“Elas sempre foram objeto de repulsa”, Rosana Pinheiro Machado sobre a situação das mulheres chinesas

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o Instituto Millenium conversou com a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado sobre uma sociedade conhecida pelo histórico desrespeito aos direitos femininos: A China. “As mulheres sempre foram objeto de repulsa na China”, afirmou a antropóloga.

A autora do livro “Made in China: (in)formalidade, pirataria e redes sociais da China ao Brasil”, falou sobre questões polêmicas como a exploração da mão-de-obra, a censura, a pirataria e o bloqueio às redes sociais na potência asiática.

Confira a entrevista:

Instituto Millenium: O governo chinês exerce forte censura sobre todo o tipo de publicações que questionam o projeto político do país. Mesmo sendo brasileira, houve alguma dificuldade na produção e divulgação do livro “Made in China: (in)formalidade, pirataria e redes sociais da China ao Brasil”?

Rosana Pinheiro-Machado: Não encontrei dificuldade na divulgação do livro, isso foi uma surpresa para mim. Em 2009, publiquei, pelo jornal “O Globo”, uma longa matéria falando da relação entre policiais/autoridades do governo e empresários no país. Temi sofrer algum tipo de retaliação, porém isso nunca aconteceu.

O livro “Made in China” é bem aceito e não acredito que isso seja por uma questão de liberdade de expressão, mas porque o tema da pirataria não é velado para eles. Em um país em que o maior shopping de cópias do mundo se dá junto à polícia federal, em Shenzhen, pode-se imaginar que esse não é um tema do qual os chineses não queiram falar. Minhas questões e críticas são mais econômicas do que políticas. Talvez seja por isso que as coisas tenham corrido bem na divulgação do meu livro.

Imil: O chinês Li Tie, escritor e veterano ativista pró-democracia, foi condenado a dez anos de prisão por “incitar subversão contra o poder do Estado”. Li foi alvo das seguintes acusações: ‘escrever ensaios contra o Governo’, ‘participar de fóruns de internet reacionários’, e se ‘reunir com amigos para expressar ideias contrárias ao Estado’. O mercado editorial chinês é limitado à temas que valorizão as iniciativas do governo, deixando de abordar questões polêmicas como a exploração da mão-de-obra, a pirataria, a censura e o desrespeito aos direitos humanos?

Rosana: O mercado editorial chinês é limitado, sem dúvidas. A ênfase é na valorização das ações governamentais. Uma vez um amigo chinês me falava que o modelo americano é que estava errado: “como criticar a autoridade?”, questionou.

Porém, ocorre uma coisa bastante interessante. O governo critica a pirataria e a exploração de mão-de-obra, ao mesmo tempo em que é notória a leniência do estado chinês ao permitir que isso ocorra, inclusive como uma forma de desenvolvimento nacional. É curioso o fato de que as agências oficiais do governo, como o Xinhua e Chindaily, combatam o trabalho escravo e a pirataria. Talvez, isso seja uma forma de tirar a sua participação e culpa, na busca do desenvolvimento mais sustentável. Difícil avaliar isso agora. O fato irrefutável é que um cidadão comum não tem voz para a crítica. Censura é um tema velado. A crítica vem, e muita, mas do próprio partido, especialmente quando se trata de avaliar os dados da revolução cultural. A questão é: mais do que o poder da crítica em si, o que está em jogo é quem tem o poder sobre ela.

Imil: As redes sociais, como facebook e twitter, têm sido usadas como importantes ferramentas para a divulgação de informações e para organização de movimentos populares contra governos autoritários, como no Irã. A Primavera Árabe é classificada como uma “Revolução 2.0”, devido ao uso de redes sociais na organização de protestos. A China é conhecida por censurar os serviços de busca na internet. Os internautas não encontram informações ao buscar temas como massacre da Praça da Paz Celestial e a luta pela libertação do Tibet . Qual o atual cenário da liberdade de expressão da rede no país? Os usuários têm livre acesso as redes sociais, eles podem buscar e postar todo tipo de informações?

Rosana: Os chineses não têm acesso às redes sociais, como facebook. Existem meios de baixar esses programas na China, porém os jovens não fazem isso. Eles têm a rede social chinesa, altamente controlada e com fins puramente de sociabilidade virtual, jamais políticos.

Se você pesquisar sobre o massacre da Praça da Paz Celestial no Google, em países do ocidente, aparecerá a imagem do jovem em frente ao tanque. Imagem triste e clássica. Se você fizer esse teste na China, nada aparecerá! Há um controle incrível nesse sentido. Muitos e muitos jovens chineses já me disseram que isso é feito porque não devemos olhar para as coisas tristes do passado. Eles dizem que não se deve olhar apenas para o erro.

Ouvi, recentemente, em minha última viagem a China, que as pessoas não eram capazes de julgar o epdisódio de 1989, por não terem vivenciado o acontecimento. Ora, então só podemos opinar sobre o que vivemos! Esse assunto me aborrece, pois o acesso á história é um direito fundamental dos seres humanos. Os jovens chineses simplesmente não sabem de parte de sua história. No entanto, não podemos negar que muitos deles se expressam e criticam a sociedade. Alguns são presos, outros conseguem um espaço e legitimação social.

Imil: Durante muito tempo as mulheres sofreram com a discriminação sexual no trabalho e dentro da própria família. Até pouco tempo, mulheres chinesas que portassem preservativos eram presas. No campo, elas chegam a ser menos valorizadas que as galinhas. Devido a cultura de valorização dos filhos homens, que são aproveitados como mão-de-obra nas plantacões, e a política do “filho único”, muitas mulheres tentam se matar. Em 2005, uma emenda na Lei de Proteção dos Direitos e Interesses das mulheres definiu a igualdade de sexo como política básica da China. Como você descreve a situação das mulheres na China de hoje?

Rosana: A situação da mulher é complicadíssima. As mulheres sempre foram objeto de repulsa na China. Os orfanatos estão lotados de meninas abandonadas. Em Shenzhen, onde há muita mulher, muitas delas atuam como meras concunbinas e vivem de ganhar presentes dos homens.

Na china, como em outros lugares do mundo, o homem é o provedor e consequentemente tem o poder. Eles fumam, bebem e controlam as principais posições de poder. As mulheres são exploradas nas fábricas e muitas delas acabam na prostituição ao sairem do campo em busca de trabalho.

Enfim, a situação não é favorável às mulheres. Mas, temos que observar que hoje, a situação é infinitamente melhor que anos atrás. Já existem mulheres ricas e independentes. O divórcio é mais aceito, embora ainda visto como uma aberração em muitos lugares, especialmente fora das grandes cidades. Nas cidades, as mulheres estudam e procuram um lugar ao sol. Há maior liberdade sexual também. No campo, tudo é diferente e permanece com poucas mudanças.

Mas, reparem que há um paradoxo: o preconceito contra a mulher foi tão grande na China, que hoje elas estão fazendo falta no mercado matrimonial. Esse quadro aponta para uma supervalorização da mulher. Hoje, com o afrouxamento das regras da política do filho único, sociólogos falam de o quanto as novas meninas são super mimadas. Em resumo, temos uma sociedade extremamente machista ainda, porém que aponta para mudanças signficativas advindas da abertura econômica e da globalização.

Imil: A China é uma das maiores potências econômicas da atualidade, rivalizando com os EUA. Você acredita que a o crescimento econômico está sendo acompanhado pelo desenvolvimento social?

Rosana: Sim e não. Por um lado, há uma privatização constante dos seviços que eram oferecidos publicamente, como saúde e educação. Isso torna o acesso restrito, e, ao meu ver, não representa um retorno em desenvolvimento social. Por outro lado, não há como negar que a infraestrutura do país está ano a ano melhor. A cada ano que vou à China, não reconheço o país.

Além disso, a China passa por uma verdadeira revolução legal. Pouco a pouco e a duras penas, há uma luta por melhores condições trabalhistas e humanas. Isso é fruto de um despertar das pessoas comuns e das ONGs nacionais e internacionais, que lutam por melhores condições de vida.

Aquele circo de exploração de mão-de-obra na China não é mais tão fácil. Há maior controle e consequentemente as suas mercadorias estão ficando mais caras. Além disso, ao menos no nível do discurso, o governo anuncia uma política cada vez mais social e sustentável. Mas, o que vemos são rios poluídos e um ar que quase nos sufoca nas grandes cidades. Por todas essas razões, por enquanto temos apenas apostas.

Os próximos dez anos poderão nos dar uma resposta melhor sobre todas essas questões. Hoje, estamos em pleno processo de transformação social, fruto das novas políticas e diretrizes econômicas que foram implementadas nos últimos anos.

Foto: Chico Marshall/StudioClio

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