“O governo deixou as coisas desarranjadas”, diz Edmar Bacha

Um dos formuladores do Plano Real, o economista Edmar Bacha, acredita que o governo tem “a faca e o queijo na mão” para reverter o pessimismo em relação ao Brasil. “Mas a decisão é essencialmente política”, diz Bacha. A seguir os principais trechos da entrevista:

O Estado de São Paulo: A semana foi de estresse cambial. Qual é a lição para o Brasil?
Edmar Bacha: O câmbio foi inventado por Deus para humilhar os economistas. Nunca se sabe para onde ele vai. O que temos não é uma crise. É uma mudança de cenário. Para os investidores, agora é menos emergentes e mais desenvolvidos. A China cresce menos e os Estados Unidos crescem mais. O Brasil já vinha vazando água. Deixou de ser o queridinho do mercado e há um afastamento dos capitais. Basta olhar a Bolsa. O último pico ocorreu no comecinho de 2011. Nós pioramos sozinhos nos últimos anos. Agora pioramos junto com os outros. Já estávamos sofrendo e vamos continuar a sofrer.

Estado:O que esperar de 2013 a partir dessa mudança?
Bacha
: Tivemos no ano passado um fenômeno particular. A indústria desovou os estoques e ficamos num ‘pisinho’ atípico. Agora parece que há uma retomada, porque a indústria voltou a produzir. Mas a questão é saber se vai ter para quem vender. Os indicadores do comércio não são tão favoráveis. O PIB este ano até será melhor que o ano passado, mas isso não quer dizer nada. Temos uma questão estrutural para resolver, e não conjuntural: desatar o nó da infraestrutura e reorientar a política industrial do protecionismo para a integração. Mas é preciso saber se o governo está disposto a fazer as mudanças. Me contaram que perguntaram ao ministro da Fazenda o que ele achava do meu plano para a indústria. Ele disse que é contrário. A pessoa queria saber o que eu achava disso. Respondi: espero que ele mude de ideia. Já mudou de ideia sobre o controle de capitais. Quem sabe muda em relação à questão industrial. O fato é que o governo tem a faca e o queijo na mão para começar a reverter a situação. Pode mudar a sensação de paralisia se conseguir realizar os leilões de rodovias e ferrovias que estão sendo prometidos para o próximos meses. O pré-sal é outro trunfo. Se o leilão for bem-sucedido pelo novo regime de partilha, vai mudar um pouco o sentimento de pessimismo que está ai. O governo colocou o filé mignon na frente justamente para ir atrás dos investidores.

Estado: Mas, com o cenário atual, há clima para investir no Brasil?
Bacha
: Essa é a pergunta e a incógnita. Parte do problema hoje não é apenas saber se o governo vai conseguir colocar o leilão na rua, mas se vai ter alguém do outro lado. Há uma turbulência por conta da mudança no cenário internacional. Logo haverá uma acomodação e menos volatilidade. Mas os preços e os fluxos de capital serão outros. Vamos precisar de ações internas decisivas que demonstrem para os investidores que o governo está afim e é capaz de tomar decisões para colocar a economia nos trilhos. Teremos um grande teste com as concessões porque todo mundo está pessimista com a dificuldade do governo para avançar na melhoria da infraestrutura e porque ele segue uma política industrial que nem os próprios industriais aprovam. Os empresários estão cansados do intervencionismo pontual, da escolha de setores e de empresas vencedoras. Aparentemente, estão dispostos a enfrentar o mundo e ter mais concorrência. Querem ficar na fábrica e não ter de ir toda hora à Brasília ou à avenida Chile (Avenida República do Chile, no centro do Rio, local onde estão as sedes do BNDES e da Petrobrás).

Estado: Qual é o peso da política fiscal nesse pessimismo?
Bacha
: Todas as manobras contábeis pesaram contra. Tínhamos critérios de mensuração que o mercado conhecia e aceitava. O governo fez a maior bagunça. Deixou as coisas desarranjadas. Hoje eu estava vendo o informe econômico do Itaú BBA: tinha dados sobre o primário recorrente, o primário estrutural, o primário oficial. Parecia que eu estava vendo os índices de preços da Argentina: o do Macri (Maurício Macri, prefeito de Buenos Aires que lançou um indicador alternativo de inflação), o dos consultores privados, o das províncias e do Indec (Índice Nacional de Estatísticas e Censos, indicador oficial do governo argentino), em que ninguém acredita.

Estado: O que é preciso rever?
Bacha
: Na cabeça de quem está no governo, o maior erro foi não se organizar para executar os leilões planejados. Mas o maior equivoco é insistir no protecionismo e não ver que, para revitalizar a economia e a indústria, é preciso uma nova política, voltada para integração internacional. Estamos perdendo o bonde da história ao insistir no acordo com o Mercosul. Enquanto todo mundo faz acordos com quem tem relevância no mundo, o Brasil fica cada vez mais isolado. Isso é o mais grave: o governo está indo confiante na direção errada e titubeante da direção certa.

Estado: Se mudar a rota, consegue reverter o cenário?
Bacha
: A Dilma ainda tem popularidade e tem os leilões. Pode, sim, reverter. Mas a decisão é essencialmente política. Seria preciso sacrificar algumas cabeças e colocar no lugar certo pessoas que estejam convencidas da necessidade de mudar o rumo e de agilizar o processo.

Estado: Qual é o risco de o País entrar em estagflação?
Bacha
: Hoje nós temos uma inflação insistente que cresce a uma taxa acima da do PIB: isso quer dizer que, em parte, a estagflação já está ai.

Estado: O que vai ocorrer se o governo insistir na política fiscal expansionista (elevação dos gastos)?
Bacha
: Será o desastre. Os limites se estreitaram para esse tipo de política porque temos ameaças externas. Se ele insistir, aí sim, o dólar pode disparar.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 16/06/2013

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2 comments

  1. Hugo Sandes

    Não cabe mais no Brasil o presidencialismo, a história mostra que ainda temos a cultura do patinho feio, e sempre acreditamos que o pai vai nos salvar. O parlamentarismo poderia dar sustentação de que o TRABALHO é o verdadeiro trilho da bôa educação, saúde, transporte e cidadania.

  2. Djalma Rosalino

    Um Pais preciza de pesquizar, planejar etc….,ou seja o governo preciza de investir em educacao,saude,transporte,seguranca para atingir seus objetivos. A pergunta e; como um pais vai para frente onde o CIENTISTA, MATEMATICO, FISICO e PESQUIZADOR nao e regulamentada no Ministerio do Trabalho ou seja nao tem carteira de trabalho e nao desprezando nenhum proficional mas o REPENTISTA, JOGADOR DE FUTEBOL e outros mais sao regulamentados no MINISTERIO do TRABALHO.