A educação financeira como solução para o ensino da matemática

O Podcast Rio Bravo do último dia 28 entrevistou o economista Paulo Costa, autor do livro “Aprendendo a lidar com dinheiro”, publicado pela editora Bei. Mas, na entrevista, Costa fala não somente a respeito do livro. Isso porque o entrevistado, que é estudante de doutorado na Universidade de Harvard, traz os detalhes da pesquisa acadêmica que desenvolveu e que foi aplicada, de modo experimental, em algumas escolas da rede pública do Rio de Janeiro entre 2012 e 2014. O objetivo era mostrar a relação entre educação financeira e o ensino de matemática. “A população brasileira deveria estar mais por dentro das finanças pessoais, mas isso não acontece”. Ao comentar a experiência da pesquisa nas escolas, Paulo Costa conta como utilizou o dia-a-dia dos alunos para apresentar conceitos mais complexos de matemática e educação financeira. “Com base nesse método, é possível treinar um milhão de habilidades que a escola apresentaria da forma mais chata possível. Com isso, partimos da prática, que o aluno já domina bem, para a teoria.”

Confira abaixo a transcrição da entrevista: 

Podcast Rio Bravo: Conte para a gente um pouco a respeito da sua trajetória, de como você chegou a esse tema de pesquisa. A gente estava conversando antes da entrevista começar a respeito disso. Você sempre se interessou por educação financeira?
Eu sempre me interessei, mas talvez não por causa de mim. Quando eu era jovem, minha mãe tinha esse costume de apresentar para mim e meu irmão, por exemplo: “O quanto papai e mamãe ganham, isso aqui são todas as nossas dívidas…”. Então a gente sentava juntos como uma família e pensava nas finanças. Então acho que esse desejo da educação financeira e finança do consumidor veio de lá, da minha infância. Hoje em dia, eu sou um estudante de doutorado na Universidade de Harvard e eu falo que sou economista por acidente, porque eu estava no lugar errado, na hora errada. Porque eu fui para os Estados Unidos fazer a minha graduação em engenharia química e quando eu cheguei lá adorei a química, mas um dia eu estava na sala de aula errada e começou uma aula de economia. Era a primeira aula. Começou uma aula de economia e eu achei fascinante, porque juntava duas coisas que eu amava: modelos de matemática com causas sociais. E a engenharia química tinha a matemática que eu achava demais, mas faltava esse lado social, que para mim era tão importante, e quando eu vi aquilo, eu saí daquela aula e falei para os meus amigos: isso é o que eu quero fazer para o resto da minha vida. E todo mundo riu, falou que: “Não, é besteira, só foi na primeira aula”. Eu falei: “Não, é isso que eu quero fazer para o resto da minha vida”. E cá estamos sete ou oito anos depois eu já fiz mestrado, doutorado, agora estou terminando, seguindo na economia. Então eu acho que foi um chamado para estar ali na economia. E eu comecei com educação financeira já na graduação. Eu fui fazer um estágio no Gávea Investimentos lá no Rio de Janeiro, trabalhando com Armínio Fraga, que é um mestre da economia, foi presidente do Banco Central do Brasil, é uma das pessoas mais queridas que eu conheço e ele tinha essa preocupação, quando presidente do Banco Central, que o brasileiro sentia que tinha um nível de educação financeira baixo. É uma coisa difícil de você pensar porque o Brasil não deveria ter um conhecimento financeiro baixo por dois motivos. Um. Nós passamos, como povo, por uma situação histórica incrível, que foi a hiperinflação. Os modelos acadêmicos diriam que o nosso povo deveria ser muito informado sobre finanças, porque nós passamos por situações brabas nessa área. E segundo, atualmente nós temos taxas de juros muito altas. Então é uma coisa absurda. Então a gente deveria estar mais por dentro das finanças pessoais, mas isso não acontece. E a pergunta é: Por quê? Quando eu trabalhava lá no Gávea, voltava para casa de ônibus. E, na época, o ônibus no Rio de Janeiro ainda tinha trocador. Não sei se aqui em São Paulo tem, mas no Rio de Janeiro tinha.

Podcast Rio Bravo: Alguns têm trocador, outros não.
Então, lá no Rio não tem mais nenhum. Eu achei que foi uma perda gigantesca para o lado acadêmico para mim, porque eles eram fontes preciosíssimas de informação. Eu lembro que um deles me chamou muita atenção. A gente conversava sobre economia, finanças, e aí eu perguntei para ele: Na sua opinião, qual foi o melhor presidente da República do Brasil? Ele devia ter por volta de 40 anos, falou assim: “Nossa, eu não tenho dúvida nessa. O melhor presidente para mim foi o Fernando Collor”. E aquilo me chocou, porque, poxa, eu sou novo, tenho 26 anos, eu peguei, mas não estava ligado na presidência do Collor. Mas, pelo que eu leio, não é o presidente favorito de quase ninguém. E a justificativa dele foi fascinante. Ele virou para mim e falou: “Na época do Collor, eu botava dinheiro no banco, eu voltava no mês seguinte e o dinheiro tinha crescido tanto, eu ganhava dinheiro sem fazer nada”. Então eu comecei a reparar que talvez ele não estava prestando atenção no quanto aquele dinheiro valia, porque o dinheiro estava perdendo valor e o banco reajustava com uma taxa de juros que até era inferior à inflação muitas vezes. Então eu pensei assim: acho que ele não está entendendo a matemática por trás disso. E aí isso para mim ressonou muito bem porque o brasileiro historicamente é muito fraco em Matemática, tanto que na prova do Pisa o Brasil sempre está na lanterna da Matemática. Eu falei: “Bem, eu acho que tem uma relação aí”. E aí eu apresentei essa teoria para algumas pessoas, ninguém acreditou em mim, mas eu falei: “Eu acho que isso parece verdade”. Então, na época, eu fui rodar o Brasil procurando alguém para financiar essa pesquisa, aí tive muita sorte de o pessoal da BMF Bovespa financiar essa pesquisa, porque eles tinham muito interesse nessa área de educação financeira também. E aí entrevistamos 2 mil pessoas em 100 cidades no Brasil, em todas as regiões, então a gente tentou capturar bem o perfil brasileiro mesmo, e o que a gente percebeu é que, realmente, essa relação entre a Matemática e o conhecimento financeiro era muito forte. A coisa mais interessante era que o nível de escolaridade explicava menos do conhecimento financeiro do que a Matemática. O que até faz um certo sentido. Se eu pensar uma pessoa que tem ensino superior em história não necessariamente é uma pessoa que estudou bastante conhecimentos de Matemática por muito tempo. Já uma pessoa que era muito boa em Matemática no ensino médio talvez tenha um conhecimento de Matemática superior a alguém que fez o terceiro grau em História. Então a gente começou o trabalho pensando nessas coisas.

Podcast Rio Bravo: Especificamente, o que você descobriu na medida que foi entrevistando essas pessoas sobre educação financeira?
Foi assim, dados chocantes, porque o que nós fizemos nessa pesquisa com a Bovespa foi pegar questionários que já existiam no mundo inteiro nessa literatura da educação financeira e aplica-los na realidade brasileira. Claro que como eu estava testando também essa tese da Matemática, eu incluí umas questões básicas de matemática – multiplicação, divisão, porcentagem, fração. E uma coisa chocante que a gente descobriu era que 28% das pessoas que nós entrevistamos acertavam uma questão básica de frações, 53% acertavam uma questão básica de porcentagem.  Você pensa “53% é mais da metade”, mas 47 não acertaram. Na mesma pesquisa, nós fizemos perguntas também sobre taxa de juros, juros compostos, e 36% das pessoas acertaram uma questão básica sobre taxa de juros. O que é muito assustador, porque o Brasil é um país que tem taxa de juros alta, então você deveria ter uma ideia básica. A pergunta era algo do tipo “Imagina que você tem R$ 100 e você aplica isso a uma taxa de juros de 10% e daqui a um ano quanto dinheiro você teria nessa conta? ” Você nem pergunta o número exato, você pergunta assim: Menos de 110, exatamente 110 ou mais de 110. Ou seja, uma pergunta bem…. É fácil. Não é pegar um número difícil, uma porcentagem difícil, é uma coisa bem tranquila. Então das cinco perguntas de educação financeira que nós fazíamos, foi uma coisa chocante para mim que somente 5%, 5.25% das pessoas acertaram todas, o que é muito preocupante. O que saía dos dados era realmente essa questão da Matemática. O pessoal que sabia muito mais de Matemática tinha uma nota muito maior em educação financeira, independente da escolaridade, o que eu achei assim muito significativo. E aí eu queria saber se era uma relação de causa, porque eu sou um economista acadêmico e só correlação para a gente não ajuda. A gente queria saber se a Matemática causava a educação financeira. Eu fiz uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e consegui recrutar 20 escolas que tinham aula de manhã e de tarde, e tinham matérias chamadas de eletivas, e aí eu criei uma aula, que foi de onde surgiu o meu livro que eu publiquei esse ano, chamado “Aprendendo a lidar com o dinheiro”, e o que eu utilizei na época, o manuscrito desse livro, aquilo ali foi a semente do livro, nós pegamos nessas 20 escolas, aleatoriamente selecionamos entre 20 e 30 alunos em cada escola para fazer a nossa aula. Demos essa aula extra de Matemática com assuntos financeiros e aí quisemos medir para ver se o comportamento financeiro deles mudava. O que eu achei superinteressante foi que não somente aprendiam muito mais Matemática, mas também muito mais educação financeira e o comportamento deles em relação ao dinheiro também mudava. Foi uma experiência muito feliz. Lá na aula, por exemplo, os alunos que fizeram a nossa aula aumentaram o conhecimento deles em mais de 30% em taxas de juros, em juros compostos, a relação de juros e juros compostos que é uma coisa muito importante, principalmente no Brasil que é um país de inflação alta…. Isso foi só um curso de 12 semanas, que eram duas horas nas sextas-feiras. A gente achou o resultado bastante significativo e o curso continuou no Rio de Janeiro por dois anos. Nós achamos tão bacana que surgiu a oportunidade de publicar o livro e agora nós estamos utilizando em escolas no Estado de Goiás. Agora é um livro bem mais refinado, publicado pela Editora BEI, junto com o programa “Por quê? – Economês em bom português”, que é um programa sensacional no Facebook e tem discussões superinteressantes sobre economia do Brasil atual. Estamos lá agora no projeto piloto, 3 mil alunos do 1º ano do ensino médio e por volta de 24 escolas.

Podcast Rio Bravo: Como a sua própria experiência ajudou a pensar no contexto desse estudante, principalmente em relação às preocupações desse aluno?
Primeiro. Eu acho que vale à pena reapresentar algumas coisas. Eu sou um estudante de classe média baixa do Rio de Janeiro e tive grandes oportunidades em educação. Então eu cedo consegui passar para um concurso do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que é um colégio de ponta, mas é um colégio muito barato. Então o pessoal pensa que colégio militar é uma escola pública, é uma escola pública, mas a gente pagava na época entre R$ 50 e R$ 100 por mês e meus professores tinham doutorado, o que é uma coisa totalmente fora da realidade, ainda mais no contexto do Brasil. Uma das coisas que eu percebi, eu tive a sorte de escrever uma grande parte do livro quando eu tinha ainda 21 anos e agora retocar ele aos 26, e uma coisa que eu percebi é: o dia a dia das pessoas é muito rico em experiências. Então, em vez de utilizar o modelo enciclopédico das escolas, como o meu livro é um livro de Matemática focado em educação financeira, eu não me senti obrigado a seguir todo o currículo de Matemática das escolas. Por exemplo, eu era um estudante de Matemática muito bom. Eu amava trigonometria: seno, cosseno, o círculo trigonométrico, eu achava superimportante. Agora, a minha pergunta é: para um estudante que não vai ser engenheiro, que não vai ser arquiteto, qual é a finalidade de aprender esse tipo de coisa? Eu lembro que quando eu comecei no primeiro ano do ensino médio, que é quando geralmente você estuda esse tema, uma menina virou para mim, que estava no segundo ano, e falou assim: “Se você desenhar a bola, o professor dá metade dos pontos”. A bola é o círculo trigonométrico, que ela não entendeu nada, mas falou que se desenhar a bola, ela passa. Então é uma coisa muito complicada. Eu utilizo o dia a dia desses alunos para apresentar os conceitos. Da seguinte forma. Em vez de falar para ele “Eu estou te ensinando a somar, diminuir, somar e dividir”, eu falo para ele: “Olha, você está indo ao shopping com seus amigos e você tem R$ 20 para gastar, você quer ir ao cinema e quer comer no shopping. Quais decisões você tem que tomar para que você consiga não estourar seu orçamento? ”. O aluno, primeiro, se engaja muito, porque aquela ali é uma situação do dia a dia dele. E aí você vai refinando o exemplo e acaba treinando com ele 1 milhão de habilidades que a escola te apresentaria da maneira mais chata possível. Então o livro tem essa preocupação. Em vez de passar, como o modelo enciclopédico faz, da teoria para a prática, a gente vai da prática, que o aluno já domina bem, e ele vai para a teoria. E eu falo para ele: “Olha, está vendo tudo aquilo que você já sabe? Você sabe que tem que economizar dinheiro, mas sabe como cortar dívidas bem”, isso tem toda uma aplicabilidade na Matemática, que é uma questão de subtração, uma questão de divisão, uma questão de multiplicação e você já sabe. Você só não sabe que sabe, mas já sabe.

Podcast Rio Bravo: Qual foi a importância da metodologia do ensino híbrido no sentido de aumentar o engajamento dos alunos?
O ensino híbrido tem duas plataformas principais. Primeiro o uso da tecnologia e o segundo é a personalização do ensino. Eu acho que a personalização do ensino foi fundamental porque me fez pensar no aluno alvo da minha aula. Então tinha toda uma preocupação com os exemplos que vão ser utilizados. Porque o meu livro é utilizado em escolas públicas estaduais no Estado de Goiás. Então eu não posso, por exemplo, sabendo a demografia do meu aluno, não posso ter um exemplo de: “Ah, você tem uma mesada de R$ 100 por mês”. Aquela não é a realidade do meu aluno. Eu até fico um pouco preocupado que esse tipo de aplicação de utilizar valores irreais para conquistar um aluno ou para fazer o exemplo bonito, por exemplo “7% de R$ 100 é 7”, é uma conta fácil, mas aqueles R$ 100 podem até de certa forma magoar aquele aluno, porque não é realidade dele e ele acaba se removendo daquela situação. E a segunda plataforma do ensino híbrido é o uso da tecnologia, que infelizmente em grande parte do Brasil é muito difícil utilizar. O que eu utilizei da tecnologia foi pensar o que a tecnologia faz pelo aluno. Então eu pensei pela seguinte maneira. Tinha esse mito grande na educação que o aluno brasileiro não gosta de escrever, o aluno quer uma coisa mais fácil. E aí você vê agora que foram criadas essas redes sociais recentemente, Facebook, Twitter, e aí você vê esses jovens escrevendo pra caramba, você pensa: “Pô, ele gosta de escrever. Ele não gosta talvez da maneira como a escola está fazendo ele escrever”. Eu quis que essa faceta do mundo de ter se tornado tão interessante para o jovem entrasse dentro da educação também. Então o livro, cada uso, cada capítulo, para se aproximar dos jovens. O primeiro capítulo começa com a questão do sonho. Eu acho que as coisas estão tão difíceis no Brasil, ainda mais na educação, que o jovem talvez tenha perdido essa capacidade de sonhar. A maioria das pessoas na escola pensa: “Eu quero sobreviver, quero ganhar um dinheirinho”, mas a questão do sonho (eu quero ser um médico, quero ser presidente da república, quero mudar a realidade do meu país), eu não sei por que, acho que isso se perdeu um pouco. Então o livro tem esse viés que eu acho importante de resgatar o sonho do aluno e principalmente que ele seja parte da mudança na própria vida dele. Então eu achei muita evidência depois da aula do Rio de Janeiro por que os alunos estavam pensando dessa maneira. E uma vez…. Assim, eu entrei em sala de aula poucas vezes, eu treinei professores para ministrar essa aula. Em Goiás, da mesma forma. Um grupo de professores treinados por mim. E os professores me traziam experiências maravilhosas que eles escutavam dos alunos. Por exemplo, uma aluna virou para o pai dela, o pai foi reclamar na escola e ele falou assim: “Professor, minha filha falou que eu tenho que cortar minha cervejinha de sexta-feira porque isso é um gasto supérfluo”. Então você vê que isso é um tipo de interação que talvez o ensino não esteja dando para o aluno da maneira como deveria, que é a aplicabilidade do que ele aprende na sala de aula para a casa dele. A questão do ensino híbrido me deu essas duas coisas, que foram personalizar a questão do ensino para o aluno que foi o meu alvo e transformar o material em algo muito interessante, porque é muito fácil hoje em dia o aluno perder a atenção, porque qualquer coisa ele pode entrar no WhatsApp rapidinho, ele chega em casa e não faz a lição que o professor mandou porque o Facebook é muito mais interessante… Então eu quis fazer uma coisa muito interessante, que o aluno se interessasse, para que o ensino fosse revitalizado, que ele pensasse no ensino como algo que pode mudar a vida dele.

Podcast Rio Bravo: Você mencionou um tanto do feedback que você recebia. Como vocês mediam resultado em relação a essa iniciativa?
No Rio de Janeiro, nós tínhamos 20 escolas e dentro dessas escolas nós selecionamos aleatoriamente um grupo de 30 alunos e a gente seleciona aleatoriamente para não só pegar os alunos que gostam de Matemática. Se você só pega eles, é claro que eles vão amar o curso, eles vão se dar muito melhor do que os outros em áreas como Matemática e Educação Financeira. Então a gente selecionou aleatoriamente para que a gente não tivesse só pegando aquela galera que vai gostar do curso e vai mandar bem. Então a gente pegava esses 30 alunos por escola, e isso a gente chamava de “grupo tratamento”, que a gente dava o tratamento da aula para esses alunos. E o “grupo controle” eram todos os alunos que não fizeram aquela aula. Eles faziam uma outra atividade na mesma hora. Aí a gente comparava os resultados… Primeiro, uma preocupação grande de ver que o aluno que está fazendo a minha aula não é diferente do aluno que não fez a minha aula. Esse é o primeiro estágio. O segundo estágio é ver depois que a aula terminou a diferença entre os alunos que aprenderam junto com o nosso material e os alunos que não aprenderam. E aí que vimos esse resultado, que realmente eles aprendiam muito mais Matemática, aprendiam mais educação financeira e o comportamento deles com dinheiro mudava também. Isso que foi muito legal.

Podcast Rio Bravo: Na sua avaliação, é necessário implementar mudanças drásticas no currículo no sentido de fazer com que os alunos passem a aprender mais efetivamente conteúdos de Matemática e educação financeira ou se trata apenas de um ajuste de metodologia de ensino?
Eu acho que tem que haver uma mudança drástica, e eu acho inclusive que a reforma do ensino médio caminhou nessa direção. Uma pena que não houve uma discussão popular sobre isso, uma coisa que foi meio que uma canetada. Mas o que se vê que é um consenso, isso é um consenso que esse modelo enciclopédico das escolas brasileiras, principalmente no ensino médio, onde você tem que aprender 13 matérias diferentes, isso não deu certo. Tanto que você vê que a grande evasão escolar no Brasil acontece entre o fim do ensino fundamental e o início do ensino médio. Essa transição é muito brusca e ela não é bacana para o estudante porque ele se divide em 1 milhão de matérias novas. Como a gente já sabe, é um aluno que vem mal preparado em termos de leitura e até matemática básica, então ele tem muita dificuldade e larga. Mas, por exemplo, eu não acho que educação financeira tem que ser uma matéria em todas as escolas. Eu acho que criar mais matérias não é uma solução para o Brasil, mas eu acho que, por exemplo, como eu faço no livro, é utilizar a matemática e apresentar essa questão da educação financeira como uma vertente mais interessante da matemática. Por quê? Porque falar sobre dinheiro no Brasil, ainda mais para crianças, é tabu. Você pergunta para uma criança na escola: Quanto ganha um médico? Ele não sabe. Ele não sabe nem a ordem de magnitude, ele não sabe nem a aproximação disso. Então, por exemplo, eu utilizo no livro um capítulo, quando ele aprende a interpretar gráficos, eu utilizo justamente isso. Eu pego estatísticas do Brasil. Por exemplo, quanto que uma pessoa que larga a escola na quinta série do ensino fundamental ganharia se largasse hoje? E os alunos veem que, por exemplo, se ele termina o ensino médio ou se ele faz uma faculdade, é uma mudança tão grande na vida dele, isso já foi até tema de papers acadêmicos que falam que se você mostra esse tipo de informação para o aluno, a propensão de ele ir fazer uma faculdade é muito maior, porque ele aprende o valor da faculdade. Uma coisa é sua mãe falar assim: “Meu filho, você tem que ir para a faculdade porque é muito bom”. Mas outra coisa é você ver: “Poxa, se eu for para a faculdade eu tenho a chance de ganhar quatro, cinco vezes mais que um aluno que só terminou o ensino médio e vai trabalhar. E isso para o resto da minha vida”. Ou seja, é uma mudança muito grande na minha vida. E os alunos às vezes aprendem que, “poxa, talvez se eu terminar a faculdade eu possa ganhar 2, 3 mil reais por mês”. Isso é uma coisa que ele não viu na família dele acontecer ainda. E eu vejo que há pessoas que pensam que educação financeira tem que vir dos pais, mas se os seus pais não tiveram oportunidade de ter acesso ao conhecimento, esse conselho não vale. O que eu penso é que a educação financeira tem que ser incluída dentro de outras matérias de uma maneira bem simples e intuitiva. Matemática, claro, porque tudo é questão de porcentagem e fração, mas também, por exemplo, português, que é interpretação de texto. Muita coisa é você entender qual é o contexto onde você está se metendo. Por exemplo, você poderia apresentar, como eu apresento no livro, uma charge junto com texto perguntando qual é a finalidade de juros. Aparece uns juros falando com o psicólogo perguntando: “Doutor, eu sou justo? ”. E aí a questão: será que cobrar juros a 500% ao ano no cartão de crédito é uma coisa justa? E aí você tem toda essa discussão. E também, por exemplo, grandes eventos na história são relacionados à economia. Acabei de citar a hiperinflação do Brasil, que para quem viveu foi uma coisa traumática. Eu também uso a época do Nazismo. Uma das coisas na Alemanha na década de 20 e na década de 30. O povo estava tão insatisfeito com a hiperinflação alemã, que uma pessoa que surgiu prometendo mudanças e que acabou sendo um desastre – isso não é um spoiler sobre a política atual – que prometeu mudanças e acabou sendo um desastre foi também um dos maiores massacres da história. Aquilo teve um componente financeiro também, que foi a hiperinflação alemã. Então a educação financeira é multidisciplinar. Você não precisa criar uma nova matéria e deixar o currículo mais inchado. Eu acho também que até torna as matérias um pouco mais interessantes e eu acho importante a gente utilizar isso nessa época de oitavo e nono ano e primeira série do ensino médio, porque deixa mais interessante e pode até contribuir com a diminuição da evasão escolar, que acontece justamente naquela época.

Fonte: Podcast Rio Bravo, 28/07/2017.

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