de “efeito arco-íris”: o impacto dos ajustes difíceis, mas necessários, seria mais do que compensado por um sentimento positivo de que o motor de crescimento do Brasil pode novamente rodar forte.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi convencido por algumas das mais ricas famílias do Brasil a dar “aulas de política” aos seus herdeiros. O objetivo é fazer com que estes jovens sejam protagonistas, e não apenas espectadores na cena política brasileira. Bem-sucedido, o curso está na segunda turma. Em sua visão, havendo a inclusão de jovens de outras classes sociais, esse tipo de ação poderia representar uma espécie de renovação do País?  

A iniciativa é brilhante, pois hoje temos a clara percepção de que há uma corrida global por talento – algo tido como sinônimo de vocação. Cabia desenvolver aptidões naturais ou nichos. Idealizávamos indivíduos “especialistas”. Em 2008, Malcolm Gladwell popularizou em Outliers, seu best-seller de alta vulgarização sobre o DNA do sucesso, a “regra das 10 mil horas”. O talento emergiria da devoção de tal estoque de tempo a atividades tão distintas como tocar violoncelo ou programar computadores. Quanto mais cedo começar, melhor. Dessa disciplina surgiram Yo-Yo Ma e Bill Gates. A reglobalização que agora chega prenuncia a pós-especialização. Em 2009, computação em nuvem, tablets e seu ecossistema de aplicativos eram incipientes. Hoje permitem um atalho da história. É possível compactar as 10 mil horas. Novas tecnologias catalisam talento. Assim, as pessoas têm de ser multifuncionais e complexas. Engenheiros precisam escrever bem e advogados tem de saber fazer contas. Já existem métricas para delinear essa nova Era do Talento. Harvard elaborou um “Atlas de Complexidade Econômica”. Avalia o impacto do talento (ali chamado de know-how) sobre renda e crescimento. Não importa o número de horas-aula a que foi exposto determinado aluno, mas o que consegue fazer pragmaticamente com o que aprendeu.

Ou seja, o talento deve se aproximar mais da atitude empreendedora?

Sim, existe uma relação umbilical entre as duas coisas. O Insead, por exemplo, formulou um “Índice de Competitividade do Talento Global”. Na pesquisa, que envolve 103 países e 96% do PIB mundial, o Brasil ocupa a 59ª posição. As razões do fraco desempenho extrapolam o ensino deficiente ou o PIB destinado à inovação (apenas 1%). Estatismo, baixa conexão a mercados globais, predileção de jovens por concursos públicos e a mentalidade vigente na maioria das universidades brasileiras de não “submeter-se à lógica do mercado” são inibidores de talento. Surge assim um duplo desafio. Se falamos em parâmetros além das 10 mil horas, que dizer dos que, no início da idade adulta, sequer têm mil horas de foco em aptidões? Os brasileiros nascem com expectativa de viver 75 anos. Sem o potencial do talento, terão pouca utilidade à economia do conhecimento. Serão contudo “úteis”, e durante bastante tempo, ao tráfico de drogas, à pirataria e às manifestações mais virulentas do lumpesinato urbano. E, na ponta mais sofisticada, o Brasil tem de alimentar sua elite de talentos para que ela própria não seja crescentemente marginalizada da redefinição dos rumos globais.

Fonte: Revista Voto.

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