Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

“O ‘mãos de tesoura’ virou coletor de impostos”

O economista Paulo Guedes é um crítico implacável da mentalidade social-democrata que domina a política e a economia do país desde a redemocratização, em meados dos anos 1980. Ph.D. pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, o templo do liberalismo global, Guedes é um dos fundadores do Banco Pactual, hoje BTG Pactual, o maior banco de investimento brasileiro, e do Ibmec – a primeira escola de negócios a oferecer cursos de MBA Executivo, de menor duração. Hoje, aos 66 anos, é sócio e presidente do conselho de administração da Bozano Investimentos, da qual o empresário Júlio Bozano detém 20%. Nesta entrevista a “Época”, Guedes diz que o agravamento da crise econômica e política oferecerá uma nova oportunidade de o país realizar um ataque frontal aos gastos públicos. Segundo ele, o plano lançado recentemente pelo PMDB poderá ser adotado pelo governo e ajudar o país a sair da crise.

Época – Hoje, o senhor e outros economistas estão falando mais de política que de economia. O que está acontecendo?
Paulo Guedes
– Quando os economistas tiveram a possibilidade de fazer a diferença, eles não resolveram. Não aproveitaram as oportunidades que surgiram desde a redemocratização – nos planos Cruzado, Bresser, Verão, Collor e até no Real – para realizar uma grande transformação na economia brasileira. Não atacaram estruturalmente o excesso de gastos públicos, promovendo a reforma da Previdência, a flexibilização da legislação trabalhista, o corte de impostos e a descentralização de recursos para Estados e municípios. O PT só agudizou o problema. Em 30 anos, a social-democracia, hegemônica, dominante politicamente desde meados dos anos 1980, não conseguiu fazer o que tinha de ser feito. A esquerda não tem coragem de enfrentar corretamente, tecnicamente, o problema. O que eles sabem fazer? Aumentar gastos até serem chamados à realidade. Quando os militares assumiram o poder, o Brasil era o país que mais havia crescido no mundo em 75 anos – 7,4%, em média, ao ano. Em seguida, vinha o Japão, com crescimento de 7,3% ao ano, de 1900 a 1975. Naquela época, 18% do PIB estava na mão do Estado. Quando os militares saíram, eram 25%. Com o Sarney, essa fatia subiu mais alguns pontos, para uns 27% ou 28%. Com o Fernando Henrique, foi para 32%. Hoje, o Estado abocanha quase 40% do PIB, se incluirmos na conta os juros de rolagem da dívida pública, que devem chegar a quase R$ 500 bilhões, o equivalente a dez Bolsas Famílias, em 2015. Só que agora o comando da operação é político. A vanguarda não está mais com os economistas. O (Joaquim) Levy (ministro da Fazenda) tem todas as qualificações necessárias para o cargo, mas é irrelevante. Há uma configuração maior em jogo.

Época – Que configuração é essa?
Guedes
– De um lado, há o despertar do Poder Judiciário. Pela primeira vez desde a redemocratização, ele está deixando de ser cúmplice do establishment. Começou com o Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, e segue agora com o Sergio Moro e os jovens que estão fazendo a Lava Jato. De outro, há o aprofundamento da recessão, mostrando que o modelo está errado e que o governo vai ter de atacar os gastos públicos, que estão subindo há 35 ou 40 anos de forma ininterrupta, independentemente de quem está no poder. Dilma está vivendo de golfadas. Por si só, está condenada à “sarneyzação”, com a cooptação da classe política, que é o que PT e o Lula querem, ou à “collorização”, que é o que a oposição quer, dando um impeachment nela. Ou o establishment ganha, dá meia dúzia de impostos para ela sobreviver e esfria o Judicário, para não haver o impeachment, ou a oposição ganha, encontra um fato relevante que justifique o impeachment, e a Dilma sai.

Época – Como fica o ministro Joaquim Levy?
Guedes
– Nesse contexto, o Levy é um tampão. Ele está virando um feijão com arroz, como foi o Maílson da Nóbrega (ex-ministro da Fazenda), no fim dos anos 1980, que gerenciava a massa falida, cumprindo a tabela e rezando para o governo acabar logo. O Levy serviu só para dar uma trégua, um respiro para a Dilma. Hoje, é mantido lá em troca de seu próprio escalpo. O “mãos de tesoura”, que era o homem que ia cortar gastos, virou um coletor de impostos. Responsabilidade fiscal não quer dizer que você pode aumentar imposto – e nessa o Levy acabou entrando. Com a maior facilidade, propôs a reoneração da folha de pagamentos. Isso é uma bomba atômica, uma arma de destruição em massa de empregos. Como a Dilma não o apoiou e ele não conseguiu implementar nada por ter sido apanhado no conflito político, está sendo desmoralizado. É patético. Ele tinha de ir embora.

Época– Nas últimas semanas, os rumores de que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles poderá assumir o lugar de Levy aumentaram muito. Se isso se confirmar, o que pode mudar na economia?
Guedes
– No cenário atual, não muda nada. Não tem jeito de a Dilma se salvar trazendo pessoas novas. Não é esse o problema. É o ataque frontal, estrutural, ao excesso de gastos do governo. Eu não tiraria o Levy, mas sei que ele é o menino do dique. Está com o dedinho lá, segurando o vazamento para não inundar a cidade. O problema não é o Levy. Ele é vítima – voluntária – das circunstâncias. Quis entrar no galinheiro. Agora, é inequívoca a capacidade do Meirelles. É um executivo muito superior ao Levy, embora o Levy tenha um treinamento melhor que o dele. O Meirelles, raposa, astuto, experiente, diz: “Eu só entro no governo blindado”. Ou ele entra blindado, para poder executar a política fiscal, ou é um suicida como o Levy, o que não acredito.

Época – O senhor vê uma luz no fim do túnel?
Guedes
– A oportunidade das reformas virá com a agudização da crise. Acredito que pode haver um desfecho favorável, mas não antes de quatro a cinco meses e não depois de outubro do ano que vem, quando ocorrerão as eleições municipais. Será que vai ser um acordo da Dilma com o (Eduardo) Cunha (presidente da Câmara Federal)? Não. Será algo que virá com o calor da crise. Qual é a novidade? É o plano do PMDB, que ataca o excesso de gastos públicos (leia Nossa Opinião na página 34). A dúvida é quem vai fazê-lo. O Lula diz: “Meirelles, Meirelles, Meirelles”. Com o plano do PMDB, o Meirelles poderá atender ao desejo do Lula, indo para a Fazenda, e promover um ataque frontal aos gastos públicos, tanto com (Michel) Temer (vice-presidente) quanto com Dilma. Com o Temer, seria até mais fácil, porque o programa é do PMDB. Se ela não se mover, a situação dela só vai piorar.

Época – O que o plano do PMDB tem de tão excepcional?
Guedes
– Depois de oito mandatos social-democratas, pela primeira vez eles vão atacar de frente o problema estrutural dos gastos públicos. Há três décadas que ninguém ousa botar isso num documento político, como o PMDB fez agora, com exceção de um pequeno suspiro do Partido Liberal, em 1989. Essa é uma notícia extraordinária no front político. Na verdade, o plano não propõe um corte de gastos, mas de seu crescimento. Ele prevê a desindexação de uma porção de gastos usando a inflação para tirar o dinheiro de um aqui e outro ali. Se a inflação for de 10%, vamos reajustar os gastos sociais só em 8% e subir o salário mínimo em 6%. O plano ataca também o problema da legislação trabalhista obsoleta, as despesas excessivas da Previdência, mas com uma tecnologia meio primitiva, de mãos de tesoura. Ainda assim,  é melhor que nada. Mas ele tem as limitações dos sociais-democratas. A outra tecnologia, que são as reformas estruturais liberais, não está ao alcance deles.

“Eu pago dois anos de crise para ter um país decente. O que nós temos hoje no Brasil não é nem capitalismo de Estado, que é quando as práticas morais são sérias, é capitalismo de quadrilha”

Época – O senhor acredita que a presidente Dilma poderá implementar esse plano?
Guedes –
Você acreditava que ela ia tirar o (Aluizio) Mercadante (atual ministro da Educação) da coordenação política? Ela tirou. Por quê? Ela precisa sobreviver politicamente. Como a crise econômica ainda não chegou em seu pior momento, a Dilma ainda acha que dá para tocar de arroz e feijão, mas daqui a alguns meses isso poderá mudar.

Época – Quando o país voltará a crescer?
Guedes –
O ano que vem já está comprometido. Agora, em 2017, com um programa desses, o Brasil vai crescer 2,5% a 3%. Até porque vamos sair de uma base muito baixa.

Época – Muitos economistas dizem que investigações de casos de corrupção como a Lava Jato atrapalham a economia. O senhor concorda?
Guedes –
Se for para ter atividade econômica fazendo 12 estádios para uma Copa do Mundo que precisa de seis ou comprando uma refinaria que não existe, como Pasadena, pelo amor de Deus. Evidentemente,  quando a Lava Jato joga uma luz numa malversação brutal de recursos, tem reflexos na atividade econômica e no desemprego. Agora, pior que isso é reonerar a folha de salário e destruir 30 milhões de empregos. Não me sensibiliza dizer que a Lava Jato destruiu 300 mil empregos no Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro). Eu pago dois anos de crise para ter um país decente. Prefiro 30 milhões de empregos porque baixaram os encargos trabalhistas do que ganhar alguns empregos porque meia dúzia de empreiteiras estava corrompendo o governo. Isso não é nem capitalismo de Estado, que é quando as práticas morais são sérias, é capitalismo de quadrilha.

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