Mina Ahadi critica atuação internacional em defesa das mulheres

O Instituto Millenium  entrevistou a ativista iraniana Mina Ahadi, que veio ao Brasil para o 2o Fórum Democracia & Liberdade.  Relativismo cultural, proibição do uso do chador (burca islâmica) na França, participação das entidades internacionais foram as abordagens do Instituto em torno de um só tema: direitos humanos.

Por Fred Portela

Qual é a opinião da Sra. sobre a posição das entidades internacionais, como a ONU, na defesa das mulheres ameaçadas pelo apedrejamento?

Mina Ahadi – Sou muito crítica em relação a essas instituições. Viajei muito, fui muitas vezes a Bruxelas, visitei quase todos os ministros das relações exteriores de países europeus, estive várias vezes em Nova Iorque para encontrar pessoas da ONU e falei com o substituto do Kofi Annan (ex-secretário geral da ONU) sobre o apedrejamento. Fazendo um balanço, fiquei muito desiludida com essas instituições. Sempre pedem paciência, com olhos frios. Chegou um momento em que achei que não valia a pena falar com eles. Agora eu falo mais diretamente com as pessoas.

Muito se fala do relativismo cultural quando a questão dos direitos humanos vem à tona em países como o Irã. Até que ponto esse relativismo deve ser levado em consideração quando há pessoas e vidas ameaçadas pelo sistema político?

Ahadi – Quando a vida está em jogo, não se pode defender nenhuma posição relativista. Os direitos humanos também não podem ser relativizados. Em pleno século 21, temos que saber que todos os homens são únicos e deveriam ter a oportunidade de viver plenamente, por que todos nascem apenas uma vez.

Diferentemente do Islã, a Sra. não acredita em vida após a morte?

Ahadi – Como ateia, eu não aposto nem uma ficha numa vida além da morte. Só temos uma vida e por essa razão, os direitos de cada indivíduo devem ser concretizados.

Qual é a importância da sociedade civil para a transformação da política?

Ahadi – Eu acho muito importante que a sociedade interfira na política, mas nos últimos tempos, vemos sérios problemas quanto a isso, inclusive em países democráticos. Na Alemanha, por exemplo, a população que se nega a votar está aumentando muito. As pessoas estão cansadas de política, elas têm a  impressão de que os partidos estabelecidos não representam os anseios do eleitorado. Não há representatividade.

A Sra. vê alguma solução para este desinteresse pela política?

Ahadi – Acho que nós precisamos de um novo movimento no qual a democracia direta seja mais valorizada. Nós temos tantos progressos no mundo, como a internet e as redes sociais, por que não usar estes progressos para que as pessoas participem mais, de uma forma diferente, da política?

Muito recentemente, o governo francês proibiu o uso do chador no país. Isso traz a relação do Islã com as mulheres para o centro do debate?

Ahadi – Sim. Há quem diga que as mulheres muçulmanas desejam o chador. Dizem que existe uma discussão em torno de direitos de mulheres muçulmanas, mas isso não é verdade. A discussão na verdade é sobre direitos das mulheres que são oprimidas por organizações terroristas, inclusive em Teerã. Nós defendemos os direitos das mulheres quando conseguimos que o véu seja proibido na França.

Nos últimos meses, vimos verdadeiras revoluções árabes em países como o Egito, Síria e Líbia, em busca de novos sistemas eleitorais e condições de vida melhores. Com isso, o caso da iraniana Sakineh Ashtiani ficou em segundo plano na imprensa internacional. Como a sra. vê isso?

Ahadi – Ficamos todos muito entusiasmados com as revoluções árabes. São revoluções de jovens contra regimes ditatoriais. Isso vai ajudar milhões de pessoas, bem como a Sakineh.  Essas revoluções mostram que as pessoas que estão lutando são como eu ou você. São pessoas iguais a nós que desejam a liberdade.  Naturalmente, um dos efeitos dos acontecimentos foi que o caso de Sakineh não está muito em foco. Apesar disso, estamos muitos felizes. Sakineh atraiu a atenção do mundo inteiro, ela se tornou símbolo da luta contra o apedrejamento. Milhões de pessoas agora conhecem seu rosto, já é um grande ponto a nosso favor. Agora, o próximo passo é tentar tirá-la da prisão. Eu espero que minha viagem ao Brasil a ajude. Espero conseguir falar com a presidente Dilma, para que possamos ter algum êxito com Sakineh.

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