Sábado, 3 de dezembro de 2016
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“Empresas não devem tolerar corrupção”

A falta de confiança da população nas empresas e seus executivos, motivada por escândalos de corrupção ou práticas ilegais de gestão financeira, é a grande preocupação de William Boulding, reitor da tradicional Escola de Negócios de Fuqua, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Segundo ele, essa avaliação negativa tem o efeito perverso de afastar novos talentos das grandes companhias. “Corremos o risco de deixar de formar toda uma geração de novos líderes, simplesmente porque eles perderão a motivação de trabalhar nas grandes empresas”, afirma.

Para Boulding, reconhecer os próprios erros é fundamental, mas as pessoas não querem só ouvir pedidos de desculpas. São necessárias ações firmes, como identificar os responsáveis pelas irregularidades cometidas e penalizá-los, para recuperar a imagem e a credibilidade de uma empresa. “Isso é importante para demonstrar para a sociedade que a empresa não tolera corrupção”, explica Boulding.

Como reitor da Fuqua, Bill dedica boa parte do seu tempo estudando como aperfeiçoar o novo perfil de líderes empresariais. E ressalta que uma das prioridades das pessoas que ocupam cargos de chefia é se tornar um bom exemplo dentro do ambiente corporativo.

Na sua visão, um modelo de líder ideal é o atual CEO da Apple, Tim Cook. Ex-aluno de Fuqua, Tim ganha o respeito dos seus funcionários ao se colocar no mesmo patamar que eles, afirma Boulding.

William Boulding também avalia que a capacidade de se preocupar de forma legítima com os problemas dos outros é outra característica fundamental dos bons líderes, e que o caráter é a coisa mais difícil de ser ensinada nas escolas de negócios ao redor do mundo. “É praticamente impossível ensinar a alguém a não ser egoísta.”

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Como recuperar a imagem de uma empresa que tenha se envolvido em casos de corrupção? Hoje, no Brasil, essa é uma questão crítica…

Recuperar a confiança é sempre um desafio enorme. Mas estou otimista, porque o que está acontecendo no Brasil demonstra que as pessoas não toleram mais escândalos de corrupção. E que dessa vez, os culpados serão julgados e seus crimes não serão esquecidos e perdoados. Agora as pessoas acreditam que suas instituições são fortes o suficiente para acabar com essas ilegalidades dentro das empresas do país e que nenhum empresário ou político está acima da lei. Nesse sentido, pode ser muito difícil para um empresário ou uma empresa recuperar sua imagem depois de ter sido acusada de atos ilícitos pela Justiça. Reconhecer os próprios erros é fundamental. Mas as pessoas não querem apenas ouvir um pedido de desculpas ou algo como “eu não tenho culpa de nada”. Recuperar a credibilidade de uma empresa requer ações firmes, como identificar os responsáveis pelas irregularidades cometidas e penalizá-los. Isso é importante para demonstrar para a sociedade que a empresa não tolera corrupção.

O quão difícil é ensinar aos estudantes das escolas de negócios as regras da boa liderança?

É possível ensinar nas escolas de negócios as regras da boa liderança para diferentes tipos de pessoas. E isso sem fazer com que essas pessoas percam a sua personalidade, se tornem algo diferente do que sempre foram. O que as universidades devem fazer é ajudar esses futuros profissionais a tirar proveito da sua maneira de trabalhar para conseguir se comunicar melhor com as outras pessoas. A empatia,  saber se colocar no lugar do seu funcionário e entender o ponto de vista dele, é um fator muito importante. A verdadeira liderança não é apenas dizer aos outros o que eles têm que fazer, mas permitir que eles resolvam as questões do dia a dia à sua maneira. Um bom líder ajuda as pessoas a descobrir suas melhores habilidades. Além disso, também acredito na importância de dar um bom exemplo no ambiente corporativo. Ao longo da sua vida, as pessoas desejam ser guiadas por grandes líderes. Então, não é apenas nas universidades que se pode aprender a ser um bom líder, mas nas conversas do dia a dia, no respeito e na valorização dos funcionários.

Que impactos a atual crise econômica tem no ambiente de negócios?

Apesar de este momento de grave crise econômica estar sendo bastante traumático para os brasileiros, eu estou bastante otimista. Porque esse é um momento no qual as pessoas estão olhando para frente em busca de oportunidades, pensando em se tornar empreendedoras, investindo e criando oportunidades de emprego. Novos e bons líderes empresariais surgem em momentos de dificuldades como este. Sinto que, apesar dos desafios que se impõem, há uma mentalidade positiva no empresariado brasileiro. Há uma tendência em momentos como esse de contornar o problema de uma maneira positiva e inovadora. E isso é positivo no sentido de que tira as pessoas da sua zona de conforto e faz com que elas encontrem novas soluções para os seus problemas.

O que mais frustra você no mundo corporativo de hoje?

O que mais me incomoda é a falta de confiança da opinião pública com a comunidade corporativa e a falta de reação desses empresários para lidar com isso. As pessoas acreditam que os negócios são uma força poderosa no mundo e que têm o poder de mudar a vida de muita gente. Se a sociedade pensar que todo esse poder está sendo usado em benefício próprio, esqueça; a sua empresa perderá influência e clientes. E isso é extremamente preocupante porque você, como líder empresarial, deve se preocupar em atrair os melhores talentos. Corremos o risco de deixar de formar toda uma geração de novos líderes, simplesmente porque eles perderão a motivação de trabalhar nas grandes empresas.

O que torna o CEO da Apple, Tim Cook, o mais ilustre ex-aluno da Escola de Negócios da Duke University, um líder respeitado?

Ele não se coloca acima de ninguém, se comporta como mais um na equipe. O que o faz ser respeitado e admirado é a sua humildade e a capacidade de virar para os seus funcionários e dizer “eu não sou melhor e mais importante que você, eu sou mais um nesse time que está aqui para ajudar e fazer com que todos trabalhem da melhor maneira possível”.

Qual é a habilidade mais difícil de ser ensinada nas escolas de negócios?

A coisa mais difícil de ser ensinada é fazer com que alguém se preocupe com os problemas dos outros. É praticamente impossível ensinar a alguém a não ser egoísta. As escolas de negócios não deveriam se dedicar muito tempo para ensinar seus alunos a serem boas pessoas. Esperamos, isso sim, que nos bancos escolares as pessoas de caráter fortaleçam seus valores. Isso porque a inteligência não é suficiente para alguém se tornar um bom líder no futuro. Há uma série de outros valores imprescindíveis.  E os mais importante deles, na minha opinião, é a legítima preocupação com os problemas dos outros e o constante cuidado de se estar fazendo a coisa certa o tempo inteiro, mesmo que ninguém esteja te olhando.

Por que é tão importante promover a diversidade dentro de uma empresa?

Esse é um dos desafios mais difíceis que os líderes empresariais enfrentam. Isso porque você tem que lutar contra alguns instintos que são naturais da condição humana. O primeiro deles é que as pessoas não gostam de estar rodeadas de indivíduos que ajam ou pensem muito diferente. É algo desconfortável. Mas quando você está em um ambiente onde todos pensam igual, você se convence mais rapidamente e seus argumentos logo se tornam mais esvaziados. Isso é mais confortável, porém menos produtivo. Em segundo lugar, há aquelas pessoas que aceitam trabalhar com quem pensa diferente, e aí há uma superação desse instinto de replicar a si mesmo. Mas também de nada adianta esse grupo de indivíduos de personalidades diferentes trabalhar junto se não existe um propósito comum. Então, além de promover a diversidade no ambiente de trabalho, é fundamental que os líderes empresariais reconheçam as habilidades dessas pessoas que são diferentes delas. E aí entra uma habilidade especial que somente os bons líderes têm, que é a de tirar o melhor desempenho de seus subordinados. Você deve chegar e dizer que “juntos seremos um grande time e podemos fazer coisas incríveis.”

Fonte: “O Estado de S. Paulo”, 30 de agosto de 2016.

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