Sábado, 3 de dezembro de 2016
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“Empresários do país pararam no tempo”

Alexandre Di Miceli da Silveira (governança)Os avanços em governança corporativa no Brasil dependem de mudanças mais profundas do que as regras do mercado podem estabelecer. A conclusão é do professor da Universidade de São Paulo (USP) Alexandre Di Miceli da Silveira, que estuda o tema há 15 anos e lançou recentemente o livro “Governança corporativa no Brasil e no mundo”.

Membro do Comitê de Revisão do Código do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), o especialista avalia é preciso moldar ambientes que induzam as pessoas a pensar no longo prazo de maneira voluntária. Essa mudança, na visão de Di Miceli, depende essencialmente de novos líderes, acostumados à transparência e receptivos a críticas, características que ele não vê em boa parte das empresas brasileiras.

O Estado de S. Paulo: O que a Lava Jato mostrou ao país sobre o tema governança?
Alexandre Di Miceli da Silveira: O tema é relativamente antigo no país, mas ganhou importância maior nos últimos anos. E a Lava Jato mostrou que ainda temos muito a avançar. Há mais marketing do que boa governança. Assim como sustentabilidade e responsabilidade social, governança se tornou uma das expressões-chave que empresas não podem ignorar. Mas há uma distância grande entre proferir palavras de ordem e, de fato, praticá-las. Basta dizer que todas as empresas envolvidas na Lava Jato tinham áreas de governança.

O Estado de S. Paulo: Qual o motivo da Petrobras admitir, em uma ação a que responde nos EUA, que suas medidas de governança são ‘cosméticas’?
Di Miceli: Nos Estados Unidos, essa é uma linha de defesa que pode levar a penalidades menores. A empresa alega ter usado uma linguagem genérica, comum no mercado, para escapar da pena por enganar investidores. Mas isso sinaliza a forma como muitas empresas tratam o tema. Ficou o sentimento de que, embora a governança seja tema popular, é preciso avançar em matéria de conteúdo.

O Estado de S. Paulo: Então, o que fazer?
Di Miceli: Não existe uma “bala de prata” que faça todas as empresas terem boa governança, mas isso não quer dizer que é inútil ter regras. No caso do Novo Mercado, muitas empresas têm usado o segmento apenas para aparentar ter boa governança. A Bolsa precisa se reinventar. É preciso uma mudança de paradigma em relação ao que se espera de empresas, do administrador, e o peso que as lideranças têm que ter para fomentar uma boa cultura organizacional. O país avançou muito menos do que acha que avançou em governança.

O Estado de S. Paulo: Punições na Lava Jato podem contribuir neste processo?
Di Miceli: Sem dúvida. Mesmo no pior cenário, caso a Lava Jato seja anulada no STF, já avançamos. No caso da PF, as ações estão mais sofisticadas. Agora, a mentalidade no ambiente empresarial vai mudar? Acho que sim, mas vai demorar. Temos uma geração de empresários que não estão acostumados com transparência, prestação de contas, opiniões dissonantes e críticas. São pessoas que pararam no tempo. O nosso ambiente empresarial depende de novas lideranças.

O Estado de S. Paulo: A mudança, então, depende das próximas gerações dos líderes de organizações?
Di Miceli: Depende de uma nova mentalidade e de novas lideranças. Empresas vão surgir com essas novas lideranças, mas elas não serão a fatia principal, isso leva tempo. Já temos bons exemplos de empresas sintonizadas com o nosso tempo. Como dizia Peter Drucker (considerado o pai da administração moderna), não existe empresa forte em sociedade doente.

O Estado de S. Paulo: A mudança da governança no país seria mais sutil, cultural. Como uma empresa deve lidar com esse aspecto?
Di Miceli: Ninguém tem uma resposta clara sobre isso, mas é relativamente fácil para uma empresa disfarçar suas práticas usando a estrutura da boa governança. Em primeiro lugar, é preciso ter líderes comprometidos com a boa governança.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 8/9/2015

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