O economista Nelson Barrizzelli critica a política de créditos brasileira: “O governo está confundindo crescimento com desenvolvimento”

O Instituto Millenium ouviu o economista Nelson Barrizzelli para entender quais serão os efeitos, para a economia, das políticas de incentivo ao consumo adotadas pelo governo, como a concessão de crédito e a redução dos juros. Na entrevista exclusiva para o Imil, Barrizzelli fala sobre o aumento da inadimplência, a queda da produtividade e sobre a falta de direção do país para o verdadeiro crescimento: “O governo não está perdido por causa da crise mundial, mas está perdido em função da falta de planejamento interno e de longo prazo.”

Instituto Millenium: Qual a sua opinião sobre as medidas de incentivo ao consumo para o país? Quais são os efeitos a curto e longo prazo?
Nelson Barrizzelli: A primeira questão é que o governo está confundindo crescimento com desenvolvimento. Os incentivos ao consumo contribuem para o crescimento, e não para o desenvolvimento. O crescimento por consumo é uma característica dos países desenvolvidos, onde os investimentos em questões prioritárias como a da infraestrutura já foram feitos. Nesses casos, o país só pode crescer se houver um forte incentivo ao consumo.

Se crescer antes de se desenvolver, o crescimento terá vida curta. É o que têm acontecido nos últimos 50 anos no Brasil. A história brasileira é feita de ‘calombos’. O Brasil cresce e depois decresce. É muito provável que nós estejamos de novo em um desses processos de crescimento que vai se seguir ao processo de descida.

Se não houver forte modernização, reparo de mão de obra e atração de tecnologias de ponta dificilmente a nossa produtividade geral vai subir.


Imil:
Medidas fiscais de aumento e redução setoriais de impostos sinalizam uma falta de direção? O governo está perdido diante da crise mundial e da expectativa de baixo crescimento?
Barrizzelli:
O governo não está perdido por causa da crise mundial, mas está perdido em função da falta de planejamento interno e de longo prazo. A crise internacional tem um impacto muito limitado na nossa economia. O Brasil que depende da redução da crise internacional é o Brasil exportador e, assim mesmo, muito limitadamente. Porque o país como um todo só representa cerca de 1,5% do comércio internacional. Nós não somos grandes participantes da economia mundial e, portanto, o que ocorre de positivo ou negativo na economia internacional tem pouco impacto no país.

O governo está usando o problema da crise internacional para justificar a falta de direção interna. Se essas medidas fossem mais abrangentes e de longo prazo teriam um efeito completamente diferente. O governo toma medidas pontuais que favorecem setores específicos e tem prazo de validade. Ele acena com medidas emergenciais justamente porque não tomou providências para que essas medidas não fossem necessárias. O que eu vejo é uma falta de direção motivada pela incapacidade que nós temos tido. Isso não é uma coisa recente e não é uma culpa exclusiva desse governo.

Nós não conseguimos fazer um planejamento para o país que aponte cinco, seis ou dez anos a frente. Por isso, a gente tem que ficar tomando medidas que são absolutamente episódicas, que favorecem aquele setor que grita mais e assim por diante.

O governo está usando o problema da crise internacional para justificar a falta de direção interna

Imil: As medidas de incentivo ao consumo estão sendo acompanhadas do aumento das taxas de inadimplência. Quais são as consequências do crescimento da inadimplência?
Barrizzelli:
O aumento da inadimplência resulta do fato de as pessoas se sentirem mais confiantes no futuro em função do nível de emprego que nos temos tido, do aumento real do salário mínimo e do crescimento dos salários, que têm sido ligeiramente superiores à inflação corrente. Enquanto nós não tivermos mudanças substanciais nessas tendências as pessoas vão continuar confiantes no futuro e vão assumir compromissos de longo prazo. Se o governo incentiva esse “assumir compromissos”, as pessoas vão buscar ter os bens que durante anos não puderam ter.

O nível geral de inadimplência ainda é controlável. Grave é o fato de que nem sempre está se dando crédito para pessoas que efetivamente possam assumi-lo. Se olharmos a crise que aconteceu em 2008 nos EUA, que é mãe dessa crise que está ocorrendo na Europa, vamos ver que ocorreu basicamente porque pessoas que não podiam ter crédito tiveram crédito.

No caso do Brasil isso não é tão grave como foi nos EUA porque aqui o Banco Central  (BC) controla 100% das financeiras. Espero que o BC não espere acender uma luz vermelha e que ele interfira na luz amarela, que é o que ele fazia até o governo Dilma. Porque antes do governo Dilma, o BC era independente, mas agora ele perdeu a independência.

Imil: Que medidas devem ser tomadas para orientar o mercado rumo a produtividade?
Barrizzelli:
Se olharmos as estatísticas dos últimos cinco anos veremos que a produtividade está em queda. Se não tivermos um forte incentivo ao consumo, a queda da produtividade vai gerar inflação. A vantagem é que hoje a inflação está sob controle, fundamentalmente, porque existe capacidade ociosa na indústria. Por isso, não deve haver inflação no médio prazo.

A produtividade depende de dois fatores: modernização e mão de obra produtiva. Ainda estamos devendo muito em termos de modernização das nossas indústrias e temos uma grande carência de mão de obra preparada para operar equipamentos de alta complexidade.

Um terceiro fator importante são as áreas de altíssima tecnologia. Não estamos dando atenção para áreas como genética, informática e biotecnologia. O governo gastou bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES )para incentivar frigoríficos, cooperativas que produzem leite pasteurizado, enfim, para atividades que são importantes internamente, mas que deveriam se bastar. Mas nas áreas de geração de tecnologia moderna não só não estamos investindo, como não estamos atraindo capital externo.

Imil: Que medidas devem ser tomadas para estimular a competitividade?
Barrizzelli:
As empresas brasileiras precisam trabalhar internamente para se tornarem competitivas. O nosso mercado exige competitividade da empresa em alguns segmentos. Em outros segmentos não é necessário ter competitividade nenhuma. Observe-se por exemplo a proteção que o governo está tentando dar para empresas nacionais que não têm tecnologia a oferecer nos mercados protegidos. O caso do petróleo é mais flagrante do momento. O governo quer que empresas nacionais produzam navios de grande porte para atender a Petrobras e elas não têm tecnologia para isso.


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2 comments

  1. Regina Caldas

    “O governo quer que empresas nacionais produzam navios de grande porte, para atender a Petrobrás, e elas não tem tecnologia para isto”. A propósito, como vai o programa de incentivo aos estudos no exterior, em busca de novas tecnologias que tirem nosso monumental atraso na área?

  2. t tonucci

    O texto, na sua totalidade, evidencia alvíssaras em vez de aflições. Se não dependemos do comércio exterior, como foi dito ; ótimo, vamos atacar o mercado interno, o que já estamos fazendo. Também, como foi dito, o BC tem total controle da inadimplência, que está longe de ser um problema,no médio prazo..A inflação esta controlada. A infra-estrutura, pelo menos até a copa, está salva.No penúltimo bloco o articulista, parece, se descuidou da coerência ao afirmar contra os estímulos à produção para o consumo interno. Por fim o que o nobre professor não disse: estamos bem no tema emprego/renda.