Crédito: crescimento econômico e social

Karen Mendes (vencedora do prêmio Febraban)A partir dos anos 2000, a concessão de crédito consignado cresceu muito no Brasil. Segundo a economista Karen Dias Mendes, em 2012, a concessão de empréstimos com desconto na folha de pagamento representava 2/3 do total do crédito pessoal no país, o equivalente a R$ 150 bilhões. O tema é abordado em “Consumer Credit Expansion in Open Economies”, dissertação de Karen, vencedora VI Prêmio Infi – Federação Brasileira de Bancos (Febraban) de Economia Bancária 2014.

Em sua pesquisa realizada na PUC-Rio, a economista mostra que esta modalidade de crédito pessoal colabora com o crescimento econômico e gera benefícios sociais. Apesar dos resultados positivos, os efeitos negativos dos empréstimos consignados também merecem atenção. “Como compromete a renda das pessoas de maneira forte, pode gerar um endividamento, trazendo outras questões de cunho moral para a discussão”, explica Karen, mestre em economia.

O crédito consignado tem muita aderência porque possibilita que pessoas sem bens econômicos utilizem seus salários como garantia de pagamento aos bancos. Correndo menos riscos de receberem calote, as instituições financeiras conseguem oferecer uma taxa de juros baixa e atrativa. “Eu desconheço qualquer outro lugar que use esse mecanismo como é feito aqui no Brasil”, destaca a economista. Leia a entrevista:

Instituto Millenium: De acordo com a sua dissertação, quais foram, em linhas gerais, os efeitos da expansão de crédito ao consumidor nos anos 2000 para a economia do país?

Karen Mendes: Parto do aumento do crédito no PIB da economia do país. Estima-se que para cada R$ 1,00 de crédito injetado na economia teremos R$ 2,00 de PIB gerado – portanto, um efeito multiplicador muito importante. Além do R$ 1,00 injetado via crédito, os efeitos dinâmicos que o crédito acarreta geram mais R$ 1,00 de bônus, digamos assim. Ou seja, para cada R$ 1,00 de crédito, R$ 2,00 de crescimento econômico. Mas através de quais canais o aumento de PIB se dá? Isso acontece tanto via aumento de lucro das firmas, com o desenvolvimento das indústrias e tal, quanto via aumento do salário médio dos trabalhadores – este último fator sendo superior. Então, quando se injeta crédito na economia, em particular crédito ao consumo, que é o caso do consignado, acaba havendo uma redistribuição da renda a favor dos trabalhadores. É um dado interessante para a redução da desigualdade.

Instituto Millenium: Na verdade, então, o crédito consignado ajuda a dinamizar a economia?

Karen Mendes: A gente encontra esse efeito dinamizador por vários canais. Outro resultado aponta para o aumento do número de empregos formais. Como crescem os lucros da firma, automaticamente aumenta o número de empregos. Mas verificamos que esse aumento foi superior ao esperado. Na verdade, há uma redução do setor informal quando se injeta crédito, estimulando a formalização dos setores econômicos.

Além disso, fizemos uma análise para o setor financeiro em si. Quando expandimos os canais de crédito, também estimulamos a abertura de novas agências bancárias em lugares mais remotos, em municípios isolados — e isso vale para agências de bancos públicos e privados. A abertura de agências de bancos privados é até superior porque, ao gerar possibilidades de crédito, abre-se também a oportunidade de negócio real nesses municípios. Os bancos privados, que a gente espera estarem mais atrelados às oportunidades de lucro, acabam, automaticamente, se interessando em se expandir para as localidades onde antes não havia interesse econômico.

O aumento do crédito consignado aumenta o montante do crédito emprestado. Não é uma simples substituição do tipo, por exemplo, a pessoa tem acesso ao consignado e deixa de pedir outra modalidade de crédito para optar por essa que é mais barata. Na verdade, gera crédito novo. A pessoa que toma crédito consignado também se interessa por um financiamento de uma casa ou um crédito para produção, por exemplo. Ela acaba tendo conhecimento e envolvimento com outras modalidades de crédito.

Outros serviços bancários também crescem. Ao disponibilizar o crédito, estimula-se a pessoa ter contato com o sistema bancário. Portanto, o crédito consignado também pode ser a porta de entrada de novos clientes. A pessoa que busca o crédito também vai abrir uma conta e ter um relacionamento com o banco, demandando outros serviços que não são de linha de crédito.

Instituto Millenium: Então, é um bom negócio o crédito consignado?

Karen Mendes: Neste sentido, sim. No horizonte de tempo estudado em minha dissertação, o consignado dinamiza a economia, gera diversos benefícios financeiros e, aparentemente, sociais. Ainda não chegamos “no longo prazo”. Mas já há algumas opiniões qualitativas se referindo ao endividamento dos aposentados, por exemplo, que acabam tendo uma parcela grande de sua renda comprometida com o pagamento de dívidas e, por isso, têm mais dificuldades de cuidar da saúde e outras questões. Enfim, isso é uma coisa a ser cuidada. O aumento desenfreado do crédito a qualquer custo não é positivo.

Instituto Millenium: O Brasil é tido como um país de economia ainda muito fechada. De que forma isso prejudica a expansão do crédito no país?

Karen Mendes: Em um segundo momento da minha dissertação, analisamos como o efeito da expansão do crédito pode variar de acordo com o grau de abertura da economia. E, de fato, verificamos que os benefícios tendem a ser muito superiores nas economias mais abertas. Imagine que sejam contextos mais dinâmicos, uma vez que se injeta crédito, ele se multiplica e circula mais rapidamente.

Também fizemos a análise de variação de efeito para outras características. Antes da introdução da linha de crédito, lugares que já tinham mais crédito, que já eram mais financeiramente desenvolvidos e industrializados, tendem a deslanchar mais. Por exemplo, lugares onde uma boa parcela do PIB é dada pela produção industrial se beneficiam mais da entrada do crédito do que uma região mais agrícola. Existem essas diferenças. Temos a questão do ciclo virtuoso. Onde há mais crédito temos mais desenvolvimento e, no futuro, mais crédito e desenvolvimento. Então, a introdução de novas linhas de crédito pode ser a energia inicial para que o processo ocorra automaticamente pelo mercado.

Instituto Millenium: Como você classifica a oferta de crédito ao consumidor no Brasil atualmente? O que é preciso fazer para melhorar o quadro?

Karen Mendes: O crédito para o consumidor tem aumentado muito, sobretudo impulsionado pela linha de crédito consignado, que é muito atrativa. A maioria das outras linhas de crédito para o consumidor não consegue competir com a taxa de juros que o consignado oferece. É uma linha interessante tanto para os bancos quanto para os tomadores de empréstimo. Mas o crédito e o endividamento são duas formas de olhar para a mesma questão. Se oferecer muito crédito, as pessoas vão se endividar. E, muitas vezes, quando a pessoa toma o crédito está pensando no imediato, não considera os anos seguintes, a renda que vai deixar de ter no futuro por conta do empréstimo.

Neste contexto, eu vejo três caminhos importantes para melhorarmos a qualidade da oferta de crédito. Primeiro, um trabalho forte de educação financeira: que o crédito esteja disponível, mas que as pessoas só busquem quando, realmente, for importante. O segundo caminho diz respeito à regulação dos próprios bancos na oferta do crédito, no montante de renda que as pessoas podem comprometer com esse tipo de dívida. Hoje em dia, os beneficiários do INSS podem comprometer até 30% de sua renda com repagamento de crédito consignado, sem contar outros empréstimos que eles podem vir a assumir. Teríamos que analisar: será que o percentual não deveria ser reduzido? O último item seria a diversificação da carteira de crédito. É preciso estimular também outras fontes de crédito igualmente competitivas e interessantes para amenizar o risco e o comprometimento da renda da população.

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