Domingo, 11 de dezembro de 2016
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Entrevista: Edmund Phelps – Inovar para ser feliz

O economista americano, ganhador do Prêmio Nobel em 2006, diz que o impulso de criatividade está sendo derrotado nas economias modernas pelo veneno do corporativismo.

O americano Edmund Phelps, de 82 anos, recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 2006 por seus estudos sobre desemprego e inflação. Nos últimos anos, contudo, ele se dedica ao tema da inovação, que diz ser o motor fundamental de uma “boa economia” — aquela que não apenas leva os países à prosperidade, mas abre perspectivas de realização pessoal para os indivíduos. Essa tese está desenvolvida em seu livro mais recente, Mass Flourishing (Florescimento em Massa), de 2013, no qual ele também identifica a principal ameaça ao desenvolvimento: a submissão ao corporativismo. Phelps avançou e foi além do clássico Joseph Schumpeter, autor da expressão “destruição criativa”, na análise da inovação. Ele falou a VEJA de Nova York, onde vive. No Brasil, como em outros países, a resposta furiosa dos taxistas ao aplicativo de transporte Uber é um símbolo de como a inovação pode causar conflitos.

Qual a sua solução para situações desse tipo?
Minha resposta é inequívoca. Estarei sempre do lado dos inovadores, daqueles que estão empenhados em detectar novas oportunidades, criar novos produtos ou processos de trabalho. É impossível superestimar o papel que a inovação e o empreendedorismo têm na prosperidade econômica. Qualquer leitura honesta da história mostrará isso. Infelizmente, em toda parte a força benigna da inovação é bloqueada pelo medo da “mudança desordenada”, que nada mais é que o bicho-papão criado por grupos de interesse, sindicatos, empresas confortavelmente estabelecidas em seus nichos de mercado e pelos políticos com os quais cada um desses atores tem ligação umbilical. Medidas que bloqueiam a inovação, mesmo nas raras ocasiões em que são tomadas com a melhor das intenções, revelam que um veneno está correndo nas veias de uma sociedade: o veneno do corporativismo. Daí resultam não apenas economias menos dinâmicas e produtivas, mas menores oportunidades para que as pessoas tenham uma vida cheia de realizações.

O que o senhor chama de corporativismo?
Na linguagem do cotidiano, trata-se do esforço de um grupo para defender seus interesses acima de tudo, custe o que custar. Eu me refiro a algo mais amplo, um conjunto de práticas e valores. Há um elemento muito antigo no corporativismo, a ideia de que a economia e a sociedade funcionam como um corpo, em que cada “órgão” tem o seu papel. Essa ideia sofreu metamorfoses ao longo dos séculos e ganhou corolários até se articular, entre o fim do século XIX e o começo do XX, numa filosofia de resistência à economia moderna. A meu ver, a grande batalha do nosso tempo não é mais entre o capitalismo e o socialismo, mas entre os valores modernos da livre-iniciativa e da inovação, que estão no centro do capitalismo, e os valores reativos do corporativismo.

Que valores são esses?
No lugar da competição, o corporativismo prefere a coordenação e o controle da atividade econômica. Isso cria vínculos fortes entre o Estado e o setor empresarial, de forma que boa parte da atividade econômica depende de negociações com o governo e não da lógica do mercado. É o Estado que decide qual setor deve ou não crescer em determinado momento, lançando mão de subsídios, incentivos fiscais e empréstimos — em geral, para aqueles que conseguem se organizar melhor em defesa dos seus interesses, ou simplesmente gritar mais alto. Outro valor fundamental do corporativismo é a proteção social. Proteção para empresas, que conquistam reserva de mercado e não precisam se preocupar em melhorar seus produtos obsoletos, o que é devastador para a inovação. E proteção para os mais diversos grupos sociais, que abocanham uma fatia da riqueza produzida pelo país graças a políticas redistributivas. No corporativismo, a tributação é sempre elevada, para permitir que o Estado ofereça um quinhão a todos. É um sistema que sempre trabalha para manter a ordem estabelecida, o que em termos econômicos significa matar pela raiz os incentivos à inovação e à busca da competitividade. A atual crise grega mostra esse sistema em pleno funcionamento.

O corporativista e o socialista parecem ter muito em comum. O que os diferencia?
Do ponto de vista prático, o socialismo está acabado. A propriedade estatal dos meios de produção, que é um dos pilares do sistema, não é mais uma alternativa levada a sério. O corporativismo sempre quis algo um pouco diferente. Ele nunca rejeitou a propriedade privada, desde que houvesse uma medida considerável de controle da atividade econômica pelo Estado ou pela sociedade. O corporativismo está vivo onde quer que o governo beneficie uma empresa com incentivos especiais ou proteja um grupo de interesse. Quanto aos defensores de um sistema ou de outro, você provavelmente vai identificar o corporativista pelo seu viés nacionalista, pela sua preocupação em defender a “comunidade” de todas as forças externas que supostamente a ameaçam, ao passo que o socialista tenderá a ser mais preocupado com a desigualdade. Mas você tem razão: embora tenham filosofias diferentes, nem sempre é fácil distinguir um personagem do outro, porque ambos compartilham do mesmo ponto de partida, que é a aversão àquilo que o capitalismo tem de melhor, ou se a, sua instabilidade e seu caráter “disruptivo”, para usar a palavra da moda.

Como o cuidado com os mais pobres e a preocupação com a desigualdade devem entrar na equação capitalista?
É fundamental garantir o acesso universal à educação, porque isso ajuda a nivelar as oportunidades. Um nível moderado de proteção social também tende a ser inofensivo, se financiado por um sistema neutro de tributação. O problema é que raramente paramos por aí. Nas grandes nações europeias, e em muitas outras, entre as quais o Brasil provavelmente também se encaixe, o que vemos é o avanço do corporativismo. O Estado começa a prover a todos, mas quem mais se beneficia não são os pobres, e sim as elites empresariais ou sindicais com melhor acesso ao governo. Pior que isso, a economia perde eficiência e os salários crescem menos do que poderiam. As oportunidades para o surgimento de negócios se reduzem, e com isso a chance de as novas gerações terem uma vida mais rica de experiências, participarem mais ativamente do fluxo da economia. Os corporativistas estão sempre preocupados em balancear os interesses dos diversos atores sociais, em garantir alguma renda para todos. No capitalismo, contudo, a preocupação fundamental deve ser com a iniciativa individual, com aquilo que um indivíduo pode fazer com sua vida.

Nunca se falou tanto em inovação. Há bibliotecas inteiras dedicadas a esse tema, livros sem fim sobre startups e empreendedores. Ainda assim, o senhor tem dito que se observa uma queda considerável nos níveis de inovação. Em que o senhor se baseia para fazer essa afirmação?
Fala-se muito da indústria de tecnologia. Mas o Vale do Silício, por exemplo, é responsável por algo como 3% da renda americana e por uma parcela ínfima do número de empregos. Quando você olha a economia como um todo, o cenário nem de longe é tão animador. A revolução digital não compensou, e não sei se um dia vai compensar, a perda de energia e criatividade em setores tradicionais da indústria e dos serviços. Essa perda de dinamismo é palpável para quem percorre os Estados Unidos de ponta a ponta. Em vez de inovarem, eles tratam de conseguir alguma proteção de mercado ou vivem de suas patentes, que a meu ver deveriam ter prazo de validade muito menor do que têm hoje em dia, quando se tornaram uma ferramenta para desencorajar quem deseja entrar em um mercado, e não uma proteção temporária para quem investiu em algo novo. Essa perda de dinamismo se traduz em números. Há estudos que documentam uma grande desaceleração na produtividade da economia americana, que resulta em mais desemprego, salários mais baixos e, não menos importante, menor satisfação das pessoas com o seu trabalho.

Qual o remédio para isso?
Precisamos de um ambiente em que as empresas se sintam obrigadas a desenvolver coisas novas. Precisamos abandonar a ideia de que inovação é algo que os outros fazem e retomar a cultura de exploração e experimentação que fez com que a inovação explodisse em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e França no século XIX. Nessas economias, a inovação não estava restrita às elites. Todas as camadas da sociedade estavam galvanizadas pela ideia de criar um futuro diferente. Como disse o presidente Abraham Lincoln, os Estados Unidos eram um país tomado pelo “furor da novidade”. Gente sem educação especial, mas profundamente envolvida com seu trabalho, agarrada às suas ferramentas, obcecada pelas minúcias de sua atividade, contribuiu com inovações, pequenas e grandes. Naquele período da história, que foi um dos mais extraordinários do ponto de vista do crescimento econômico, a alegria de criar, de empreender e assumir riscos era vista como um caminho para uma vida plena. Creio que é preciso recuperar esse afã para assistir a um novo “florescimento em massa”, se você me permite fazer referência ao título de meu livro.

A educação científica é o ponto de partida para isso?
O mais importante é expor os jovens à história humana de exploração e inovação. Devemos valorizar os grandes nomes do Renascimento, a expressividade dos românticos, a rejeição às normas dos modernistas. Todo país precisa de gente envolvida com ciência, engenharia, matemática e computação. Mas nem toda inovação vem dessas áreas. Na verdade, um espírito de inovação dificilmente será forjado somente com essa dieta.

Algum conselho de um prêmio Nobel para os pais de hoje em dia?
Criem seus filhos para apreciar a aventura, a experimentação, uma dose saudável de risco. Não sei se é assim no Brasil, mas é comum a percepção de que os pais americanos se tornaram superprotetores. Não protejam demais seus filhos. A maior referência entre os economistas quando se fala de inovação é o austríaco Joseph Schumpeter, que se referiu ao capitalismo como um sistema em que impera a “destruição criativa”.

O senhor é um discípulo de Schumpeter?
Não quero parecer pretensioso, mas não sou. Schumpeter acreditava que toda inovação vem da ciência. A função dos empreendedores era encontrar aplicações comerciais para as descobertas científicas, levantar o capital necessário para a iniciativa e organizar a produção. Ele disse explicitamente que gente de negócios raramente tem imaginação ou criatividade. Se você é um discípulo de Schumpeter, tende a pensar que a inovação depende de institutos de pesquisa ou pequenos grupos de gente esclarecida. Meu conceito de inovação tem a ver com gente comum. É uma inovação que vem da base.

Na última década, o Brasil fez uma aposta no consumo como motor do desenvolvimento. Essa é uma estratégia que pode dar certo a longo prazo?
Não. Usar recursos do governo para estimular o consumo é bom tão somente para empresas estabelecidas e setores tradicionais da economia. Nos momentos favoráveis, esse tipo de política pode criar um ciclo positivo em que o desemprego é baixo e as pessoas têm dinheiro para comprar. Mas essa é uma visão limitada do desenvolvimento. O crescimento a longo prazo só estará garantido se houver clareza sobre o fato de que a prosperidade de um país depende da inovação e do empreendedorismo. Tenho visitado muito a China. E lá, mais uma vez, está acontecendo algo extraordinário. Depois de um período de investimento estatal intensivo, os chineses estão se movendo para um modelo de incentivo ao consumo. Mas eles também estão fazendo um esforço para fomentar o empreendedorismo maciço em todas as áreas. É um movimento capitaneado pelo atual premiê chinês, Li Keqiang, que nesse aspecto mostra ser um líder fora da curva.

Fonte: Revista Veja, 21/10/2015.

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