“Dilma precisa fazer o ajuste acontecer”

Fazendo um paralelo entre o Brasil do início dos anos 2000, quando ingressou na diretoria do Banco Central, e o país hoje, o economista Alexandre Schwartsman está mais tranquilo em relação ao câmbio. Não acredita que a o dólar possa bater em R$ 4, como ocorreu às vésperas da vitória do PT, em 2002.

Ele se mostra mais preocupado com a inflação, que agora vai exigir medidas mais duras e adiar a retomada do crescimento. Apesar de lá atrás a inflação ser quase o dobro da atual, a solução do problema era mais simples. “Foi resolvida a partir do momento em que se mostrava que o governo sabia comer de garfo e faca: não era um bando de bárbaros que estavam tomando o governo”, lembra.

Conhecido pelo tom ácido e objetivo de suas análises, ele não poupa críticas aos que, na sua avaliação, “cuidadosamente” levaram à piora do cenário econômico, especialmente a presidente Dilma. “(A questão) é se a presidente vai sair da posição em que está e fazer alguma coisa para esse negócio (o ajuste) acontecer. Ela não tem feito rigorosamente nada.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O Estado de S. Paulo: Há clima para fazer o ajuste fiscal?

Alexandre Schwartsman: Está ficando claro que o Joaquim Levy (ministro da Fazenda) não vai conseguir tudo que queria, 1,2% (em proporção ao Produto Interno Bruto). Tem alguma coisa como R$ 24 bilhões que dependem do Congresso. Com o clima que temos hoje, não fará tudo. Mas há um forte grau de certeza de que vamos ter alguma melhora nas contas primárias.

O Estado de S. Paulo: Menos quanto?

Schwartsman: Algo como 0,7% ou 0,8% do PIB. Mas, se ele conseguir fazer dois terços do que quer, é um sucesso. Primeiro, ele saiu mais atrás do que imaginava. Ficou algo como 30 metros atrás da linha de partida que inicialmente esperava. O déficit do ano passado foi muito maior do que o previsto. Agora, a arrecadação está vindo mais fraca do que se imaginava.

O Estado de S. Paulo: Se perceber que não vai cumprir a meta, seria o caso de revê-la ou mesmo que cumpra menos do que prometeu será o suficiente para dar mais credibilidade às contas públicas?

Schwartsman: Jogar a toalha agora seria pior. Ele ainda tem a credibilidade de estar tentando. Mas a questão não é se o Joaquim vai ou não entregar a meta. É se a presidente vai sair da posição em que está – confortavelmente escondida atrás do Joaquim – e fazer alguma coisa para esse negócio acontecer. Ela não tem feito rigorosamente nada. Se o custo dessa política ficar muito elevado, ela pode, no balanço das coisas, dizer: ‘não, isso não vale a pena fazer. Joaquim, obrigada e tchau’. Isso é muito mais grave do que ter ou não um número perto ou não de 1,2%.

O Estado de S. Paulo: Quando ela esboçou apoio ao ajuste, provocou uma reação contrária muito forte. O fato de o Levy liderar o processo não é até melhor neste momento?

Schwartsman: O problema é que ela não assume os erros. Fez um discurso pedindo paciência, jogando a culpa no resto do mundo. É óbvio que a culpa não é do resto do mundo. A culpa está relacionada ao padrão de política econômica que vigorou nos últimos quatro anos. Quem manda e sempre mandou no governo é a presidente da República. Aquele negócio veio dela, da cabeça dela. O fracasso da nova matriz – o crescimento baixo, a inflação elevada e o desequilíbrio externo – não foi uma coisa que caiu do céu sobre o Brasil. Foi cuidadosamente produzida aqui. Agora a presidente, em momento algum, vai a público para dizer: erramos e vamos corrigir. Fala do mundo. Mas desculpe. De 2011 para cá, o mundo melhorou. Conclusão: ela não se arrependeu do que fez. Não esqueceu nada e não aprendeu nada: é a nossa presidente Bourbon (numa alusão à dinastia Bourbon, derrubada pela Revolução Francesa, que, segundo se dizia, não esqueceu nada e nunca aprendeu nada).

O Estado de S. Paulo: Piora quando a presidente chama a atenção do ministro em público, como quando Levy criticou a desoneração da folha de pagamento?

Schwartsman: Neste ponto, parece que foi até um bom sinal. Pelo que dizem da presidente, em condições normais, ela teria rasgado a garganta do Joaquim com os dentes. Ele conseguiu sair disso só com um tapinha na mão. Isso mostra que o prestígio dele está relativamente elevado. Quando ele chamou a desoneração de “brincadeira”, chutou o balde. Mas, apesar de ser uma mera força de expressão, é a pura verdade. Dizer que a política econômica do Mantega foi “grosseira” é um julgamento de valor – aliás, um julgamento de valor absolutamente correto. A política do Mantega foi grosseira mesmo.

O Estado de S. Paulo: Eles estão revertendo toda a ‘nova matriz econômica?

Schwartsman: Algumas coisas sim, outras não. Estamos vendo um esforço para reconstruir o superávit primário. O Banco Central está menos intervencionista. Mas o padrão de intervenção do governo na economia não parece ter sido revertido. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) recebeu um aporte no fim do ano passado e ainda está fazendo política industrial. O governo abriu mão de intervir nos preços dos combustíveis mais por necessidade do que por convicção. Não parece nem um pouco preparado, por exemplo, para mudar o modelo de exploração de gás e petróleo, mesmo com a Petrobrás como está. No que se refere ao micro, ainda temos um governo pesadamente intervencionista. O que o Levy está fazendo hoje é, basicamente, um conjunto de medidas para recuperar a credibilidade. Mas não vai entregar crescimento.

O Estado de S. Paulo: Com o 0,7% de superávit primário que o sr. mencionou, dá para escapar do rebaixamento?

Schwartsman: É uma certeza que vamos ser rebaixados. Mas não é uma certeza de que vamos perder o grau de investimento. É uma probabilidade considerável.

O Estado de S. Paulo: A situação do Congresso, com vários parlamentares envolvidos na Lava Jato, piora o cenário?

Schwartsman: Sim, e em várias dimensões. Com um Congresso neste estado é complicado passar qualquer coisa. O governo não está conduzindo o processo. É conduzido. Falta articulação política. Falta gente com disposição e talento para a coisa. Não é a presidente da República. Não é o Aloizio Mercadante (ministro-chefe da Casa Civil). Não é Pepe Vargas (ministro de Relações Institucionais) porque ninguém sabe quem é Pepe Vargas. Se eu tomar um café do lado dele, não vou saber quem é. Isso pode afetar muito mais o julgamento de uma empresa de rating do que o número do primário.

O Estado de S. Paulo: A Dilma disse durante a campanha que não iria mexer em benefícios sociais, mas acabou mexendo. Mexeu no seguro-desemprego…

Schwartsman: É só uma correção de excessos, mas não é visto como porque ela quebrou promessas de campanha.

O Estado de S. Paulo: Existe a alternativa de não mexer em direitos sociais?

Schwartsman: Existe. Você pode não fazer nada. Mas vai ter custos. A estimativa é que a mudança no seguro-desemprego traga R$ 18 bilhões por ano. Isso significa 0,2% a 0,3% de superávit por ano. Se não for aí, vai ter de buscar em outro lugar. O ponto é: como um país com taxas menores de desemprego gasta cada vez mais com seguro-desemprego? Tem alguma coisa profundamente equivocada no desenho disso. Não quis mexer antes: tinha eleição, não quis dar o braço a torcer, ir contra seria como fazer uma articulação da direita. Você fica seis meses acusando o teu adversário de querer mexer em direito trabalhista, depois você mesmo vai lá e faz. Quer a compreensão da população, sem explicar o que aconteceu. Fica difícil.

O Estado de S. Paulo: O sr. mencionou a inflação. Há risco de ela sair do controle?

Schwartsman: Já saiu. Quando digo isso, não significa que estamos num ambiente hiperinflacionário. Mas, para explicar: a última vez que vimos a inflação na meta foi em 2009. Meu filho estava no colegial. Agora, está no mestrado. Faz tempo. Este ano, vai ficar na vizinhança de 8,5%. São dois pontos acima do limite máximo da meta. São quatro pontos acima do centro da meta.

O Estado de S. Paulo: O que Banco Central deveria fazer que o sr. voltasse a acreditar nele?

Schwartsman: Subir o juro o quanto tiver que subir. Vai precisar de 16%? Vamos a 16%. Faz o que for preciso. Nós fizemos.

O Estado de S. Paulo: E como fica o crescimento?

Schwartsman: É o custo. Você acha que, se eu buscasse uma inflação mais alta, teria um custo menor de crescimento? No curto prazo, é verdade. No longo prazo, não. Nós estamos vivendo o longo prazo agora. Vivemos agora as consequências de o Banco Central, quando teve a oportunidade de fazer o ajuste de taxa de juros, não ter feito. Foi a decisão em 2011: não fazer porque havia uma recessão global.

O Estado de S. Paulo: O sr. está dizendo que, se o Banco Central fosse mais agressivo lá atrás, o país não estaria com a inflação assim hoje?

Schwartsman: Sem dúvida. Se tivesse feito a lição de casa e perseguido a missão dele lá atrás, o problema seria outro. E, se não fizer hoje a lição de casa, em dois ou três anos os custos para baixar a inflação vão ser maiores ainda.

O Estado de S. Paulo: Qual será o efeito do câmbio? O dólar poder ir a R$ 4?

Schwartsman: Acho que não vai a R$ 4 por bons motivos. No começo do século passado, o grosso da dívida brasileira era denominado em moeda estrangeira. Não é a situação hoje. O governo é credor líquido em moeda estrangeira. Não vejo dinâmicas explosivas de taxa de câmbio.

O Estado de S. Paulo: Quando a Dilma chamou o Levy, muita gente lembrou do ajuste de 2003, quando o Brasil voltou a crescer em dois anos…

Schwartsman: Foi menos de um ano. Acho que agora a situação é mais grave. Lá atrás a inflação de 17% estava muito associada à desvalorização da moeda por um lado e, de outro, você não saber qual seria o regime monetário e fiscal do País no governo Lula. Mas saiu o Armínio Fraga e a equipe foi mantida. Teve um colaboração bastante relevante, o aperto fiscal e a sinalização de reformas. No começo de 2003, o Lula passou a reforma previdenciária do funcionalismo. Mostrou que estava disposto a se machucar e a machucar a base de apoio político. Foi uma sinalização muito poderosa. Não há nenhuma sinalização equivalente com Dilma. A inflação era alta lá atrás, mas conseguia ser resolvida no momento em que se mostrava que o governo sabia comer de garfo e faca: não era um bando de bárbaros que estavam tomando o governo. As pessoas podiam pensar diferente, mas estavam ali fazendo coisas razoáveis.

O Estado de S. Paulo: O horizonte para 2017 e 2018, então, não é tão alentador?

Schwartsman: O ajuste de 2015 vai se estender por 2016. As expectativas de recuperação vão ser empurradas lá para frente, para 2017.

O Estado de S. Paulo: Com um crescimento de quanto?

Schwartsman: Não vou chutar um número, porque a gente ainda não tem a nova série do PIB, mas ele será, assim, pequenininho.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 15/3/2015

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