“Há, no Brasil, gente disposta a protestar”, afirma Fernando Gabeira

Fernando Gabeira não está exercendo nenhuma função política, tampouco está articulando alianças para disputar um cargo no Legislativo ou no Executivo. Isso não significa, porém, que tenha deixado de lado a luta por um Brasil melhor.

Com a mesma independência de sempre, o escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro agora expressa sua opinião contundente em artigos publicados no jornal “O Estado de S. Paulo” e no programa “Gabeira na Globonews”.

Autor de 15 livros, incluindo “Onde está tudo aquilo agora? Minha vida na política”, (Companhia das Letras, 2013), ele acredita que hoje, dada a pequenez do Congresso Nacional, pode contribuir muito mais para as grandes questões nacionais longe da política tradicional.

Nesta entrevista, Gabeira analisa as manifestações que começaram a tomar as ruas do país em junho, que ele considera ser “um sopro de ânimo”. O escritor e jornalista afirma ainda que falta muito para as instituições e os políticos darem uma resposta mais efetiva aos anseios da sociedade.

Instituto Millenium: As manifestações populares ganharam as ruas da Espanha, do mundo árabe… O que há de específico nas manifestações brasileiras?
Fernando Gabeira:
Elas não podem ser colocadas no mesmo patamar, embora todas tenham acontecido no período em que os instrumentos digitais de comunicação desempenham um papel importante. Na Espanha, o telefone celular permitiu, em 2004, as primeiras manifestações contra o governo que, às vésperas da eleição, atribuiu um atentado a um grupo que não era o responsável pelo mesmo. As pessoas sentiram que era manipulação e fizeram um grande movimento contra o governo. A Primavera Árabe e a revolta no Irã mostraram que a população, além de se revoltar, documenta a revolta e a divulga.

Grande parte da revolta no Brasil foi fruto da contradição de um país que paga imposto de forma mais que satisfatória e tem de volta um serviço publico de péssima qualidade. A corrupção e a fragilidade do serviço público no transporte, na saúde e na educação contribuíram para que as pessoas fossem às ruas.

Imil: Os protestos são também um sinal da fadiga da população com a forma de fazer política no Brasil. As críticas são constantes, mas, ano após ano, as mesmas práticas parecem não dar lugar a mudanças que respondam aos anseios da população.
Gabeira:
Sim, e o aspecto mais revoltante dessa fadiga é o cinismo dos políticos, que procuram atuar como se nada tivesse acontecido, com métodos muito grosseiros de manipulação. As pessoas querem uma nova forma de fazer política, que não está muito bem explicitada, mas que, certamente, não inclui divisão de cargos para compensações eleitorais, falta de transparência… As pessoas querem uma política mais próxima, que respeite quem elegeu o deputado ou o senador. Esses movimentos nunca passam completamente em branco, eles deixam algumas marcas e alguns comportamentos começam a ser revistos, ainda que lentamente. Considero o saldo positivo. O efeito colateral é o surgimento de grupos violentos.

Quando há grandes movimentos de massa, sobra sempre um resíduo mais radical. Sobraram grupos anarquistas, violentos, que têm como meta a destruição da propriedade particular. O que é algo simbólico, evidentemente. Não creio que acreditem que possam destruir toda a propriedade. As pessoas que protestaram não estão mais nas ruas. Estão nas ruas os pequenos grupos que querem tirar algum proveito da situação. E eles precisam de um tratamento parecido com o que é dado na Alemanha, nos Estados Unidos, no Canadá, não importa onde, a qualquer tipo de violência contra indivíduos e propriedade.

Quando se começa a administrar preços por meio de uma política populista há o risco de ter problemas adiante

Imil: Excluindo os grupos radicais, considera que as manifestações colocaram a política no centro do debate nacional e trouxeram os jovens, que pareciam afastados do tema, para dentro da discussão?
Gabeira:
As manifestações foram um sopro de ânimo no mundo inteiro. E mostrou que há, no Brasil, gente disposta a protestar. Além de tudo, mostrou que o país não é esse paraíso, esse exemplo de bem-estar, de crescimento e satisfação que o PT tenta transmitir. Romperam com esse mito de que vivemos no melhor dos mundos. E demonstraram como o PT é incapaz de se autocriticar. O PT só pode ver isso como resultado dos seus acertos. Eles não têm erros, as coisas aconteceram porque eles acertaram demais.

 

Imil: Você afirmou que a única movimentação que identificou no Congresso, como resultado das manifestações, foi a do instinto de sobrevivência. As propostas foram para acalmar a situação, mas não são de fato transformadoras.
Gabeira: Exatamente. Em primeiro lugar, algumas propostas foram populistas. Quando se começa a administrar preços por meio de uma política populista há o risco de ter problemas adiante. Eles não sabem o que fazer para estabelecer contato com a população, pois foram preparados para outro tipo de política, aquela na qual aparecem nas eleições, fazem sua companha e, depois, são deixados livres para realizarem o seu mandato, ou as suas trapaças, da maneira que escolherem. Eles ainda não estão preparados para uma politica em que sejam controlados pelo eleitor.

Imil: Muitos políticos ainda não veem o controle do público como parte do processo democrático?
Gabeira:
Cerca de 70% dos eleitores não lembram em quem votaram para deputado. Não há como controlar se já esqueceram o nome deles. Não existe essa dinâmica entre representantes e representados, como há nos Estados Unidos, por exemplo, país no qual as pessoas protestam, encaminham abaixo-assinados e tentam, de certa maneira, balizar a posição do candidato. Depois, existe a questão do feedback. Nem tudo o que acontece é previsto na campanha, há decisões que são tomadas posteriormente, mas há necessidade de se submeter permanentemente ao seu eleitorado, o que não acontece no Brasil.

Imil: Neste ponto, qual é o papel da educação? Uma população com mais acesso ao conhecimento tenderia a participar mais e exercer melhor o controle sobre a atividade política?
Gabeira:
A educação tem papel fundamental. Ela fortalece a democracia e rompe certos nós na economia. Estamos em um gargalo, falta educação para o exercício pleno da cidadania e para tocar amplamente um país potencialmente viável. Até certo momento, a má educação era vista apenas como uma deficiência que levava a uma democracia mais pobre. Hoje, ela é vista, além disso, como um grande obstáculo ao desenvolvimento do país, porque estamos entrando em uma era em que a produção imaterial, ou seja, a produção de conhecimento, é vital.

Imil: A insatisfação não ocorre da mesma forma em todo o país. Políticos e práticas que são alvo das manifestações podem ser aprovados nas urnas, mesmo que os problemas apontados nas manifestações não sejam resolvidos.
Gabeira:
Eles são alvo de manifestação em certas áreas do país, que os querem submeter a um controle democrático. Mas no momento em que eles se elegem, se elegem também em áreas onde os vínculos são de clientelismo. E esses vínculos não se abalam tanto com a questão ética. Os políticos dão alguma coisa para que a pessoa vote neles, prestam favores, então, ela vai entender que também é razoável que procurem fazer alguma coisa por eles. Cria-se uma cumplicidade não consciente entre o voto clientelista e todas as formas de corrupção.

Imil: Em relação à reforma política, como votá-la, uma vez que envolve interesses de quem está no poder atualmente?
Gabeira:
As mudanças necessárias ameaçam carreiras, vínculos que muitos políticos, voluntariamente, não vão abrir mão. É preciso fazer uma reforma política que permita destacar os temas e, depois, avançar progressivamente neles. Por exemplo, a questão da Lei da Ficha Limpa veio de baixo para cima, foi uma movimentação da sociedade. Os deputados se sentiram intimidados para votar e aprovar. Outros projetos desse tipo podem ser encaminhados e a estrutura legislativa vai sendo mudada a partir daí.

Lamentavelmente, nós não temos mais, no Congresso brasileiro, uma minoria esclarecida que pense no futuro da instituição. Essa minoria, em sintonia com o movimento das ruas, criaria uma força para efetuar mudanças, que são de várias ordens, inclusive de concepção sobre como gastar o dinheiro. Os políticos gastam o dinheiro como se país fosse multimilionário. Eles constituíram uma espécie de enclave na máquina burocrática, no qual também estão os amigos e aliados.

Muitos setores estratégicos estão nas mãos de aliados políticos, o que produz uma série de obstáculos

Imil: A população não foi às ruas para pedir reforma política. Ela saiu por mais transparência, menos corrupção e melhor uso dos recursos públicos.
Gabeira:
Exatamente, ela quer que o governo se disponha a gastar o dinheiro da forma mais inteligente possível, ela quer menos corrupção. Não acredito que se possa culpar a política, exclusivamente, pela falta de eficácia e pela corrupção, pois existem pessoas responsáveis por isso. É necessário, progressivamente, tentar alcançar essas pessoas. Não creio que um movimento mágico de reforma política possa solucionar essa questão, eles só vão parar para pensar como exercitar a mesma tática de ganhar dinheiro e enriquecer em novas circunstâncias. É necessário que exista uma reforma política muito pausada e muito refletida.

Imil: Como criar uma estrutura que permita tratar o dinheiro público com eficácia, para promover uma forma de fazer política que permita pensar a médio e longo prazos?
Gabeira:
A dificuldade é muito grande, porque a estrutura do Estado é dirigida politicamente. Muitos ministérios, muitos setores estratégicos, estão nas mãos de aliados políticos, o que produz uma série de obstáculos incontornáveis. Por exemplo, vejamos o campo da energia, tão vital para a economia do país. O [Barack] Obama, em determinado momento, convidou um Prêmio Nobel de Física para a área de energia [Steven Chu, secretário de Energia]. Aqui no Brasil é o Lobão [Edson Lobão, ministro de Minas e Energia]. Ele não tem condições de conduzir a complexidade da política energética de um país como o Brasil. Estão fadados ao fracasso porque partem de erros fundamentais. Eles sempre deram mais importância à propaganda do que ao que estão fazendo de fato, há dois universos paralelos. A Dilma [Rousseff] também é um produto dessa política partidária. Milhões e milhões jogados na publicidade criaram essa imagem. Mas, na verdade, ela não tem também condições de dar respostas. É muito difícil nas atuais circunstâncias ter políticas que otimizem os recursos nacionais.

Imil: A burocracia do Congresso o afastou da política tradicional?
Gabeira:
Neste momento, é muito melhor trabalhar fora porque é possível contribuir sem se desgastar. Pelo tipo de aliança que o PT e o PMDB criaram, a dominação que estabeleceram, e pelo fisiologismo no Congresso, todos os seus passos serão condenados ao fracasso. A população vai dizer: “Nós temos um deputado muito bom, honesto, boa gente, mas não consegue nada”. E eu não tenho que fazer política partidária, posso fazer política em um sentido maior, aderir às grandes causas que podem melhorar o país.

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1 comment

  1. marcia lopes

    esse é o ponto: Eles ainda não estão preparados para uma politica em que sejam controlados pelo eleitor.

    ainda nao estao dispostos a responder aos que os pagam.

    tá na hora de virar esse jogo!